A dança, as caminhadas, Deus e a criatividade

A dança, as caminhadas, Deus e a criatividade

Quem tem filhos pequenos, mesmo que tenha um esquema de babá ou baby sitter pra deixá-los em algumas noites, termina saindo menos. Pra dançar, então, “quase nunca” seria a expressão mais indicada. Sempre amei dançar, de balé a rock, passando principalmente por forró, que aprendi lá pelos 13 anos com os primos de minha prima em Recife, onde passava minhas férias. Nunca mais parei de ter vontade de dançar. No segundo-grau, enquanto meu amigo maranhense dava aula pras meninas, eu ensinava os meninos a dançar forró. Muito antes da revigorada que esse ritmo ganhou, especialmente no Rio de Janeiro, em meados dos anos 90. Uma coisa de Brasília a classe média dançar forró: aqui, em se plantando, tudo dá.

Claro, carioca que sou, e tendo morado em Salvador quando criança, tinha aprendido também a sambar lá pelos seis anos, na Bahia, que pros baianos, foi onde nasceu o samba. Deixo lá cariocas e baianos se digladiarem a respeito disso. O que importa é que o samba tá aí.

Digo tudo isso só pra deixar claro o quanto dançar me faz falta. Não vou colocar a culpa em meu marido, que não é lá (nem um pouco) chegado à dança. Paulista, sem samba no pé, apesar de bom sujeito. Só por isso, aliás, está perdoado. Meu momento dançante, então, termina sendo a hora das caminhadas pelas quadras de Brasília.

Além de no carro, é ali que ouço música. No meu I-pod nani, daqueles bem pequenininhos, cabe de tudo: do rock de um Kiss, que ouvi hoje cedo, por exemplo, até o frevo de Armandinho e de Amelinha, passando por muito B-rock (hoje, quando cheguei à letra L, e não optei pelo “random”, foi dia de Legião), de Led Zeppelin (“Rock and Roll”, a canção, é gostosa para caminhar) a Chico Buarque (“Vai passar” também embala bem).


Também tem lugar pra uma disco music (eu que sou roqueira, tenho até uma música da Beyoncé na minha seleção, presente do meu amigo pop Maurício, que me ajuda a selecionar de seu megacomputador, cheio de títulos), não só Donna Summer, mas as versões ainda moderninhas do ótimo Bronski Beat (na foto abaixo). Alice DJ também comparece, é perfeita pra dançar, quer dizer, pra caminhar… Enfim, já faz tempo que não atualizo as músicas mas, a essa altura, as várias Madonnas já estariam provavelmente acompanhadas de algumas Rihannas.

Vou ouvindo, vou cantando e, muitas vezes, quando não me contenho, vou dançando. Principalmente, quando paro para atravessa a rua. Aí pode estar certo que o motorista que estiver passando pela quadra vai me pegar dando uma dançada. Não dá pra ficar parada ouvindo Armandinho, nem Madonna, muito menos Bronski Beat!

A vergonha deixo de lado. O que me lembra algo muito importante que seria um subtema deste texto. Venho percebendo, cada vez mais, que a idade tem que dado um presente valioso: um aumento da autoconfiança que me faz não ligar tanto pra o que as pessoas (principalmente as desconhecidas) estão pensando de mim. Não gostam quando eu entro na Igreja de short ou com o fone de ouvido grandalhão no pescoço? Sinto muito, o intervalo da caminhada é o melhor tempo que tenho para falar com Deus. Não estão gostando da minha voz cantando? Well, sorry, a rua é pública e eu quero cantar.

Virginiana e filha de um pai supercrítico e autocrítico em demasia, sempre fui exatamente assim, a filha dele, mesmo: exigente demais com as pessoas, querendo muitas vezes a perfeição, na mesma medida em que sou crítica comigo mesma. E autocrítica exagerada gera insegurança, claro. Daí pra se preocupar com tudo o que pensam da gente e com tudo o que falam de nós é um pulo. Muitas vezes, eu me pego imaginando o que a pessoa poderia estar pensando de algo que estou fazendo. Imagino verdadeiros diálogos com uma determinada pessoa. Um chefe, um amigo mais cri-cri de quem gosto bastante, enfim, pode ser qualquer pessoa, normalmente alguém que importa na minha vida. Sei que tenho amigas que são piores do que eu em alguns desses aspectos. E fico muito feliz em perceber como estou mudando em relação a isso. É muito importante, com o perdão da palavra, ligar o “foda-se” de vez em quando. Não tô nem aí, penso, nessas caminhadas. É uma dádiva da idade. Por essas e outras é que nunca reclamei da chegada dela. A idade é sábia!

As caminhadas, já disse num post antigo, são também o combustível do pensamento e da imaginação. Hoje descobri que, aliada à endorfina e ao ócio, a parada para pensar na Igreja também ajuda a ter ideias. Esse post surgiu bem ali, na São Camilo de Lelis, quando comecei a conversar com o enorme Jesus Cristo pintado à minha frente. Foi na hora, no momento em que comecei a agradecer por algumas coisas boas que têm me acontecido ultimamente, que tive a ideia de escrever sobre a relação entre a autoconfiança, a música, a dança e as caminhadas. Isso deve ser o que os cristãos chamam de meditação.

Meditação para eles- não sou o que se pode chamar exatamente de cristã- é pensar, falar sobre a palavra. Muito ao contrário da minha concepção indiana de meditação, que se dá não pelo pensamento, mas sem ele: pelo esvaziamento da mente (na foto abaixo, Gurumay, a guru da linhagem de Shydda Yoga).

 

No caso de hoje, incrivelmente, o resultado foi muito parecido. Eu tinha parado de pensar quando olhei para o Cristo da parede. Minha mente estava vazia. Veio o ócio. Veio a ideia. Muitas das vezes em que estou medidando nos satsangs (encontros de canto e meditação) de Syddha Yoga, a corrente do hinduísmo que sigo, tenho boas ideias. Os dois momentos levam ao ócio criativo. Aquele que deu o start a esse blog. Só posso agradecer a Deus, a Shiva, por meus momentos de ócio. Que continuem prolíficos!

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5 Comentários

  1. marcelle lago |

    adorei o champanhe na sauna !!!

  2. Luiz Mauricio Navarro |

    Muito bom! Sou a influência Pop na sua vida. Beijos.

  3. Como gostei de ler teu texto, Mariana. Eu, caminhante constante e igualmente um tanto frustrada pela pouca dança (que, no meu caso, acresce-se as dobradiças que reclamam do impulso dançante, sobretudo quando se trata do frevo), também compenso, como você, nas músicas das caminhadas. Que bom teus momentos de ócio criativo! que continuem prolíficos (veja que houve um erro de digitação dessa palavra no teu escrito). Beijão da tia

    • Já corrigi, tia. Era erro hermenêutico mesmo, não era só de digitação. É, no meu caso o joelho está atrapalhando quando a música me leva a correr em vez de andar. Vem uma dor! O que fazer? Voltar a caminhar e tentar reforçar a articulação no Pilates.

      Sim, Maurice, vc é minha influência pop. Tamos precisando dar uma reciclada em breve!

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