A dezimportância do H

A dezimportância do H

Tenho visto posts no Facebook de muitas pessoas revoltadas com propostas, como uma de autoria de um senador, para mudar a grafia de palavras da língua portuguesa . Se acabaria, entre outras coisas, com o H na frente de vocábulos como homem, hotel, etc….

Lembro-me de ouvir em uma rádio quando estava em Portugal em 2012 um escritor muito famoso daquele País dizer que tinha proibido sua editora de aplicar às novas edições de seus livros as regras do novo Código de ortografia da língua portuguesa. Nós, aqui no Brasil, já estávamos observando as mudanças desde 2011. Na época até concordei. Hoje, não vejo o menor sentido em manter convenções que também poderiam ser grafadas convenções, que só dificultam o aprendizado de uma língua. Não é preciso ser linguista para se perceber isso.

Aliás, por que aprendizado e não aprendizado? Por que cabeça e não cabeça? Por que usar chapéu ou chamado se se poderia usar apenas uma letra específica, o X, e grafar chapéu e xamado? É estranho aos olhos pela falta de costume, mas nos habituamos ao fim do PH de pharmácia, quando ela se tornou farmácia, e a tantas outras mudanças que simplificaram a ortografia (graças aos visionários, não mais escrita ortografia) das palavras da nossa língua.

Maria Montessori percebeu tudo isso nos anos 1940, sessenta anos atrás. Criou um método de alfabetização fonético, baseado no som das palavras, sílabas, letras. Meu filho de seis anos escreveu ontem “jornal”. Claro, pelo som. Está aprendendo a escrever pela lógica e, segundo a escola, é assim que os pais devem incentivar. Infelizmente, nos disse a professora, após um semestre de escritas a partir dessas tentativas fonéticas, já avançamos para a fase de “corrigir” explicando, por exemplo, por que devemos colocar o L no final da palavra “jornal” em vez do U. Tarefa difícil. Horrível explicar convenções a meninos acostumados a seguir a lógica e a perguntar sempre por que. Explicar o inexplicável, que eles terão que decorar.

Meu melhor professor de português, Nelson, na 8ª série, primava por ensinar partindo da lógica. Eu adorava suas aulas de análise sintática. Tudo tinha uma razão para estar ali, tudo tinha um motivo para ter aquela função dentro das orações.

Não estou defendendo o fim de todas as convenções porque isso, poderia, dar margem a dúvidas, em vez de simplificar. É o caso da crase, por exemplo. Ela existe simplesmente para denotar a existência de dois As, um com a função de artigo e o outro de preposição.

Tempo para criar
Minha irmã Joanna, que na semana passada foi escolhida pela revista americana Business Insider como a publicitária mais criativa do mundo no momento, nunca foi muito boa em memorizar as convenções da ortografia do português. Confundia Ç com SS e por aí vai. Eu, aliás, sempre “boa aluna”, tinha mais facilidade, mas hoje me pego confundindo essas grafias em palavras que uso menos. Excessão ou exceção? Escolho sempre a primeira e depois, achando que errei, tenho que corrigir.

Já na época da sala de aula, Joanna estava mais preocupada com coisas mais importantes. E afinal, o que é mais importante: ter ideias inovadoras que podem melhorar o mundo ou decorar se a palavra deve ser escrita com SS ou com Ç quando o som é exatamente (ou seria mais próprio ezatamente?) o mesmo?

O futuro é a simplificação da grafia desta língua já tão complexa, tão rica, o nosso português. Abaixo a decoreba, viva a lógica!

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