Posts made in abril, 2014

Coisas para se guardar sem culpa

Há pouco tempo, uma moça que é dona de um brechó na cidade me disse: se você não usa a roupa há mais de seis meses, pode se desfazer dela; é porque não vai mais usar. Há uns dez anos, uma colega da TV onde eu trabalhava expressou uma opinião parecida: você tem que se desapegar das suas coisas, são só coisas, temos que exercitar o desapego. Chegou a dizer que quem se apegava às próprias coisas era materialista.

Após sofrer com esses dois tapas na cara, concluí que não concordo com elas. Muito pelo contrário: não acho que seja um pecado capital ter apego às coisas que temos. Ter apego a roupas que nos acompanham há muito tempo, que nos cobriram ou nos enfeitaram quanto morávamos em outra cidade, vivendo outra vida, roupas que nos trazem lembranças boas, de um tempo maravilhoso que não volta mais, de pessoas que faziam parte da nossa vida de uma forma que não farão mais.

E o que dizer dos primeiros sapatinhos dos nossos filhos, dos macacõezinhos coloridos deles, de uma marca nascida no criativo bairro de Palermo, Buenos Aires, ou daquele par de botinhas de camurça baratinho e lindo de uma loja descolada – e tão barata- de Paris?

O que pode haver de materialista em guardar objetos que nos trazem boas lembranças? Que fizeram parte da nossa vida, ajudando a contar histórias importantes para nós?

Pensando em retrospecto, percebo porque aquela sentença, há dez anos, me chocou tanto. Então não posso guardar minha primeira bicicleta de 10 marchas, aquela da qual caí no Eixão e que me deixou uma cicatriz que tenho até hoje? Aquela com que andava no parque da cidade com a melhor turma que já tive na vida? Mesmo que seja para andar só de vez em quando?

Pois me recuso a aceitar esse tipo de patrulhamento pseudo-cristão, me recuso a me sentir culpada por guardar roupas que não uso mais ou visto uma vez a cada cinco, dez anos. A calça branca boca de sino lá do fundo da gaveta? Eu não usava há alguns anos e agora voltou a caber. E não é que ainda voltou à moda? Aquela minissaia de couro que cheguei a pensar em dar? Fica linda com algumas sandálias que comprei há pouco tempo. As saias cinza-claro de trabalho de 15 anos atrás? Estão ótimas com as camisas de seda coloridas da nova estação.

A camiseta com a propaganda do Telecine, canal em que fui tão feliz trabalhando, a da exposição do Castro Alves que rendeu uma bela matéria, e o casaco da High School? Estas, provavelmente eu não vou usar mais mesmo, mas me lembram momentos bons demais para serem descartadas. É um prazer abrir a gaveta e, uma vez por ano, e ver lá no fundo que elas estão lá sãs e salvas me trazendo lembranças de tudo que não quero esquecer.

E se minha mãe não tivesse guardado seu vestido de lã com saia godê dos anos 60 que hoje fica perfeito em mim? E o casaco quadriculado com botões vermelhos que volta e meia é copiado por algum estilista atual? E os vestidos de veludo? As calças de lã de boca larga? A moda é um vai e vem, tendências estão sempre voltando, e, além do mais, quem disse que tenho que estar seeeempre na moda? É muito boa a sensação de poder reutilizar algo que sua mãe vestiu quando você era criancinha. Tem a sensação do reaproveitamento e ainda a de que aquela peça passou de mãe para filha.

Materialismo pra mim é a necessidade de estar sempre comprando coisas novas só para que os outros vejam, é ser escravo da moda. E será que a necessidade de estar sempre dando coisas não serve mais para aplacar nossa culpa burguesa cada vez que compramos uma peça nova? Mais até do que realmente ter a finalidade de ajudar quem precisa?

Não serei hipócrita de dizer que não me sinto bem ao repassar as roupas a que não tenho apego para ajudar alguém que vai usá-la realmente. Não só a pessoa, mas o meio ambiente, afinal, o consumismo é inimigo do Planeta Terra. É claro que dar roupas às pessoas que não podem comprá-las nos dá uma enorme alegria e uma sensação de dever cumprido. Mas é importante separar tudo direitinho, pensando com o coração. Pra não se arrepender depois.

