“Somos tão jovens”- nossas respostas estão lá

“Somos tão jovens”- nossas respostas estão lá

Qual o fã que não sonhou em conversar com seu ídolo para saber a história por trás de uma determinada música? Que não quis saber onde o compositor daquela canção adorada estava quando pensou na sua letra? No caso das minhas bandas e compositores preferidos, eu sempre sonhei. E nunca escondi de ninguém que resolvi entrar na faculdade de jornalismo para entrevistar meus grandes ídolos de adolescência Sting, Bono, Morrissey, Robert Smith, Cazuza, Philippe Seabra, Renato Russo.

Realizei o sonho em relação a Sting e Bono, mas Cazuza e Renato morreram ou adoeceram antes que eu os pudesse entrevistar e satisfazer minha curiosidade. Saí muito feliz do cinema numa tarde tranquila da semana passada depois de assistir a “Somos tão jovens”, a cinebiografia de Renato Russo jovem, antes da Legião, da adolescência como professor da Cultura Inglesa ao trovador solitário, passando pela prolífica fase do Aborto Elétrico.

Aliás, por que Aborto Elétrico? A resposta está no filme. Em quem Renato, na época ainda Manfredini, se inspirou para escrever “Ainda é cedo”, figura, aliás, central do filme e de sua juventude? O filme responde. Eduardo e Mônica existiram de verdade? Que circunstâncias sugeriram a letra de “Tédio (com um T bem grande pra você)”, “Química” ou “Veraneio Vascaína”, que terminou gravada pelo Capital Inicial dos irmãos Fê e Flávio Lemos? O que têm em comum “Eu sei” e “Meninos e Meninas”? Está tudo lá no longa-metragem dirigido pelo carioca Antônio Carlos da Fontoura, que fez clássicos como “Copacabana me engana (1968) e “A rainha diaba” (1974), a princípio, não tinha nada em comum com a trajetória ou a geração de Renato que o credenciasse à disputada função de diretor de uma biografia tão esperada.

Os bastidores da criação das músicas aparecem tantas vezes que poderiam até parecer um pouco forçados. Mas para os fãs, são mais que bem vindos, já valeriam a ida ao cinema que, no fim de semana de estreia, teve salas lotadas e boa bilheteria, e obrigou muitos quarentões a voltar com a família no dia seguinte, de preferência de dia.

Boa surpresa
Confesso que não esperava muito de “Somos tão jovens” como disse no post “Uma noite com o Aborto Elétrico” que escrevi aqui no blog em agosto de 2011, após passar uma noite na UnB assistindo a uma das sequencias de shows do filme. Olhando de fora, sem ver o monitor, o show do Aborto parecia fake. Mesmo quem não tem idade para ter ido a um show da banda que deu origem ao Legião e ao Capital Inicial (o baterista Flávio e o baixista Fê que estão até hoje na banda de Dinho Ouro Preto começaram no Aborto junto com Renato), desconfiava que os punks fãs da banda não subiriam ao palco após o show para festejar alegres a ponto de subir uns nos ombros dos outros (foto abaixo).

A julgar pelo que esta cena parecia a quem assistia da arquibancada do teatro de arena, o filme poderia se tornar um ôba, ôba que só visava a arrebatar multidões aos cinemas. Talvez o próprio diretor tenha optado pelos planos mais fechados em Renato, talvez tenha sido salvo pelo montador brasiliense Dirceu Lustosa. O fato é que o filme terminou surpreendendo positivamente a quem assistiu àquelas filmagens.

Voz “quase” real
A escolha dos atores principais e o treinamento (coaching) feito com eles pelo tecladista e arranjador Carlos Trilha deram resultado. Trilha era da banda de apoio de Renato em sua fase solo, dos bons “Stonewall Celebration Concert” (1994) e “Equilíbrio Distante” (1995), e participou do ótimo CD da irmã do compositor, a cantora Carmem Manfredini, com a banda Tantra, “O fim da infância” (Ouça três faixas em “O fim da infância, entrevista com Carmem Manfredini”, aqui no blog).

