Axl Rose, um mito em carne e osso

Axl Rose, um mito em carne e osso

Se o objetivo de Axl Rose era deixar as pessoas sem saber o que pensar sobre seus cabelos e seu rosto, com certeza ele obteve sucesso no show realizado em Brasília com o Guns n’ Roses, durante a maior turnê da banda pelo Brasil, que ainda passará por São Paulo, Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, Recife e Fortaleza, depois de começar no Rio (ver serviço abaixo). Durante as cerca de duas horas do show iniciado com uma hora de atraso, o ex-sex symbol do rock das décadas de 1980/90 não tirou nem por um segundo os indefectíveis óculos escuros e os chapéus Panamá que, junto com um cavanhaque louro que só acentuava seus bigodes chineses (aquelas rugas ao lado da boca), teriam a função de disfarçar o envelhecimento do astro.

Uma certeza: Axl Rose, cuja barriga já havia causado espanto há 13 anos, quando o Guns se apresentou no Rock in Rio 3, não soube envelhecer. Não no sentido de ter ficado feio. Muitos ficam, mas poucas vezes vi alguém se sentir tão mal com as marcas da passagem dos anos, no caso dele, provavelmente, muito agravadas pelas drogas e pela posterior falta que  sentiu delas. Com manchas de suor entre as pernas, que se confundiam com xixi nas calças, o cantor trocou a jaqueta de couro cinco vezes (!), a despeito do calor que me fazia sentir confortável de minissaia e camiseta sem mangas. Tudo para disfarçar o indisfarçável: a barriga cada vez maior.

E os chapéus? Estaria sem cabelos? E se estivesse, qual o problema? Sua voz aguda, e ao mesmo tempo rasgada, continua boa, ele ainda consegue cantar em falsete como antigamente. Não é isso que deveria importar para um cantor de rock? A que ponto a ditadura da beleza afetou a alma desse agora senhor? Isso tudo me impressionou muito. Lembrei-me da dignidade de Peter Frampton e de Robert Plant nos shows a que assisti aqui mesmo em Brasília há pouco tempo. Também ícones da beleza em sua época (lembram-se da famosa foto de Plant sem camisa em frente ao avião do Led Zeppelin ou da capa da Rolling Stone estampada por um Frampton também com a barriga seca à mostra, em entrevista ao hoje cineasta Cameron Crowe, de “Quase Famosos?), o primeiro optou por cortar as longas madeixas; o segundo as manteve mesmo brancas. Plant, subiu àquele mesmo palco do Nilson Nélson no ano passado de camiseta justa, com a barriguinha de chopp à mostra. E ele é 20 anos mais velho que Axl Rose! Na minha modesta opinião, muitíssimo mais charmoso, seja em seus anos de ouro, seja atualmente, na fase madura. Souberam envelhecer, deu gosto de ver.

Passado o choque, e após um longo início de show de canções pouco conhecidas (exceção para”Chinese Democracy” e “Wellcome to the Jungle” que levantaram o público logo de cara), consegui prestar atenção à música em si. Os fãs pareceram satisfeitos com a substituição de Slash por DJ Ashba, que dividiu a nobre função com outros dois guitarristas, Bumble Foot e Richard Fortus, que se revezaram com ele nos solos. O único outro integrante da formação original do Guns, afora Axl, é o tecladista Dizzy Reed que já declarou que os músicos da formação atual são melhores que os antigos. De qualquer jeito, não deu para trocar Slash, um símbolo do Guns n’ Roses, por apenas um guitarrista. Com figurinos marcantes, da barba esquisita de Foot à cartola a la Slash de Ashba, passando pelas tatuagens de Fortus, os guitarristas não fizeram feio durante os riffs e solos de abertura tão marcantes na carreira do grupo.

“How are you doing? It’s good to be back”, disse Axl, somente depois de seis músicas, e sem fazer qualquer concessão ao uso de sua língua materna. Nada do já típico “Tudo bem?”, tudo muito simples e autêntico no quesito comunicação com o público.

“Live and Let die” levanta novamente o público, tão famosa na versão Guns que deve ter muita gente que nem se lembra que é de Paul McCartney. O layout do palco é o mesmo do show do Scorpions no ano passado, com a bateria atrás e bem mais elevada. Um piano e outro teclado(!) dividem esta parte do palco com a batera. Cinco telões intercalam imagens de vídeo-clips com outras complementares, de pano de fundo. Fogos de artifício também contribuem para o ar de superprodução do show que, com certeza, deve caber bem melhor em estádios. No ginásio de esportes, o barulho ensurdecedor do fogo que saía de seis pontos diferentes do palco era totalmente dispensável.

