Johnny fucking Marr canta Smiths

Johnny fucking Marr canta Smiths

Eram 2 e meia da tarde, o sol estava escaldante, 30 graus no Autódromo de Interlagos, em São Paulo. Em frente ao palco Ônix do festival de rock Lollapaloosa, versão Brasil, um punhado de gente que caberia perfeitamente na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional de Brasília se espalhava pelo gramado esperando para ver seu ídolo dos anos 80, o guitarrista Johnny Marr. Meu coração se acelerou quando o magro guitarrista e principal compositor das canções da banda The Smiths subiu ao palco de calça preta apertadinha, camisa de mangas azul marinho e tênis e cabelos pintados de preto. Poderiam ser os anos 80, não estivesse Marr no lugar de Steven Morrissey, o carismático cantor da antiga banda e compositor das principais letras sofridas e românticas dos Smiths.

Johnny Marr abriu o show com “Te right thing right”, a bela canção que também abre o disco lançado pelo músico em 2012, “The messenger”. Recheado de músicas com a sonoridade típica da cena dark da década de 80 em Londres, o álbum é muito bom. Algumas músicas soam como os Smiths, outras com o U2, e outras como bandas mais novas, de 2000 pra cá.

Já na segunda canção, ouvi acordes que me remetiam a meus tempos de faculdade e Johnny começou: “Stop me, oh, oh, oh, stop me, stop me if you think that you’ve heard this one before”. Não pude evitar e antes de conseguir cantar junto, chorei como uma criança. Nunca imaginei que ouviria uma música dos Smiths ao vivo. Não depois de ter ido ao show de Morrissey em 2000 no Rio de Janeiro e de ele não ter cantado nenhuma das músicas que o transformaram em um dos ícones do pop rock britânico de todos os tempos.

Stop me me mandou diretamente para dias muito felizes e, ao mesmo tempo, nem tanto assim: dias em que eu me identificava perfeitamente com as letras de Morrissey, com todo aquele amor não correspondido, com todo aquele romantismo no sentido do movimento romântico do século XIX mesmo. Rimbaud, Bodelaire, Keats e Yates, todos eles influenciaram Morrissey em suas letras, me diziam os críticos do suplemento Ilustrada da Folha de São Paulo e da Revista Bizz, minhas leituras principais sobre música na época. Com certeza Shoppenhauer e Goethe, que eu também adorava ler, devem ter tido sua parcela de culpa.

Eu ouvia os Smiths e me lembrava de mim mesma, talvez por isso até hoje sua música me toque tão fundo. “Boa tardje! Thank you so much! É muito bom estar aqui com vocês!”, disse Johnny Marr em um português esforçado, antes de começar “Upstarts”, que soa como os Smiths, mas é mais pesada. A seguinte, “New town velocity”, é uma das minhas preferidas do disco solo. Remete a bandas mais novas, a uma sonoridade mais moderna, que mostra que Johnny Marr não precisa se ater aos Smiths para fazer bonito.

Seguiu-se a mais gritada “Generate, generate!”. A essa altura, o público já era bem maior. Mesmo assim, estávamos a uns 70 metros do palco e o espaço em torno de nós continuava generoso. Um amigo a meu lado contava para o outro quais as músicas dos Smiths que Marr iria tocar. “Não, não quero os spoilers. Prefiro descobri-las nos primeiros acordes”, digo eu. É quando Johnny diz: “This one is for all my old friends” e começa “Bigmouth strikes again”. “And now I know how Joan of Arc felt”! Haja curacão! Johnny fucking Marr, como diz a camiseta vendida na lojinha do Lollapaloosa, faz o famoso solo e não canta “ehehe haha”. Afinal, ele não é Morrisey.

“I fought the law”, ataca Johnny e sua banda, de baixo e bateria, em cover do The crickets, que muita gente confundiu com o The Clash. Está ali toda a influência punk do guitarrista dos Smiths. “Great job, you guys!”, diz à plateia, mostrando conexão. “I’d like to call my best friend from school”, diz em seguida, antes da entrada de ninguém menos que Andy Rourke, o baixista dos Smiths! Pronto, o sentimento de que estamos ouvindo nossa banda preferida não poderia estar mais justificado. E começa “How soon is now?”, aquela em que a base musical soa como um trem se deslocando. “Just like everybody eeeelse does…”

E como se fosse pouco, Johnny fucking Marr diz: “esta é para todo mundo que está aqui”, como se dissesse: “é pros escolhidos, estas poucas pessoas que estão aqui no palco alternativo do festival”. “Take me out toniiiiight… take me anywhere, I don’t care, I don’t caaaare”. Isso mesmo: era “There is a light that never goes out”, a minha música, o romantismo à flor da pele: “And if a ten ton truck, crushes into us, to die by your side, is such a heavenly way to die… And if a double decker bus, kills the both of us, to die by your side, oh the pleasure, the privilege is mine. Take me out tonight, take anywhere, I don’t care, I don’t caaaare”.

Saí com a alma lavada. E ainda faltavam cinco horas pra terminar o festival. Pixies, Savage, Soundgarden, New Order, Arcade Fire… estavam por vir. Pra mim, porém, o melhor já tinha passado. E me ficou como uma tatuagem na alma.

 

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