SP Arte: aula de história da arte, mercado e … sociologia

SP Arte: aula de história da arte, mercado e … sociologia

Passear pelos stands da edição da São Paulo Arte/ Brasília pode ser mais que um aulão de história da arte moderna e contemporânea ou mais que um seminário sobre o mercado de arte no Brasil e de como está a cotação dos artistas brasileiros no mercado mundial. Sim, quem foi à feira que tomou o espaço anexo ao Shopping Iguatemi pela primeira vez até ontem (5 a 8 de junho), após algumas edições maiores em São Paulo e Rio (ver post http://escritosdoocio.com.br/2013/04/arte-pra-encher-os-olhos-e-esvaziar-o-bolso/, aqui no blog) teve o enorme prazer de contemplar diversas telas de Di Cavalcanti, especialmente as que retratam sua mulata ícone Marina Montini; pôde ver de perto as enormes obras florais de Beatriz Milhazes, uma delas à venda por U$ 2 milhões; pôde conferir em detalhe os milhares de pequenos círculos que compõem o mosaico de um autorretrato de Vic Muniz; pôde ficar pertinho de desenhos e telas de Portinari (abaixo um que continua com as cores vivíssimas até hoje!), ou de uma rara pintura de Oscar Niemeyer retratando as colunas do Palácio da Alvorada; ou até montar e desmontar um dos famosos bichos de bolso de Lygia Clarck (segunda foto abaixo), como fez meu filho de seis anos, cujo preço, U$ 1,5 milhão, mostra que sua obra só ganhou em importância internacional, ao longo das décadas.

Uma ótima surpresa da feira deste ano foram os objetos da portuguesa Joana Vasconcelos, aquela que expôs esculturas gigantescas dentro e fora do Palácio de Versailles em 2012. Os objetos da feira eram animais de cerca de um metro, como as lagartixas abaixo, que “subiam” pelas paredes do stand, feitas de cerâmica e renda, dois materiais bem portugueses, como bem lembrou o galerista com quem conversei.

Muito prazeroso poder passear em torno disso tudo isso aqui em Brasília, em casa. Já tinha visto a maior parte no ano passado na SP Arte 2013, que tomou todo o enorme Pavilhão da Bienal do Ibirapuera, em São Paulo. Além das obras históricas e/ ou milionárias, a SP Arte carrega consigo toda uma opulência em termos de importância para o mercado de arte, ou até mesmo para o mercado de consumo de luxo brasileiro. Afinal, são 22 galerias de São Paulo, quatro dentre as mais importantes do Rio de Janeiro, uma boa galeria de Salvador, outras representativas de Belo Horizonte (com as icônicas esculturas em aço de Amílcar de Castro), algumas de Brasília e duas ou três de Curitiba. Os donos das galerias estavam presentes, como conferi ao conversar com Anita Schwarts e seu marido, pernambucanos muito simpáticos radicados há 40 anos no Rio; com o pessoal da Galeria Ipanema, que trouxe um enorme Vic Muniz, e outro grande Eduardo Sued (R$ 75 mil); com outros três de galerias de São Paulo, com os representantes de Gonçalo Ivo em Curitiba, da Simões de Assis, os ótimos Flávia e Waldir Simões de Assis; pra ficar só em alguns. A feira também é uma grande oportunidade de pequenos investidores começarem coleções. No stand de uma galeria paulistana, fiquei espantada ao conhecer as gravuras de Miró que ele deixou de assinar. Sabe quanto custavam? Irrisórios R$ 6 mil! O grande espanhol Juan Miró, um dos precursores do modernismo, amigo de Picasso, tocou naquelas gravuras, ele só não as assinou. Está ali toda a aura em torno da obra. Imagine ter um exemplar desses na parede! As cores permanecem vivíssimas!

Quem, como eu, fica maravilhado com uma feira de artes tão abrangente, quer saber se ela vai durar. Na abertura, quinta-feira, perguntei à diretora geral da empreitada, Fernanda Feitosa (na foto abaixo), se esta era apenas a primeira de muitas. Ela foi reticente, embora animada.

Assim como alguns galeristas a quem fiz a mesma pergunta: “Depende”, disseram quase todos. “Depende das vendas?”, indaguei. “Depende das vendas, depende do público, depende de muitas coisas”.

A depender do público, haverá a SP Arte Brasília II no ano que vem. Mas se o fator vendas prevalecer, aí podemos ir perdendo as esperanças. Sim, houve vendas importantes, apurei, porém muito menores do que os galeristas de fora esperavam. “É a capital da República, pensávamos que haveria um público que conhecesse mais arte”, ouvi de uma sócia de galeria ontem, último dia da feira. “Percebi que há muitas mulheres com roupas e bolsas de grifes internacionais. Vi carros caros. Mas não vi as pessoas valorizando arte”, me dissera outra dona de galeria na quinta-feira, noite de abertura, em que um público ávido por ver arte, mas provavelmente reticente em investir, lotou o pavilhão.

