Mais de 10 razões para conhecer Milão- um breve guia

Mais de 10 razões para conhecer Milão- um breve guia

Conhecer uma das maiores catedrais góticas do mundo, que é também a terceira maior igreja do planeta, já seria razão suficiente para se visitar Milão. Ver de perto o afresco da Última Ceia pintado entre 1495 e 1497 por Leonardo da Vinci no refeitório da igreja Santa Maria dele Grazie também seria, por si só, outro bom motivo para conhecer a capital da região da Lombardia. Passear pelo quadrilátero da moda, onde ficam as sedes das grandes marcas da moda mundial como Valentino, Dolce e Gabana, Fendi, Pucci, Cavalli… e as enormes filiais de lojas francesas como Dior e Channel, também seria razão suficiente para se visitar esta que é, hoje, a capital da moda, rivalizando apenas com Paris. Visitar a loja onde o pai de Miuccia Prada abriu, em 1913, uma boutique de bolsas de couro e que deu origem ao atual império Prada, também já poderia justificar uma ida a Milão. Até porque ela fica no coração da Galeria Vittório Emanuelle II, o segundo ponto turístico mais famoso da cidade, após o Duomo, e que fica exatamente ao lado da catedral. Se antes de ir, eu já não entendia porque alguns brasileiros consideram uma semana em Milão muito tempo, agora que voltei de lá, entendo menos ainda.

Claro que não se pode comparar nenhuma cidade do mundo a Florença. É a capital do Renascimento, tem espalhadas por toda ela esculturas dos grandes mestres da época em que as formas gregas estavam sendo retomadas. E como comparar qualquer cidade a Roma? Ora, além do Coliseu, estão ali as ruínas do Forum Imperial, que não é só imperial, tem construções de 700 antes de Cristo até 300 depois, ano em que o imperador Constantino tornou o cristianismo a religião oficial do Império.

Comparações são sempre injustas. Mas se a fantástica Florença tinha a família Medici como sua grande financiadora, Milão tinha Ludovico, o Mouro, o governante que encomendou a pintura da Última Ceia a Leonardo; e, um milênio antes dele, teve Santo Ambrósio, o bispo que inaugurou a Igreja que terminou levando seu nome e que foi restaurada no século XII. São muitos os mecenas de Milão a quem os amantes da história e da arte devem agradecer.

Colunas romanas e mosaicos bizantinos
E, sim, a animada capital da moda tem ruínas romanas. Além dos programas mais tradicionais que definem Milão, duas igrejas não podem deixar de ser visitadas. Santo Ambrósio guarda colunas, ruínas e alguns detalhes de suas origens na Antiguidade.

Um dos mais belos é o mosaico da Abside, dos séculos IV a VIII, bizantino, e de rara beleza.

Mas há muito do iniciozinho da Idade Média na igreja: os lindos átrios do século IX que foram usados como refúgio pela população antes de as muralhas da cidade serem construídas;

o belo interior românico-lombardo com suas ogivas e longas pilastras…

Já o Altar Dourado feito para guardar os restos mortais do próprio Santo Ambrósio são da passagem da Antiguidade para a Idade Média, também do século IX. Entrando pelo outro lado, se vê nada menos que o esqueleto do santo, que é o padroeiro de Milão. E também de sua irmã, Santa Marcelina, tão associada à moda que até dá nome a uma faculdade sobre o tema em São Paulo.

Cada capela desta igreja esconde uma surpresa.

E um dos pontos altos é este mosaico bizantino do século IV superpreservado.

E estes afrescos.

A outra igreja imperdível é mais alta que o próprio famoso Duomo medieval. É San Lorenzo Maggiore, uma das maiores igrejas redondas da cristantade ocidental. Ela também começou a ser erguida na Antiguidade, século IV, e foi reconstruída várias vezes durante a Idade Média. Dezesseis colunas coríntias de 100 e 200 depois de Cristo foram colocadas na entrada duzentos anos depois.

Uma delícia tomar um gelatto ali fora entre as colunas romanas e é isso que fazem muitos adolescentes milaneses e turistas europeus e americanos. Por causa das várias reconstruções, o prédio da igreja é neoclássico e não chama tanta atenção. Mas basta entrar para entender por que San Lorenzo é considerada majestosa. Sua altura impressiona, a luz entrando por suas oito (!) grandes janelas também. É de parar e ficar olhando.

Vá até a Capela de San Sisto ver os afrescos do século XVII. Depois siga até a Capella di Sant’Aquillino . É de 400 depois de Cristo e tem mosaicos do mesmo período. Um deles, com pastilhas de ouro, parece novo em folha, com certeza restaurado. Lindo!

 

Andando no topo do Duomo
Quanto à Catedral, bem, esta deve ser vista várias vezes ao longo da viagem. De manhã tem uma cara, à tarde outra luz…

 

…à noite a brancura da fachada já rende outro olhar… e outra foto.

O Duomo de Milão começou a ser construído em 1386 e foi consagrado como catedral em 1418. Mas permaneceu inacabado até o século XIX, quando Napoleão, que foi coroado rei da Itália ali dentro (!), mandou concluir a fachada. Por causa disso, embora tenha os traços góticos como sua característica principal, tem detalhes mais modernos, renascentistas e até posteriores.

Um programa imperdível é subir em seus terraços.