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Johnny fucking Marr canta Smiths

Eram 2 e meia da tarde, o sol estava escaldante, 30 graus no Autódromo de Interlagos, em São Paulo. Em frente ao palco Ônix do festival de rock Lollapaloosa, versão Brasil, um punhado de gente que caberia perfeitamente na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional de Brasília se espalhava pelo gramado esperando para ver seu ídolo dos anos 80, o guitarrista Johnny Marr. Meu coração se acelerou quando o magro guitarrista e principal compositor das canções da banda The Smiths subiu ao palco de calça preta apertadinha, camisa de mangas azul marinho e tênis e cabelos pintados de preto. Poderiam ser os anos 80, não estivesse Marr no lugar de Steven Morrissey, o carismático cantor da antiga banda e compositor das principais letras sofridas e românticas dos Smiths.

Johnny Marr abriu o show com “Te right thing right”, a bela canção que também abre o disco lançado pelo músico em 2012, “The messenger”. Recheado de músicas com a sonoridade típica da cena dark da década de 80 em Londres, o álbum é muito bom. Algumas músicas soam como os Smiths, outras com o U2, e outras como bandas mais novas, de 2000 pra cá.

Já na segunda canção, ouvi acordes que me remetiam a meus tempos de faculdade e Johnny começou: “Stop me, oh, oh, oh, stop me, stop me if you think that you’ve heard this one before”. Não pude evitar e antes de conseguir cantar junto, chorei como uma criança. Nunca imaginei que ouviria uma música dos Smiths ao vivo. Não depois de ter ido ao show de Morrissey em 2000 no Rio de Janeiro e de ele não ter cantado nenhuma das músicas que o transformaram em um dos ícones do pop rock britânico de todos os tempos.

Stop me me mandou diretamente para dias muito felizes e, ao mesmo tempo, nem tanto assim: dias em que eu me identificava perfeitamente com as letras de Morrissey, com todo aquele amor não correspondido, com todo aquele romantismo no sentido do movimento romântico do século XIX mesmo. Rimbaud, Bodelaire, Keats e Yates, todos eles influenciaram Morrissey em suas letras, me diziam os críticos do suplemento Ilustrada da Folha de São Paulo e da Revista Bizz, minhas leituras principais sobre música na época. Com certeza Shoppenhauer e Goethe, que eu também adorava ler, devem ter tido sua parcela de culpa.

Eu ouvia os Smiths e me lembrava de mim mesma, talvez por isso até hoje sua música me toque tão fundo. “Boa tardje! Thank you so much! É muito bom estar aqui com vocês!”, disse Johnny Marr em um português esforçado, antes de começar “Upstarts”, que soa como os Smiths, mas é mais pesada. A seguinte, “New town velocity”, é uma das minhas preferidas do disco solo. Remete a bandas mais novas, a uma sonoridade mais moderna, que mostra que Johnny Marr não precisa se ater aos Smiths para fazer bonito.

Seguiu-se a mais gritada “Generate, generate!”. A essa altura, o público já era bem maior. Mesmo assim, estávamos a uns 70 metros do palco e o espaço em torno de nós continuava generoso. Um amigo a meu lado contava para o outro quais as músicas dos Smiths que Marr iria tocar. “Não, não quero os spoilers. Prefiro descobri-las nos primeiros acordes”, digo eu. É quando Johnny diz: “This one is for all my old friends” e começa “Bigmouth strikes again”. “And now I know how Joan of Arc felt”! Haja curacão! Johnny fucking Marr, como diz a camiseta vendida na lojinha do Lollapaloosa, faz o famoso solo e não canta “ehehe haha”. Afinal, ele não é Morrisey.

“I fought the law”, ataca Johnny e sua banda, de baixo e bateria, em cover do The crickets, que muita gente confundiu com o The Clash. Está ali toda a influência punk do guitarrista dos Smiths. “Great job, you guys!”, diz à plateia, mostrando conexão. “I’d like to call my best friend from school”, diz em seguida, antes da entrada de ninguém menos que Andy Rourke, o baixista dos Smiths! Pronto, o sentimento de que estamos ouvindo nossa banda preferida não poderia estar mais justificado. E começa “How soon is now?”, aquela em que a base musical soa como um trem se deslocando. “Just like everybody eeeelse does…”

E como se fosse pouco, Johnny fucking Marr diz: “esta é para todo mundo que está aqui”, como se dissesse: “é pros escolhidos, estas poucas pessoas que estão aqui no palco alternativo do festival”. “Take me out toniiiiight… take me anywhere, I don’t care, I don’t caaaare”. Isso mesmo: era “There is a light that never goes out”, a minha música, o romantismo à flor da pele: “And if a ten ton truck, crushes into us, to die by your side, is such a heavenly way to die… And if a double decker bus, kills the both of us, to die by your side, oh the pleasure, the privilege is mine. Take me out tonight, take anywhere, I don’t care, I don’t caaaare”.