Elite desinteressada
“Não dá pra comparar com São Paulo”, “Em São Paulo, vendemos muito logo no primeiro dia”, me disseram outros dois galeristas. Ora, doce ilusão de quem se prende à leitura da grande imprensa pensar que em Brasília há ricos como os quatrocentões paulistas e até a velha elite carioca. Percebendo a decepção, tentei traçar um quadro simplificado da elite brasiliense. “É uma dezena de empresários que cresceram com a vinda da capital para Brasília. Uma minoria entende de arte e investe. Um deles, infelizmente para vocês, está preso”, resumi, me referindo logicamente ao senador Paulo Octávio, grande empresário do ramo de construções, dono de uma das maiores rendas do Distrito Federal, e casado com uma neta de Jucelino Kubistcheck.

Outro que se mostra interessado em arte é Luís Estêvam, da mesma turma de Paulo Octávio, a mesma que foi acusada de estar envolvida no caso do estupro e assassinato da menina Ana Lídia, juntamente com o ex-presidente Fernando Collor de Mello, na juventude. Estêvam pra quem não se lembra é ex-senador cassado, e muito rico. “Ele esteve aqui durante a montagem”, me disseram alguns vendedores de galerias. “Durante a montagem? Mas ela era aberta ao público?”, perguntei, inocente. Uns disseram que sim, outros disseram que não. Mas ficou aquela sensação de quem conhece a elite brasiliense: claro, ele entrou porque age como se fosse um dos donos da capital. E o pior, não comprou nada, não que tivessem ficado sabendo.

Voltei no domingo com minha família pra mostrar a meu filho as enormes esculturas espelhadas de Ângelo Venosa, os painéis de Vic Muniz, a preciosa dedicatória de Marc Chagall em um catálogo sobre um mosaico que ele fez na universidade de Nice, retratando as viagens de Ulysses (Odisseu, na versão original de Homero, grega), a Odisseia, que meu filho,6, já conhece tão bem de um livro em versão infanto-juvenil que lemos pra ele. João gostou mais de uma instalação em forma de um tambor com um espelho dentro que aumenta a dimensão da imagem em uns 10 metros para dentro. “É o infinito”, definiu João. Também queria mostrar a meu marido as telas do carioca agora radicado em Paris Gonçalo Ivo, que fez parte da exposição histórica “Como vai você, geração 80?”, no Parque Lage, no Rio (fotos do cartaz e do parque, abaixo). Ivo é considerado um ótimo colorista e acaba de realizar uma grande exposição individual em Paris. Além da Simões de Assis, a Anita Schwarts é outra galeria importante que representa o artista, no Rio. Foi responsável, inclusive, pela exposição que ele fez na época de sua série “Oratórios”. Uma boa dica de investimento.

A presença de expoentes daquela exposição, que reuniu a nata de uma geração de artistas cariocas hoje consagrados no mercado internacional, como Beatriz Milhazes e Daniel Senise, é mais um sinal da importância da SP Arte. Os quadros geométricos e cheios de cores e fortes pinceladas de Gonçalo Ivo vêm me encantando há algum tempo.

Assim como os de outro carioca amante das linhas coloridas irregulares, Eduardo Sued, este de uma geração anterior, tem hoje 86 anos, e de quem mandei trazer uma gravura do Rio no ano passado.

Pois bem, estamos ali passeando, a esta altura nas galerias de Brasília- onde belas fotos de minha ex-colega de Correio Braziliense Zuleika de Souza estavam à venda já bastante valorizadas- quando, de repente, quem aparece do nada vindo quase que diretamente da Papuda? Ele mesmo, Paulo Octávio, acompanhado da neta do criador, Ana Cristina Kubistcheck. Rodeados por um pequeno séquito (seriam guarda-costas, seriam assessores trabalhando no domingo, seriam apenas familiares?), os dois passeiam pela feira, ela bem vestida e discreta, ele sorridente como se nada tivesse acontecido.

Não posso dizer que, para mim, tudo tenha continuado como se nada tivesse acontecido. Sim, nós sabíamos que o competente Kakai, o advogado de defesa de nove entre 10 acusados de crimes do colarinho branco, tiraria PO da cadeia assim que voltasse de sua viagem a Paris. Sim, nós sabemos que Paulo Octávio tem uma cara de pau comparável à de seu amigo de farras da juventude Luís Estêvam. Sabemos, mas mesmo assim, aquilo me espantou. Achei um acinte, me indignei. É assim, numa feira dessa magnitude, que se dissemina a imagem de impunidade de Brasília, muitas vezes injusta, claro, afinal, são os brasileiros como um todo que votam nos parlamentares. “Ele tem o direito constitucional de estar aqui”, defendeu um homem conhecedor de arte que se disse colecionador. Direito tem, pensei, mas é aquela velha história: nem tudo o que é legal é moral.

“Bem”, comentei, sem me conter: “agora chegou o comprador que faltava, diretamente de trás das grades”. A São Paulo Arte é ou não é também uma aula de sociologia?

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13 Comentários

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