Champanhe na sauna, sob o sol da meia noite

Champanhe na sauna, sob o sol da meia noite

“Quem quiser tomar uma cerveja dinamarquesa na sauna, é só deixar as malas no quarto, colocar o maiô e vir. Quem preferir, pode tomar champanhe”. Quem fazia o convite era Simon- o chef dinamarquês Simon Lau Cederholm, à época à frente do saudosíssimo Acquavit- ,  nosso guia-, logo que chegamos a Aare/Östersund, no interior da Suécia, vindos de Estocolmo de avião. Começava assim a segunda parte da nossa viagem gastronômica de 12 dias aos países nórdicos, feita no ano passado. O hotel onde estava a tal sauna fica em um conjunto de casas do século XVII, no meio do nada, que abriga o Faviken Magasinet, um dos melhores restaurantes da Escandinávia, com certeza, o segundo mais festejado pela imprensa especializada, somente depois do Noma, de Copenhagen, considerado (de novo) o melhor do mundo.


No segundo andar das casinhas de madeira que no século XVIII serviam como armazém ficam os quartos do hotel, que, com certeza, figuram entre os melhores em que já estive na vida. Luxo? Não ao pé da letra. Caminhas de solteiro mesmo para casal, bem pequenininhas, mas com peles como cobertor, móveis de madeira aparente, chauffage ligada pra compensar o friozinho exterior (mesmo no verão), teto baixinho pra aumentar o aconchego…

…e uma linda vista da fazenda e de uma montanha nevada lá fora proporcionada por uma janelinha que bem poderia ser da casa de Branca de Neve e os 7 anões.


Lindo, lindo de morrer aquele quartinho! Luxo, sim, no sentido de algo único na vida.

De biquíni e ao lado de meu marido de calção de banho, vamos para a sauna. Éramos em 12 pessoas, naquela excursão de luxo; luxo porque passava pelos melhores restaurantes dos países nórdicos, escolhidos a dedo pelo chef nascido ali. Champanhe, cerveja? Vou de cerveja, o marido vai de champanhe. Cerveja é mais típico, afinal os nórdicos adoram uma cerveja na sauna. De lá de dentro, vemos os campos infindáveis da fazenda, áridos e muito bonitos.O relaxamento é completo! Um dos poucos momentos de calma nessa que foi uma das viagens mais corridas que já fiz. Foram 10 dias em três países, 11 restaurantes, seis hotéis, idas e vindas de van, avião e navio. São 7 horas da noite, e o sol está alto. Estamos em  junho, época do famoso Sol da Meia Noite.

“É hora de tomar banho, vamos nos revezar”, avisa mais uma vez Simon, cortando nosso relax, explicando que há três banheiros: dois na sauna e um no corredor. Nada de banheiros nos quartos. “Temos pouco tempo para o jantar”. Com jantar, ele quis dizer banquete, descobriríamos mais tarde. Antes de começar, todos se encontram numa espécie de sala de estar do andar térreo pros amuse bouches e pra o champanhe que sempre precede todos os jantares desta viagem. Digo champanhe porque é champanhe mesmo, da região francesa, sempre, como faz  questão Simon. Esta sala é muito lindinha, nos transportando diretamente para uma noite em uma fazenda de 1700 !

Uns 40 minutos depois, subimos para a sala de jantar da casa, ou o restaurante propriamente dito.

Depois de olharmos o ambiente rústico e especialíssimo, cheio de carnes dependuradas nas vigas de madeira que sustentam o casarão, somos apresentados a Magnus Olsson, o famoso chef do local.

Ele é conhecido por sua culinária moderna/rústica feita com produtos locais, não só os plantados na fazenda, como os que dão naturalmente ali. Tubérculos, líquens e raízes estão entre eles.

O pão preto está fantástico, os patês de produtos da fazenda também.O queijo do leite das vacas da fazenda chega a ser cremoso.

Um dos pontos altos da noite pra mim foram as vieiras. Nunca as tinha visto dentro da concha. Isso sim, pode-se chamar de luxo.

Os cozinheiros auxiliares a toda hora traziam mais pratos. Alguns eram proibitivos.

O clímax da noite é o coração de boi. Sim, como eu disse, a culinária é rústica. E que coração gostoso! Em torno de nós, comidas espalhadas faziam parte da decoração. Olha ali, na terceira foto abaixo, a Liana Sabo, crítica gastronômica do Correio Braziliense, olhando a comida passar.

Em outros lugares da casa, ficam as outras partes dos animais, mostrando que o aproveitamento é o melhor possível.

E ainda tivemos que guardar espaço para o café. E que café era aquele? Para acompanhar o café moído na hora, doce de leite da fazenda, mil outras cositas e até bacon na forminha!


Com direito a explicação.

Satisfeitíssimos e precisando fazer a digestão, não haveria lugar melhor para estarmos. Vamos caminhar em direção ao lago da fazenda.E só o tempo de trocar de roupa e colocar sapatos confortáveis. O frio está gostoso e a paisagem não é em nada mal. Ah, e foi da região que Simon tirou a ideia de oferecer mantas aos comensais mais friorentos.

Um lago lindíssimo, que poderia estar em um filme de Bergman, cercado por algumas das flores e frutas silvestres (“Morangos Silvestres”, é Bergman mesmo!) que comemos no jantar, entre elas meu querido blueberry, ou mirtilo, que vi plantado pela primeira vez! E também dos líquens e raízes, claro. Na borda do lago, vemos uma neblina formada pelo encontro da água gelada com o ar. Na areia, há cocô de renas, sinal da presença desses animais na região que marca o início da Lapônia, a terra do Papai Noel. O personagem pode não existir pra quem não acredita, mas a Lapônia está no mapa e existe de verdade!

São 10 horas da noite quando pegamos o caminho de volta, subindo em direção às casas. O céu se parece com o de um pôr do sol de Brasília, com múltiplas colorações. Ainda fazemos uma fogueirinha ao chegar em frente ao hotel.

Às 11 horas, o cansaço chegou e não sabemos se conseguiremos esperar acordados mais uma hora, pela meia noite. Uns vão dormir, outros ficam. Dormir é difícil com toda aquela claridade.

Dormindo ou não, sentimos toda a magia de estarmos ali naquele paraíso, sob o sol da meia noite.

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10 Comentários

  1. Maravilha, Mariana. Cansativo, mas único, não é mesmo?

  2. Mariana querida
    que paraíso é esse menina??
    bjo e boas viagens

  3. minha amiga querida!!
    que viagem exuberante e rica de tanta beleza e coisas exóticas. Continue desvendando este mundo inusitado.
    bjo
    Janete Lemos

    • Que bom que você gostou, Janete! Haverá outros textos sobre essa viagem, feita no ano passado. Mas, por enquanto, não deixe de ler as que escrevi em 2013 mesmo sobre a mesma viagem: a do museu mais lindo do mundo, a dos fiordes e a da estrada Atlântica. É só colocar essas palavras da busca que você acha. Beijos grandes! Mariana.

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