Posts made in julho, 2014

“Aulas-espetáculo” no ônibus pra faculdade

por Rosa Sales (mãe de Mariana Monteiro)

Tenho as lembranças mais presentes de Ariano. Como se fosse hoje, me vejo esperando o ônibus velho amarelo de Dois Irmãos até a Faculdade de Filosofia (da Universidade Federal de Pernambuco). Um ponto adiante do meu estava à espera Ariano, morador da Rua do Chacon, também em Casa Forte. No dia em que comprou a casa, onde mora até hoje, disse que não era a compra de uma casa, mas a realização de um sonho. Era meu professor de Estética no curso de Filosofia, na Rua Nunes Machado, na Soledade.



Todos os dias, o mesmo ônibus velho amarelo mal andava- vagaroso que era naquela Casa Forte calma e bela dos anos 50. Até que os velhos ônibus foram trocados por uma frota nova, moderna, com veículos rápidos, embora menos confortáveis. Diante da euforia de todos com tal inovação, Ariano protestava todo dia, considerando saudosamente bem melhores os decadentes ônibus anteriores, vagarosos, mas tranquilos. Hoje imagino o quanto eram melhores os ônibus quase se desmanchando, que levavam o dobro do tempo dos modernos para fazer o mesmo percurso, permitindo o dobro de conversas com o querido professor.


Imagine a quantidade de “aulas-espetáculo” diárias com que tive o privilégio de “conviver” nos meus tempos de estudante! Quanta saudade!

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A Copa das Meninas 2014- 10 momentos inesquecíveis

A Copa das Copas merece este título por diversas razões: a principal dela é ter superado as expectativas até dos que torciam pra que ela desse certo, como eu. Recebeu nota 9,25 da Fifa, que reclamou da organização ao longo de toda a preparação das autoridades brasileiras. Obteve recorde de presença de estrangeiros no Brasil e resultou em mais voos nos aeroportos do que no Carnaval e no Ano Novo. Viu turistas estrangeiros extasiados com as belezas naturais do País e os campeões mundiais agradecendo até hoje nas redes sociais pelo tempo que ficaram no Brasil, além de alguns deles vestidos com a camisa da maior torcida do Brasil, a do Flamengo, meu time!! Pra mim, uma moradora de Brasília apaixonada por futebol desde uns 10 anos, foi um mês inesquecível. Por isso, deixo aqui os dez momentos que mais marcaram a Copa do Mundo, tão bem realizada, em nosso país, por nossas autoridades.

1- O Estádio Nacional lotado de camisas amarelas, a maioria brasileira, mas 21 mil colombianas, pra torcer contra a Costa do Marfim. Foi meu début na torcida da minoria, o que viria a acontecer outras vezes na Copa. Allez Côte d’Ivoire!!!, gritava eu e um casal de diplomatas moradores de Camarões, atrás de mim, ela brasileira, ele americano. Uma delícia assistir à Copa pela primeira vez no estádio noviiinho em folha, com meu marido, meu filho de 6 anos, e uma amiga que adora futebol!

2-   O mar de colombianos que saiu do estádio e foi em direção ao Brasília Shopping e lotou a praça da alimentação e o resto do shopping. Muitos foram depois assistir a Inglaterra e Uruguai nos bares do Pontão. Lá, na Devassa lotada, um inglês sofria ao ser eliminado pela seleção de Suarez, que ainda não tinha mordido ninguém.

3-   Torcer pela seleção na casa da minha amiga Juliana Sato, a mesma com a qual torci por aquela seleção fantástica de 1982, daquela vez na casa de seus pais, em São Paulo. Ninguém ganhou o bolão no primeiro jogo e ele acumulou. O pequeno Théo, 7 anos, anotava os palpites. Meu primo, Tota, casado com minha amiga de infância Juliana, narrava e comentava o jogo ao mesmo tempo. Tanto fazia se estávamos na Grobo ou na ESPN…

4-   Assistir ao jogo Holanda e Chile no Parque da Bola, evento montado no Joquei Clube, com vista para o Cristo Redentor, pelo meu amigo Túlio Barbosa e sua empresa de eventos esportivos. Com a mulher dele, minha amiga Sandra Brasil, Mônica Bérgamo e nossas crianças. Na área vip, víamos protegidos do frio, o jogo num telão enorme. Lá fora, nos intervalos, shows de samba e vinho chileno. Ganhei um vinho chileno da Casa L’Apostole, em uma aposta com a Mônica, que torceu pelos chilenos.


