José Wilker: um ator de bons personagens

José Wilker: um ator de bons personagens

“Vá se deitar que eu vou lhe usar”, dizia José Wilker para Maitê Proença com a cara dura, na pele de um dos últimos personagens que viveu na televisão, o capitão Jesuíno Mendonça da versão de 2012 da novela Gabriela. Eu não diria que Wilker era um grande ator, com qualidades impressionantes de intérprete, mas Wilker era, com certeza, um ator de grandes personagens.

Na hora em que assisti em um hotel de Brasília à notícia da morte do ator, uma morte tão prematura, antes dos 70 anos, lembrei-me primeiro do artista mambembe de “Bye, bye Brasil” (1980), de Cacá Diegues. Vi o filme ainda adolescente, em um hotel da fronteira do Brasil com o Paraguai. Um José Wilker ainda muito jovem e bonito, interpretava aquele papel de mágico de uma forma histriônica, marcante.

No táxi entre o aeroporto de Guarulhos e a casa da minha irmã em São Paulo no sábado à noite, os personagens de Wilker não paravam de pular em minha mente. Lembrei-me João Fernandes de “Batalha dos Guararapes” (1978), um filme sobre a presença de Maurício de Nassau (vivido por Jardel Filho) no Brasil e a batalha que terminou por expulsar os holandeses de Pernambuco. Eu e minha irmã, na época com 10 e 9 anos, amamos aquele filme. Todo mundo caracterizado, tudo se passava bem ali, na terra de meu pai e minha mãe, que era também era a terra onde José Wilker, apesar de nascido no Ceará, se fez ator e ativista político. Meus pais sempre diziam com certo orgulho que o conheceram em Recife quando ele fazia parte do Movimento de Cultura Popular.

Depois vieram “Xica da Silva, em que interpretou um conde,” e “Dona Flor e seus dois maridos”, em que ele fazia Vadinho, o marido mais engraçado da dona Flor vivida por Sônia Braga.

Interpretou Antônio Conselheiro em “Guerra de Canudos”, os personagens nordestinos, aliás, lhe caíam bem. Cacá Diegues teve papel importante na carreira cinematográfica de Wilker: dirigiu “Bye, bye Brasil” e “Xica da Silva” e, ainda “Um trem pras estrelas”. Segundo conta hoje em artigo na Folha de São Paulo, o tinha como um ator muito trabalhador e animado, que contagiava os colegas com quem contracenava.

Na TV, fez muitos galãs, bonito que era, como em “Anjo Mau”; interpretou personagens históricos como Jucelino Kubistcheck, na minissérie JK, fez o papel título de Roque Santeiro, mas não deixou de lado os personagens engraçados, como o Givanni Improta, de “Senhora do Destino”. Fosse drama, fosse comédia, Wilker estava sempre com aquela mesma cara séria que, de vez em quando, dava lugar ao belo e marcante sorriso.

Quis o destino que eu o encontrasse em outra situação, como comentarista da Rede Telecine, lugar em que trabalhei como redatora no início dos anos 2000. Conhecedor de cinema e dono de fina ironia, em dia de transmissão do Oscar, José Wilker era sério e de pouca conversa com os colegas de trabalho que não conhecia bem. Também bem sério ele estava no dia em que o vi com a então namorada Guilhermina Guinle na fila do cinema. A impressão que me ficou era de que Wilker (com som de “v”, ele preferia) era o próprio intelectual: um cara autêntico, que não estava preocupado com o que achavam dele. Um ator de grandes personagens, um crítico de cinema preparado. Uma grande perda.

 

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