Dr. House canta, toca piano e, claro, atua em show que corre o Brasil

Dr. House canta, toca piano e, claro, atua em show que corre o Brasil

Às 20 horas em ponto, o ator inglês Hugh Laurie sobe ao palco do Arena Iguatemi, em Brasília, sob os aplausos e gritos de uma plateia praticamente toda composta pelos fãs de seu famoso personagem Doctor House na TV por assinatura. Laurie não é bobo nem nada e se aproveita da fama alcançada pelo médico problemático mundo afora: faz caras e bocas, dança, manda beijos e conversa o tempo todo com o público. Um showman. Mas quem está ali não é House, é a porção musical de Laurie, que já lançou dois discos à frente da superbanda de blues que montou, a Copper Botton Band, com uma trombonista, um saxofonista/gaitista, um guitarrista/tocador de banjo, um baterista, um contrabaixista acústico, e duas backing vocals que, em boa parte do show, passam a principais, colocando o astro Laurie em seu lugar de recém chegado à música: como backing e pianista.

“Muito obrigado. Tudo bem? É muito bom estar aqui”, diz o genuinamente simpático astro inglês, após entoar a primeira música da noite, “Hey now”, se dividindo entre o vocal e o piano. Sua voz é grave e rouca, e vai ganhando firmeza à medida que o show avança. Aos poucos, dá pra ver que ele domina as teclas do piano e também a guitarra base que empunhará mais tarde no show. “This is my favorite building by Óscar Niemeyer”, afirma, vertendo o fino humor britânico. O recinto em que estamos, ao contrário, com chão de tábuas de madeira oca e cadeiras dobráveis de barzinho não combina em nada com o clima de cabaré refinado da decoração do palco, com suas cortinas de veludo, abajours e candelabros. Uma microfonia baixinha, mas insistente, quase consegue atrapalhar o supershow marcado por standards do blues de New Orleans, Chicago e Nova Iorque.

“Come on baby, let the good times roll” continua o repertório, recheado de memórias de Laurie. “Quando a gente troca de uma função para outra, nunca se sabe o que esperar”, quase se desculpa o cantor, ressaltando que prometeu à banda que o público iria à loucura quando ele os apresentasse. Elizabeth Lee é a única branca, loura por sinal, e abusa de um abafador azul pra tirar de seu trombone um som que remete aos anos 20. Vincent Henry divide o naipe de sopros com ela, trocando o sax alto pelo barítono nos clássicos e a gaita nos blues de rua de New Orleans.

“Are there men in the audience?”, pergunta Laurie depois da antiguinha “Señorina, kiss me good night”. “What kind of men are you?”, provoca, apresentando a próxima canção e ao mesmo tempo brincando com o fato de grande parte da plateia ser de suas fãs mulheres. Parecia um recado para o homem sentado ao meu lado, cuja esposa declarara na fila que amava Hugh Laurie/Dr. House (como o personagem da TV, na foto abaixo) e iria com ele pra qualquer lugar.

As mulheres também ganham importância no palco, à medida que Gabi Moreno passa de backing vocal a voz principal, lindíssima por sinal.

“Este é um delicioso suco de maçã 18 anos”, brinda Hugh Laurie com a plateia, depois de um viajante solo de gaita “by Mr. Mark Goldberg, from the city of Chicago”.

Ouvindo a superbanda formada pelo ator, um solo após o outro, não posso deixar de comparar seu oportunismo (no bom sentido) com o de Sting. Quando saiu do Police, em 1984, seu lead singer e principal compositor aproveitou a fama para montar uma banda de jazz daquelas, com direito a um integrante do clã Marsalis no sax (Brandford, irmão mais novo de Winton). É o típico jogo de ganha-ganha: que músico não quer a visibilidade que pode proporcionar um superstar do rock ou um ator de uma famosa série de TV? Por outro lado, quem não quer ser acompanhado por uma banda competente quando está se aventurando em uma nova carreira? A diferença é que, compositor que é, Sting criou os temas de jazz de “Bring on the night”, enquanto Laurie ficou em sua zona de conforto, e se ateve à interpretação dos clássicos em seu disco de estreia.

Num dos pontos altos do show, a charmosa Gabi faz um duo com Laurie, cantando em espanhol “Kiss of fire”, que já foi interpretada por ninguém menos que Louis Armstrong. O tango traz de volta ao palco a porção ator do inglês, que dança, como pode, com Gabi, ao som de belos solos de trombone (na foto abaixo, os dois dançam em outro show da temporada). O público aplaude o esforço e Laurie responde com um beijo cênico na boca da parceira.

“So dam good” é o título perfeito para uma nova música de um jovem inglês, que tira o máximo do trombone e do contrabaixo acústico dos músicos da Copper Band. Segue-se um clássico imortalizado por Bessie Smith e aí quem entoa é Sister Jean McClain, com cara e voz grave de diva. “Juuuudge, send me to the electric chair”, canta no típico blues, com um solo de banjo no meio que nos transporta diretamente a um club de New Orleans ou a uma igreja de cidadezinha do sul dos Estados Unidos. Que vozeirão!

Mais tarde no show de mais de duas horas, Sister Jean nos “levará” a uma daquelas igrejas enormes do Harlem com a balada com som de gospel “Didn’t it rain?” e depois o clássico dos primórdios do jazz “I hate the men like you”. Atriz também, essa Sister Jean. Nesse momento mágico do show, lembrei-me por que andei tanto nas ruas de Nova Iorque na última vez que fui procurando o velho Chicago Blues, um clube fantástico dedicado ao ritmo que, infelizmente, havia fechado.

O show ganhou corpo com a grande interpretação das cantoras, mas Laurie continua ali, de pianista. Faz coro com os outros homens da banda, distribui shots de whiskey pra eles (sim, é whiskey mesmo, ele revela, nada de suco de maçã).

Laurie volta de Elvis Presley com “Mistery Train”.

Quase duas horas se passaram quando a banda se retira do palco. O bizz consegue ser ainda mais contagiante do que o que ouvimos até então. “Dream, dream, rock and roll”, volta Laurie, fazendo a menina da primeira fila se levantar e puxar o público todo, e as fãs, em especial, para a frente do palco. “It’s here today and gone tomorrow”, diz a letra, traduzindo com perfeição a sensação que devem ter as fãs do Dr. House. Ele está tão pertinho e vai embora para sempre daqui a pouco. E depois de “C’est la vie”, aquele em que Uma Thurman dança com John Travolta em Pulp Fiction, o fim chega mesmo. E com ele, a satisfação de ver que os aplausos não foram apenas para o ator/personagem. A música venceu.

Serviço próximos shows:

- 25/3 em Curitiba (Teatro Positivo);
- 27/3 em Porto Alegre (Teatro do Sesi); e
- 29 e 30/3 em São Paulo (Citibank Hall, antigo Credicard Hall).

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