5-   Assistir ao jogo do Brasil num telão montado dentro da sala da casa de Ivone Belém e seu marido, ninguém menos que o músico da Bossa Nova João Donato. Foi um encontro com amigas como Zezé Sach e Cida Fontes, além de Ivone. A casa fica em frente à Baía da Guanabara na Urca. O vinho estava ótimo e o jantar, feito pelo cozinheiro Daniel, que também já cozinhou para Gilberto Gil, deliciooooso! Peixe com farofa e tomate recheado, tudo muuuito brasileiro. Na saída da casa, pra pegar o taxi pro Santos Dummont, víamos o Morro da Urca iluminado bem ali em cima, de verde! Imagem que nunca vou esquecer!

No dia anterior, tínhamos perdido o voo de volta para Brasília, de aconteceu este jogo Brasil e Camarões. A culpa foi do verdadeiro carnaval que tomava conta do bairro de Copacabana, impedindo o trânsito. Não que eu tenha achado ruim ficar mais um dia de Copa no Rio.

6-  Tomar drinks com uma pá de amigas cariocas maravilhosas no Bar Pérgola, em frente à piscina do Copacabana Palace. Pra entrar foi bem chato porque o recepcionista do hotel simplesmente não queria nem que dispensássemos o taxi. “Se não tem reserva, não tem lugar. E o Cipriani só abre às 19.” Fomos salvos pelo Lúcio, amigo que hoje é o gerente do Pérgula, e que tínhamos ido ali justamente rever depois de uns 13 anos. Ele trabalhara para o restaurante do Robert De Niro em Londres. Lá dentro do hotel, realmente, só havia gente da Fifa e de delegações de seleções que participavam da Copa. Não imaginávamos que estávamos no meio do covio de marginais desbaratados depois pela Polícia Civil do Rio. Os hóspedes africanos eram os mais animados em frente aos telões. Na mesa ao nosso lado, o holandês Seadorf discutia negócios.

7 – Voltar ao Estádio Nacional, desta vez sozinha, pra assistir a França e Nigéria nas oitavas de final. Meu coração me mandava torcer pela França, país da Revolução, e cuja língua estudei por sete anos na Aliança Francesa, mas a mente mandava torcer pelo time africano. Me emocionei ao ouvir/ver os jogadores cantando a Marselhesa, mesmo sob o protesto do filho de argelinos Benzema. Após muito ver Benzema, Debouchy, Giroud, Progba e Valbuena tentarem sem sucesso chegar ao gol, voltei do intervalo com vontade de torcer para a Nigéria. Havia conhecido um integrante da seleção nigeriana que cuida de assistir, em vídeo, aos jogos de seleções que vão jogar contra a sua. A torcida da Nigéria estava animadíssima também. Quando eu virei a casaca, a França fez os dois gols que a classificou para as quartas. Foi muito bom ver de tão perto os craques franceses! Como correm!!!

8- Fazer o álbum da Copa, primeiro com meu filho, de seis anos, depois sem ele, quando ele já não se interessava nem um pouco pela competição. Muito bom ir conhecendo os jogadores aos poucos. Assim, e assistindo aos jogos, fui montando minha seleção dos sonhos das meninas, com os jogadores mais bonitos desta Copa. Foi difícil, havia muitos desta vez, muito mais que em 2010.

9- Constatar que as mulheres estão mais interessadas e conhecendo mais sobre futebol neste ano. No jogo entre Holanda e Costa Rica, um grupo de umas 7 mulheres e alguns de seus filhos, se amontoaram no quartinho da casa da Ju pra torcer por um ou por outro. Os homens não estavam nem aí pro jogo, na maior parte do tempo. Os comentários eram de bom nível e com a perspectiva de quem assistiu a boa parte dos jogos da Copa. De vez em quando, um elogio aos tributos físicos do Van Persie porque niguém é de ferro!

