Coisas para se guardar sem culpa

Coisas para se guardar sem culpa

Há pouco tempo, uma moça que é dona de um brechó na cidade me disse: se você não usa a roupa há mais de seis meses, pode se desfazer dela; é porque não vai mais usar. Há uns dez anos, uma colega da TV onde eu trabalhava expressou uma opinião parecida: você tem que se desapegar das suas coisas, são só coisas, temos que exercitar o desapego. Chegou a dizer que quem se apegava às próprias coisas era materialista.

Após sofrer com esses dois tapas na cara, concluí que não concordo com elas. Muito pelo contrário: não acho que seja um pecado capital ter apego às coisas que temos. Ter apego a roupas que nos acompanham há muito tempo, que nos cobriram ou nos enfeitaram quanto morávamos em outra cidade, vivendo outra vida, roupas que nos trazem lembranças boas, de um tempo maravilhoso que não volta mais, de pessoas que faziam parte da nossa vida de uma forma que não farão mais.

E o que dizer dos primeiros sapatinhos dos nossos filhos, dos macacõezinhos coloridos deles, de uma marca nascida no criativo bairro de Palermo, Buenos Aires, ou daquele par de botinhas de camurça baratinho e lindo de uma loja descolada – e tão barata- de Paris?

O que pode haver de materialista em guardar objetos que nos trazem boas lembranças? Que fizeram parte da nossa vida, ajudando a contar histórias importantes para nós?

Pensando em retrospecto, percebo porque aquela sentença, há dez anos, me chocou tanto. Então não posso guardar minha primeira bicicleta de 10 marchas, aquela da qual caí no Eixão e que me deixou uma cicatriz que tenho até hoje? Aquela com que andava no parque da cidade com a melhor turma que já tive na vida? Mesmo que seja para andar só de vez em quando?

Pois me recuso a aceitar esse tipo de patrulhamento pseudo-cristão, me recuso a me sentir culpada por guardar roupas que não uso mais ou visto uma vez a cada cinco, dez anos. A calça branca boca de sino lá do fundo da gaveta? Eu não usava há alguns anos e agora voltou a caber. E não é que ainda voltou à moda? Aquela minissaia de couro que cheguei a pensar em dar? Fica linda com algumas sandálias que comprei há pouco tempo. As saias cinza-claro de trabalho de 15 anos atrás? Estão ótimas com as camisas de seda coloridas da nova estação.

A camiseta com a propaganda do Telecine, canal em que fui tão feliz trabalhando, a da exposição do Castro Alves que rendeu uma bela matéria, e o casaco da High School? Estas, provavelmente eu não vou usar mais mesmo, mas me lembram momentos bons demais para serem descartadas. É um prazer abrir a gaveta e, uma vez por ano, e ver lá no fundo que elas estão lá sãs e salvas me trazendo lembranças de tudo que não quero esquecer.

E se minha mãe não tivesse guardado seu vestido de lã com saia godê dos anos 60 que hoje fica perfeito em mim? E o casaco quadriculado com botões vermelhos que volta e meia é copiado por algum estilista atual? E os vestidos de veludo? As calças de lã de boca larga? A moda é um vai e vem, tendências estão sempre voltando, e, além do mais, quem disse que tenho que estar seeeempre na moda? É muito boa a sensação de poder reutilizar algo que sua mãe vestiu quando você era criancinha. Tem a sensação do reaproveitamento e ainda a de que aquela peça passou de mãe para filha.

Materialismo pra mim é a necessidade de estar sempre comprando coisas novas só para que os outros vejam, é ser escravo da moda. E será que a necessidade de estar sempre dando coisas não serve mais para aplacar nossa culpa burguesa cada vez que compramos uma peça nova? Mais até do que realmente ter a finalidade de ajudar quem precisa?

Não serei hipócrita de dizer que não me sinto bem ao repassar as roupas a que não tenho apego para ajudar alguém que vai usá-la realmente. Não só a pessoa, mas o meio ambiente, afinal, o consumismo é inimigo do Planeta Terra. É claro que dar roupas às pessoas que não podem comprá-las nos dá uma enorme alegria e uma sensação de dever cumprido. Mas é importante separar tudo direitinho, pensando com o coração. Pra não se arrepender depois.

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4 Comentários

  1. Querida,
    Tua crônica me fez pensar nesse assunto, aparentemente trivial, mas que carrega questões filosóficas. Quando resolvo fazer uma limpeza no guarda-roupa, deixo tudo o que não visto há pelo menos dois anos ou mais (seis meses, como disse tua amiga, é exagero). Mas não repasso logo. Ficam aquelas roupas ali, numa mala, quase me pedindo para não se separarem de mim, pois afinal me acompanharam, como diz você, em momentos tão especiais. Resultado: algumas vão embora e outras voltam para seu lugar.
    Mas então, como fica aí a questão do desapego? Para você, que ainda tem um longo caminho pela frente, talvez essa questão não se coloque. Para mim, que já vivi, com otimismo, dois terços de minha vida, é crucial. De tua crônica, cheguei a uma conclusão: tenho que me desfazer não somente de roupas, como de livros e papéis que já se foram com outros momentos da vida. Deixar espaço para o novo, para não correr o risco de ficar apegada ao passado, tendência tão comum aos velhos.
    O vestido do casamento (feito por mamãe), as artes que ela deixou enfeitando a casa de todos os descendentes, tudo isso, claro, se não tem espaço de uso, fica na parte do armário das reminiscências, assim como alguns escritos, também preciosos, do tempo em que não existia computador.
    Quem sabe? Documentar em crônicas (essas sim, ficarão para sempre) os momentos da vida que acompanharam esse ou aquele objeto de recordação antes de se desfazer dele? Posso dizer, por experiência própria, que o desapego nos deixa mais leves. Talvez porque o fardo precisa não pesar nas costas para a gente poder voar.
    Um beijo da tia

    • É verdade, tia, às vezes o desapego nos deixa mais leves. Mas poder guardar, ter o direito de guardar, também é muito bom. Claro que não precisa guardar tudo, mas, especialmente quando se perde alguém querido, como é o seu caso, aí, sim, acho que é bom guardar algumas coisas. Fotos em crônicas podem ser uma boa saída, sim, claro. Beijos grandes!

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