No clima de Dancing Days

No clima de Dancing Days

O que que “Dancing Days” tem? O que torna essa novela de 1978 tão especial? Pra muito além do clima da discoteca, aquele clima de que algo novo estava acontecendo; para além do romance misterioso entre a ex-presidiária e do diplomata da Zona Sul; para além do incrível carisma de Sônia Braga e Joana Fomm, que tornou o antagonismo das duas irmãs tão verossível; para além até do jeitão conquistador que Antônio Fagundes já tinha na pele de Cacá (eu não me lembrava disso!); “Dancing Days” tinha dois trunfos básicos: os diálogos e a inocência.


Os diálogos eram extremamente realistas e continuam atuais, claro, em se excetuando as gírias típicas daquela época, com as quais, Gilberto Braga e Daniel Filho inovaram a linguagem das novelas. A inocência dos relacionamentos, o amor da adolescente vivida por Lídia Brondi, Vera Lúcia, por Beto, personagem do muito saudoso Lauro Corona, um dos maiores galãs da TV brasileira daquela época e o primeiro ator do País a morrer de Aids, anos depois (na foto, com Glória Pires e Lídia Brondi, suas duas namoradas, em momentos diferentes da novela).


Sem ter medo de parecer saudosa e nostálgica- porque eu nunca tive mesmo medo de me assumir absolutamente nostálgica do que foi bom- como é legal ver Vera sonhar com o primeiro beijo de Beto! A gente olha praquela cara linda da Lydia Brondi (que falta ela faz! Por que mesmo que parou?) e se lembra de outros tempos mesmo. A nossa adolescência. O tempo em que adolescente não usava maquiagem, não fazia sobrancelha; unha, então, nem pensar! O pijama era folgadão, roupa não tinha quase importância, aliás. Mal comparando, a Vera me membra eu mesma! Como era bom ser natural! Que horror e que incompreensão eu tenho em relação a esse aspecto da juventude dos anos 2000! É necessário mesmo se arrumar tanto aos 14?

Gente, e o que é a Joana Fomm num longo laranja lindo? Ela fazia a burguesa de bom gosto, a cada dia com um vestido mais bonito que o anterior. Noutro dia, Yolanda brilhou com um vestido dividido entre faixas longitudinais azuis e rosas, bateu o recorde até agora. E como Joana era bonita (eu também não me lembrava disso!). Impagável Yolanda com uma amiga ao telefone lembrando dos bons tempos em Paris com o marido que já não ama mais. Ela está casada por interesse hoje, mas já amou o marido. Nada de maniqueísmos em Gilberto Braga.

Outra personagem que adoro é a de Pepita Rodrigues. Sim, a bela Pepita Rodrigues antes de ser a mãe do cria casos Dado Dolabella. É a típica carioca de Copacabana, apesar do forte sotaque paulista: lutadora, sem frescuras, mas muito feminina. Dá um duro danado pra tirar o pai, vivido por Mário Lago, das roubadas em que vive se metendo. Pepita Rodrigues foi outra que saiu de cena muito antes do que deveria.

Mário Lago fazendo o velhinho Alberico, cheio de sonhos impossíveis, também não se esquece. Quando eu imaginaria que 20 anos depois o entrevistaria sobre suas composições musicais? Nunca. Pra mim, Mário Lago era o ator da televisão, com certeza muito por causa desse papel.


Isso sem falar em Cláudio Corrêa e Castro, Iara Amaral, Beatriz Segall que, em em Dancing Days assinava Beatrix! Vai saber por que! A dinâmica da relação de Celina (Beatriz) e Franklin (Castro) também chama a atenção e vai despertando minha memória aos poucos.

Incrível o funcionamento da memória humana, aliás. Celina, Alberico, Yolanda, Verinha, Carminha, cada nome que ouço parece tão familiar! Como se não se tivessem passado nem um terço desses 36 anos. E como esquecer Marisa, a personagem com a qual Glória Pires estreou nas novelas brasileiras: tão mimada e ao mesmo tempo tão transgressora?

Trilha sonora de luxo
E a música? Bem, este é um daqueles casos em que se pode dizer sem vacilar que a trilha sonora é um personagem. A colocação das canções me fez lembrar porque eu nunca achava que cada personagem tinha sua música. Porque não era assim antes. Em “Dancing Days”, a lindíssima “Amanhã”, de Guilherme Arantes, por exemplo, perpassa a trama toda, aparecendo em momentos diferentes, “João e Maria”, de Chico Buarque, também será um dos temas de Beto, mas quando ele começar a namorar Marisa, mais pra frente na história. E ainda não chegamos na inauguração da discoteca, o primeiro e mais importante turning point  (virada) da trama, em que a música também vai mudar!

Por isso tudo é que é bom demais poder assistir a essa reprise, ainda mais gravada na NET HD, porque aí posso vê-la às 9 da noite, no lugar da chata “Em Família”. Posso dizer sem medo que, pra mim, rever tudo isso e ir completando as lacunas (enormes) da história em minha memória de menina de 10 anos, é um verdadeiro sonho tornado realidade!

Lembranças da vida real
“Dancing Days” teve uma importância crucial na minha vida, como teve na de tantas crianças da minha geração. Foi a primeira novela das 8 que vi, foi ao som de “Abra suas asas, solte suas feeeeras”, de Nélson Mota, que dancei em minha primeira festa de aniversário dançante. Mais que isso: a garagem da minha casa na 707 sul foi transformada em uma verdadeira discoteca, com globo de luz, luz branca (aquela que faz os objetos brancos parecerem fosforescentes) e luz estromboscópica (pra quem não sabe o que é isso, é aquela que faz com que a imagem de quem está dançando pareça com um monte de fotos, uma após a outra, ou seja, a imagem se interrompe e volta, se interrompe e volta…). Isso com um bustiê, um camisão e meias lurex como as de Júlia Matos, personagem de Sônia Braga. E com DJ e tudo! Lembro-me perfeitamente da minha decepção quando ele disse a minha mãe: “Ah, a festinha é de 10 anos só, né?”. Ao que eu respondi prontamente: “Só não. Dez anos já!”, no maior orgulho. “Dancing Days”. Esta sim, tudo a ver!

 

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4 Comentários

  1. Que saudades que tenho dessa novelinha, eu era muito pequena, mas claro que me lembro. O Drama da ex-presidiária para conquistar sua filha… Obrigada por me fazer lembrar desses Bons tempos :-) Pena que nao posso ver daqui, mas tambem nem teria tempo…

  2. Claudio Ferreira |

    Ainda não era a fase do politicamente correto: é impressionante como todo mundo fumava e bebia uísque em Dancin Days! Os homens com camisas de cores berrantes abertas no peito e correntes de ouro. As mulheres de biquíni (fora o primeiro topless da dramaturgia brasileira). E, aos olhos de hoje, as cenas parecem lentas, muitas sem diálogos (só com a música ao fundo), uma edição não tão frenética como a de hoje. O mundo era mais calmo.

    • Sim, Claudinho, exatamente: eles fumam o tempo todo, principalmente a Júlia. Adoro o ritmo lento e mais ainda o fato de saber que isso reflete o fato de o mundo ser mais calmo naquela época deliciosa, os anos 70! Não é, Adriana?

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