10-   Ver de perto que o esforço do governo brasileiro para fazer a Copa que deu muito certo. “Sete estádios ela fez”, comemorava meu pai, que foi assistir ao jogo do terceiro lugar conosco, em minha terceira vez no Estádio Nacional nesta Copa. Ver a alegria de meu pai com a estrutura do estádio valeu demais. Os elogios dos jornais gringos, especialmente os ingleses, à hospitalidade e à simpatia dos brasileiros, fez parte da Copa das Copas. A tranquilidade dos brasileiros eu senti na pele ao assistir a meu primeiro jogo do Brasil em um estádio. Cansada de torcer por uma seleção que insistia em não chutar para o gol, vesti a camisa da Holanda, minha segunda seleção, do país onde nasceram e vivem meus primos. Chegara a apostar que o time de  Robben, Van Persie e Sneijder iria para a final com a Alemanha. Ver os brasileiros aplaudirem os jogadores holandeses depois que eles foram premiados com a medalha de bronze. Ser respeitada mesmo de laranja e receber até parabéns ao fim do jogo. Na saída do estádio, ver os brasileiros respondendo aos argentinos, apenas cantando: “Mil gols, mil gols… Sou Pelé, sou Pelé, Maradona cheirador…”. Que venham as Olimpíadas!!!

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De Simoneta a Prada, a História da Moda Italiana no Rio

Se você gosta de moda e/ou arte e está no Rio de Janeiro para assistir às quartas de final da Copa, aproveite para conferir a exposição que faz uma retrospectiva da história da Moda Italiana, a Italian Glamour. Se não abre mão de um vestido Valentino e não está nem aí pra futebol, a exposição em si já vale uma ida à Cidade Maravilhosa, que anda majestosa em tempos de inverno. Se não liga muito pra moda, mas gosta de arquitetura, acompanhe sua mulher ou namorada à mostra: o prédio da Cidade das Artes, número 5700 da Avenida das Américas, na Barra, vale o passeio por si só. É um belo exemplar da arte contemporânea brasileira, construído em concreto há menos de dez anos. Passeie pelo térreo, explore os ângulos. Seus filhos também vão adorar. Esta é a última chance de ver a exposição no Rio, que só vai até esta sexta-feira, 4/06. Depois, só viajando pra Londres, única outra cidade onde a exposição também aportará. Pra quem não tiver tempo de ir, ficam aqui alguns desses modelos históricos.

Quando chegar ao terceiro andar pelo elevador, você vai dar de cara com outra verdadeira obra de arte: vestidos chiquérrimos, muitos deles coloridíssimos, praticamente voando em três planos diferentes do espaço.

Comece por baixo, tomando a sua direita, mais precisamente pelos anos 1950. Nesta que é a segunda “ilha” da exposição, estão os vestidos luxuosos rodados de festa, feitos sob encomenda, antes da época em que o prêt à porter (pronto para usar) passou a dominar a cena europeia. Ali estão os supertrabalhados das irmãs Fontana…

… o usado por Lucy D’Albert, protagonista do Café Chantant, uma espécie de espetáculo musical muito popular na Itália cinquentinha; o da grande dama da moda italiana daquela década do pós guerra, Simoneta (que vai deitado mesmo, porque está difícil virar a foto abaixo)…

 

… e, começando a década seguinte, de 1960, um trapézio em forma de A de Christian Dior. Dois dos modelos mais bonitos da exposição ganharam lugar de destaque. O da direita, inspirado na Op Art, é um Fabiani, de 66, e se parece com as curvas do Calçadão de Copacabana, desenhadas por Burle Marx.

Para continuar nos anos 60, comece agora a olhar, de baixo para cima, os modelos que sobem a larga escadaria principal. Os curadores desta mostra que também será vista pelos ingleses nos lembram que as cores pasteis que predominavam nos anos 50 deram lugar às cores vidas na década seguinte. Roberto Capucci ganhou o Oscar da Moda da loja americana de luxo Neyman Marcus por este modelo roxo da foto abaixo. Mas eu adorei mesmo foram os dois longos coloridos geométricos à direita.

Estamos agora na “ilha” anterior, a primeira que se vê ao adentrar a mostra e, para mim, a mais interessante. Pulemos o lindíssimo Emílio Pucci pra continuarmos seguindo a ordem cronológica. Comecemos pelo lado oposto, com um Forquet inspirado em nada menos que a tentativa do homem de ir à Lua. A escolha do formato em trapézio não foi à tôa: lembra um foguete. Na mesma linha, Roberto Balestra fez esse modelo abaixo, todo em paetês foscos, no início da fase em que os vestidos para coquetéis se tornaram uma febre. Eram uma vestimenta chique, apesar de bem mais curtos do que os modelos usados nas décadas anteriores.