De vez em quando, umas cinco vezes, Axl Rose sai do palco, deixando um de seus músicos brilharem em looongos solos. Em sua vez, o baixista e backing vocal Thommas Stinson, de camiseta preta (made in Detroit, está escrito nela) e cabelos espetados, parece um Sid Vicious empunhando uma guitarra verde e cantando alto. A música é punk.

(Atenção para um spoiler a seguir) Já estou pensando que o solo seguinte, de Ashba serve para o velho Axl descansar, quando ele emenda com os primeiros acordes de … “Sweet Child of Mine”. O ginásio vai abaixo e eu me penitencio: aquele solo tinha uma razão de ser: que entrada, que bela escolha: a surpresa. Aquela guitarra preta incrustrada de cristais enganou todo mundo! E como “Sweet Child” soa como um hino, um hino de uma geração de roqueiros. “Tem muita força”, resume minha amiga a meu lado, que me revelara mais cedo ter nutrido uma certa paixão por Axl Rose nos anos 90.

Num passe de mágica, o piano é baixado para que Axl o toque. Começa “November Rain”. O casal de garotos ao meu lado, de uns 20 anos, dança abraçado toda a música. Impressiona o número de jovens no show. Mais jovens do que trintões, mais trintões que quarentões. Muitos pais com filhos adolescentes, de 13, até 12 anos. O menino ao meu lado, parecido com o Laerte da primeira fase da novela das 9, sabe as letras de todas as músicas. O do lado da minha amiga, as esbraveja uma a uma. É como nossa geração ao assistir aos shows dos Rolling Stones no Brasil em 1990. Encontros memoráveis com seus dinossauros do rock.

Pra mim que, confesso, conheço o Guns só do rádio (e olha que conheço muito porque como eles frequentaram – e ainda frequentam- as FMs!), o show começou agora. Axl deixa o palco de novo e volta para “Don’t cry”, uma delícia! Mais um clássico emprestado dos anos 60, “Knocking on heaven’s door”, de Bob Dylan.

“Night train” me deixa clara a influência do country no som da banda. Aliás, aquele cavanhaque de Axl não deve ser à toa. Seu sotaque, sua fala pra dentro, suas botas de cowboy, ele tem um quê de moço do interior mesmo.  Dois dos guitarristas fazem um duo de folk no violão.

Quase meia noite e Axl volta de mais uma de suas saídas, assoviando “Patience”. Outro ponto alto. Em mais uma mudança de chapéu, volta com um de veludo vermelho e dourado, com a quinta jaqueta de couro da noite, esta com muitas tachinhas, para “Paradise City”. Encendeia o Nilson Nélson pela última vez.

E sai deixando a impressão de que ali esteve um mito. A beleza deixada no passado, as poucas palavras, tudo envolto em mistério. A seu modo, sem morrer cedo como um Jim Morrison ou até um Michael Jackson, Axl Rose tem, sem dúvida, um quê de mito.

 

Próximos shows:

São Paulo
Quando – Sexta, 28 de março, 22h
Onde – Parque Anhembi – Avenida Olavo Fontoura, 1209 – Santana
Preços – entre R$ 270 e R$ 580
Ingressos – www.ingressorapido.com.br

Curitiba
Quando – Domingo, 30 de março, 21h
Onde – Estádio Durival Brito – Rua Engenheiros Rebouças, 1100, Vila Capanema
Preços – entre R$ 220 e R$ 600
Ingresssos – www.blueticket.com.br

Florianópolis
Quando – Terça, 1º de abril, 21h
Onde – Devassa On Stage – Rodovia Jornalista Mauricio Sirotsky Sobrinho, 2500, Km 1
Preços – entre R$ 220 e R$ 280
Ingresssos – www.blueticket.com.br

Porto Alegre
Quando – Quinta, 3 de abril, 21h
Onde – Pavilhão da FIERGS – Avenida Assis Brasil, 8787, Sarandi
Preços – entre R$ 130 e R$ 480
Ingresssos – www.blueticket.com.br

Recife
Quando – Terça, 15 de abril, 20h
Onde – Chevrolet Hall – Av. Gov Agamenon Magalhães, S/N – Salgadinho
Preços – entre R$ 240 e R$ 800
Ingresssos – www.ingressorapido.com.br

Fortaleza
Quando – Quinta, 17 de abril, 23h
Onde – Centro de Eventos de Fortaleza – Avenida Washington Soares, 999 – Edson Queiroz Preços – R$ 90 a R$ 400
Ingresssos – www.blueticket.com.br

 

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