Com a ajuda de Carlos Trilha, o ator Thiago Mendonça, que já havia cantado com a voz do sertanejo Luciano em “Os Filhos de Francisco”, parecia embebido da alma de Júnior, como os pais e a irmã sempre chamaram Renato. A voz ficou muito parecida e Thiago não deixou nada a dever ao cantor no filme. Sim, é dele a voz de Renato Russo que aparece em todo o longa, com exceção das homenagens documentais em que o próprio músico aparece. Homenagens, estas sim, provavelmente dispensáveis e cheirando a marketing.

Boas e más atuações
Menções honrosas pela atuação também merecem o premiado ator brasiliense Bruno Torres, que interpreta Fê Lemos; a carioca Laila Zaid como a melhor amiga Aninha; Bianca Comparato, que faz uma Carmem Tereza com a personalidade forte que ainda reconhecemos nos dias de hoje; e Edu Moraes, um Herbert Vianna impagável. Ibsen Perucci está a cara (e os trejeitos ajudam) de Dinho Ouro Preto (abaixo).

Infelizmente, outras escolhas não foram tão felizes como a Sandra Corveloni, premiada como melhor atriz em Cannes, mas tão diferente da verdadeira dona Carminha, mãe de Renato; e de Daniel Passi na pele de Flávio Lemos, que se revela um dos personagens centrais da trama e merecia interpretação mais segura.

O filme tem todos os ingredientes para deixar felizes os fãs de Renato Russo e muitos dos que acompanharam a Legião Urbana. Renato com todas as suas cores: o perfeccionismo, a ironia, as dúvidas sobre a sexualidade, as inseguranças, o otimismo, a sensibilidade. “Que barulho é esse?”, pergunta Carmem Tereza ao ouvir o punk que o irmão conseguiu introduzir entre os amigos da capital. “É a música do futuro”, responde certeiro.

Brasília radiante na tela

Claro que para os brasilienses, o prazer é ainda maior. Apesar do sucesso de Eduardo Belmonte, meu colega Zé do curso de cinema da UnB, e tantos curta-metragistas da capital- procure Adriana Vasconcelos e Catarina Acioly, por exemplo, ainda não estamos tão acostumados a ver Brasília na telona. Que deleite, então, ver, em muitas cores e com muita luz, o bloco A da 308 sul, quadra onde estudei aos 7 anos, que no filme passa pela 303 onde a família Manfredini morava! Ou a colina, cujo nome foi escolhido por reunir as mentes brilhantes como no Olimpo grego, me revelou o roteirista. Mas atenção: já senti em uma festa de locais no último fim de semana que as licenças poéticas podem nos irritar: pulem a cena em que Renato chora a morte de John Lennon. Ou você se lembra de ter frequentado um cais no Lago sul no início dos anos 80?

E hoje é dia de João de Santo Cristo na capital. Prometo contar depois como foi a pré-estreia de Faroeste Caboclo na cidade em que a Legião foi gerada.

 

 

 

 

 

 

 

Compartilhe:
  • Print
  • Digg
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Google Bookmarks
  • LinkedIn
  • Live
  • MySpace
  • RSS
  • Twitter

7 Comentários

  1. Michele Faryj Frasunkiewicz |

    Querida Mariana,
    Como é maravilhoso (depois de um dia cheíssimo) poder relaxar e – mesmo cansada – sentir inspirada com a leitura de seus textos. Há dias não olhava seus posts e hoje li os últimos 5 que havia perdido… Que delícia de assuntos! Quanta riqueza de detalhes e beleza de escrita.
    Sei que você já sabe, porque é evidente: Sou sua fã!!!
    Desejo ter ser agraciada com a oportunidade de sempre poder apreciar seu talento… :)
    beijos pra você!

  2. Concordo em muito com vc. Adorei o filme….
    A interpretacao do Dinho foi mto bacana, a voz do Thiago Mendonça tbm. Achei fraca tbm a interpretacao do Flavio Lemos. Nao sabia do amor enrustido do Russo por ele. Achei que nao deram destaque pro Philipe Seabra. No geral, o filme foi bom e o tempo passou bem rápido, nem percebi que já era o final.
    A Aninha fez parte da vida dele, coisa que tambem nao sabia.
    Gostei do filme. Lembrei de qdo estive em BSB, e quero muito voltar com vc de guia novamente. Aguardo agora por FC.
    Bj, sds

Deixe um comentário