Saí com a alma lavada. E ainda faltavam cinco horas pra terminar o festival. Pixies, Savage, Soundgarden, New Order, Arcade Fire… estavam por vir. Pra mim, porém, o melhor já tinha passado. E me ficou como uma tatuagem na alma.

 

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José Wilker: um ator de bons personagens

“Vá se deitar que eu vou lhe usar”, dizia José Wilker para Maitê Proença com a cara dura, na pele de um dos últimos personagens que viveu na televisão, o capitão Jesuíno Mendonça da versão de 2012 da novela Gabriela. Eu não diria que Wilker era um grande ator, com qualidades impressionantes de intérprete, mas Wilker era, com certeza, um ator de grandes personagens.

Na hora em que assisti em um hotel de Brasília à notícia da morte do ator, uma morte tão prematura, antes dos 70 anos, lembrei-me primeiro do artista mambembe de “Bye, bye Brasil” (1980), de Cacá Diegues. Vi o filme ainda adolescente, em um hotel da fronteira do Brasil com o Paraguai. Um José Wilker ainda muito jovem e bonito, interpretava aquele papel de mágico de uma forma histriônica, marcante.

No táxi entre o aeroporto de Guarulhos e a casa da minha irmã em São Paulo no sábado à noite, os personagens de Wilker não paravam de pular em minha mente. Lembrei-me João Fernandes de “Batalha dos Guararapes” (1978), um filme sobre a presença de Maurício de Nassau (vivido por Jardel Filho) no Brasil e a batalha que terminou por expulsar os holandeses de Pernambuco. Eu e minha irmã, na época com 10 e 9 anos, amamos aquele filme. Todo mundo caracterizado, tudo se passava bem ali, na terra de meu pai e minha mãe, que era também era a terra onde José Wilker, apesar de nascido no Ceará, se fez ator e ativista político. Meus pais sempre diziam com certo orgulho que o conheceram em Recife quando ele fazia parte do Movimento de Cultura Popular.

Depois vieram “Xica da Silva, em que interpretou um conde,” e “Dona Flor e seus dois maridos”, em que ele fazia Vadinho, o marido mais engraçado da dona Flor vivida por Sônia Braga.

Interpretou Antônio Conselheiro em “Guerra de Canudos”, os personagens nordestinos, aliás, lhe caíam bem. Cacá Diegues teve papel importante na carreira cinematográfica de Wilker: dirigiu “Bye, bye Brasil” e “Xica da Silva” e, ainda “Um trem pras estrelas”. Segundo conta hoje em artigo na Folha de São Paulo, o tinha como um ator muito trabalhador e animado, que contagiava os colegas com quem contracenava.

Na TV, fez muitos galãs, bonito que era, como em “Anjo Mau”; interpretou personagens históricos como Jucelino Kubistcheck, na minissérie JK, fez o papel título de Roque Santeiro, mas não deixou de lado os personagens engraçados, como o Givanni Improta, de “Senhora do Destino”. Fosse drama, fosse comédia, Wilker estava sempre com aquela mesma cara séria que, de vez em quando, dava lugar ao belo e marcante sorriso.

Quis o destino que eu o encontrasse em outra situação, como comentarista da Rede Telecine, lugar em que trabalhei como redatora no início dos anos 2000. Conhecedor de cinema e dono de fina ironia, em dia de transmissão do Oscar, José Wilker era sério e de pouca conversa com os colegas de trabalho que não conhecia bem. Também bem sério ele estava no dia em que o vi com a então namorada Guilhermina Guinle na fila do cinema. A impressão que me ficou era de que Wilker (com som de “v”, ele preferia) era o próprio intelectual: um cara autêntico, que não estava preocupado com o que achavam dele. Um ator de grandes personagens, um crítico de cinema preparado. Uma grande perda.

 

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