Depois de lindos conjuntos de calça e blusa para a noite…

… chegamos ao colorido longo de Emilio Pucci (cor de rosa, abaixo), um dos maiores nomes da moda italiana até hoje. O modelo é resultado do momento do pós- Segunda Guerra na Itália em que, por motivos óbvios, o sportwear se sobrepôs ao luxo. Há ainda uma clara influência da cultura hippie e de sua estética psicodélica.

Suba a escadaria à direita para ver como a crise de fornecimento de petróleo dos anos 70 levou os estilistas daquela década a trocar a caras rendas por materiais metálicos na hora de produzir roupas de noite.

E olhando em dois momentos diferentes, pode-se ver a evolução da Missoni. Primeiro nos anos 60…

… e depois, os dois à esquerda e na parte de baixo da próxima foto, nos anos 70.

Krizia literalmente brilha na parcela da exposição dedicada aos complicados, para não dizer algo pior, anos 80. São os anos nos quais cresci e, portanto, me remetem diretamente à minha adolescência. Opulência, volume e exagero talvez sejam boas palavras para definir a moda da época. Ou este macacão para a noite de Krizia não reflete perfeitamente este espírito?

Subindo a outra escadaria do espaço da mostra, vemos o mesmo Roberto Capucci lá dos anos 60, em sua versão 80. Seu vestido de 84 me fez lembrar da festa de 16 anos de minha irmã: babados enormes, saindo da estrutura principal do vestido. Note como Capucci conseguiu fazer um modelo equilibrado mesmo em meio a todo o exagero típico da época.

Crise
Com a produção de prêtes à porter se tornando cara demais, muitas maisons importantes até os anos 80, fecham as portas no fim da década. Entre os que se mantêm estão Valentino e Prada, que havia nascido no início dos anos 70. Isso, porém, a exposição não conta.

A marca de Miuccia Prada, fundada a partir de uma loja de malas de couro de seu pai do início do século XX, participa da mostra com apenas um vestido. Não se explica por que, mas pessoas que trabalham para o grupo especulam que tenha sido uma limitação imposta pela própria Prada, que já dispõe de uma fundação que, dentre outras atividades, promove exposições de arte.

A marca de Valentino Gavaranzzi, por sua vez, trata de continuar vendendo modelos exclusivos por encomenda também.

E é nesta década que surgirão os grandes concorrentes de Valentino e Prada. Dolce e Gabana é um deles Dolce abriu sua própria grife, embora ainda fosse o diretor artístico da Christian Dior, cargo que ocupou entre 1989 e 1997. Dolce veio marcada pela beleza, a ironia e o frescor.

Para quem não faz questão de tanta história e quer se concentrar nas grandes grifes italianas atuais, o segundo andar é o lugar para estar. Há a moda ultradecorada de Gianfranco Ferré,..

… a Gucci da época em que Tom Ford era quem mandava (Repare nas linhas inviesadas que ele gosta de usar até hoje, até nos óculos que desenha)…

… e da fase atual dominada pela dona Frida Giannini.

Há o único Prada da exposição, que começa em um casaco quase clássico e termina em uma saía de pelúcia laranja.

Está ali um Gianni Versace 1991, em que o estilista imprimiu uma das Marilyn Monroes de Andy Warhol…

… um Alberta Ferretti romântico, apesar das linhas limpas..

… este preto com alfinetes que foi chamado de “The dress” e usado por Elisabeth Hurley. Já o de onça meets correntes vestiu Naomi Campbell e, mais recentemente, Lady Gaga.

Chegamos ao fim da mostra, ainda animados, para encontrarmos lá no fundo, um lindo Roberto Cavalli 2007/08 que participou da exposição Godess do Metropolitan Museum (NY), e que, com seu drapeado, parece mesmo vestir uma divindade grega.

A esta altura, a exposição que antes estava vazia, já recebia alguns visitantes…

… que me registraram com a cara da felicidade, em frente a alguns dos meus maiores objetos de desejo.

E pra não ficar só a ver navios, uma boa dica é almoçar no bistrô CT de Claude Troisgross, no Village Mall, o shopping mais chique do Rio atualmente, e fazer umas comprinhas da Miu Miu- se quiser se manter na moda italiana- ou na grande loja da Cris Barros- se preferir conferir o melhor da moda brasileira. A vista lá de trás do shopping é essa aí…

 

 

 

 

 

 

 

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