Há até um

 

elevador que nos leva ao teto da igreja. Para quem nunca subiu em uma igreja gótica como eu, é uma sensação mágica ver de perto os detalhes dos arcobotantes que sustentam a construção, os pináculos um diferente do outro, como bem observou meu marido…

…e as carinhas de cada gárgula. Gárgulas, aliás, que podem ser adotadas pelo turista que quiser ajudar na constante restauração da catedral.

Uma programação ainda mais específica leva o turista a passar o por do sol nos terraços do Duomo. Mas a esta altura, já o estávamos vendo de outro ângulo: do último andar da loja de departamentos de luxo Rinascenti, todo dedicado à gastronomia, e onde ser pode jantar apreciando a Catedral. Não perca!

Outra opção é tomar um drink no terraço do restaurante Aperol Terrazzo, tomando um Aperol Spritz, aperitivo típico de Milão. A entrada é pela Galeria Vittorio Emannuelle. Aperitivo, aliás, não é só a bebida, vem sempre acompanhado no mínimo de uma batata frita e até de pãezinhos com patês. É o programa do fim da tarde.

A praça do Duomo, aliás, é o centro de Milão. Chega-se lá por várias vias, algumas mais largas, outras mais estreitinhas. A principal é a Corso Vitório Emanuelle, uma peatonal lotada de turistas, cheia de restaurantezinhos sobre a rua. Como há turistas europeus, orientais e, especialmente, americanos em Milão nesta época do ano! Coma um prato de frios entre uma lojinha e outra. Se tiver filhos pequenos, é ali que fica a Disney Store. Há também boas lojas de sapatos e roupas a bons preços. A Galeria Vittório Emannuelle II é um prédio Neoclássico altíssimo e deslumbrante.

Além da Prada, há outras lojas de marca. E, não se intimide, nós fomos superbem atendidos na histórica loja original, com seu piso de quadrados preto e brancos.

A galeria foi construída em 1867 justamente para ligar o Duomo ao Teatro a La Scala, o templo da Ópera, bombardeado em 1943 e reconstruído três anos depois.Não tivemos a sorte de pegar as temporadas de ópera, balé ou teatro e sequer de ver o belo e importante teatro por dentro, já que ele ficou fechado durante o fim de semana. Programe-se bem.

Luxo e beleza
O quadrilátero da moda não fica muito longe dali. A rua principal é a Corso Montenapoleone.

O número de boutiques de luxo por metro quadrado é maior do que na região da Saint Honoré de Paris e achei o clima delicioso nos dias de semana. No fim de semana, as ruas e até algumas lojas, lotam. Estão ali todas as grandes marcas europeias.

Não há algumas grifes importantes americanas como Diane Von Furstenberg e Kate Spade. Se tiver apenas uma tarde, não deixe de entrar na Dior. Além daqueles vestidos clássicos modernizados lindíssimos…

… a loja em si é uma preciosidade.

Outra loja que acho imperdível, pelo menos há duas coleções, é a Valentino. O que são as bolotas setentistas desta coleção? Pena que os vestidos estejam tão mais caros de um ano para o outro.

E é uma aula de história dos sapatos uma visita à Roger Vivier, aquele estilista que inventou os saltos em forma de vírgula. Os sapatos e bolsas coloridos da Fendi neste verão também valem uma visita. É uma das primeiras lojas da Montanapoleone. Se quiser conhecer o exagero da moda entre na Roberto Cavalli. São três andares de muitas estampas de bichos, muito couro, tanto na moda feminina, quanto na masculina. Meu marido ficou horrorizado! Claro que alguns vestidos são lindos também.

Entre uma loja e outra, almoce um panini de brie ou prociutto com uma taça de champanhe ou espumante italiano em um dos poucos e exclusivos cafés antigos. É uma aula de antropologia observar os ricos europeus em seu habitat natural, conversando alto em italiano ou em inglês. E alguns dos cafés são históricos e lindos!

Torre renascentista
Andando na direção oposta à do centro, chega-se ao Castelo Sforcesco, outro ponto turístico importante, que pode ser visto de longe, com sua alta torre renascentista pairando sobre a cidade.

Trata-se de uma das residências da Renascença mais refinadas da Europa, construída sob o domínio dos Visconti em 1368. Desde o século XVIII foi transformada em um museu, que tem de esculturas gregas até móveis renascentistas.

A aula de pintura gótica tardia começa ali e termina na Pinacoteca di Brera, onde há muitos quadros e retábulos daquela época, indo até o Renascimento. Há, porém, poucas obras de mestres muito conhecidos como Tintoreto e apenas um de Rafael. Vale a visita se você tiver tempo.

Emoção na Última Ceia
Em termos de pintura, claro que nada chegará aos pés da visita ao grande afresco da Última Ceia. Eu que a estudei em minhas aulas de história da arte em Nova Iorque em 1996, tenho que confessar que chorei de emoção ao entrar no corredor que leva ao refeitório, cenáculo em italiano, onde fica a obra. E não é só por sua beleza e aura. A importância da Última Ceia está no fato de ela ter sido uma das obras em que Leonardo introduziu a proporção geométrica, método pelo qual a profundidade de campo é obtida por meio de traços matematicamente desenhados. Por anos, até o gótico tardio, a profundidade era transmitida apenas por colinas e animais que os pintores colocavam no fundo do quadro na tentativa de dar a impressão de profundidade, sem muita precisão. Na última ceia, o teto forma um triângulo que sai do primeiro plano e vai até o fundo. As cabeças inclinadas dos apóstolos ajudam a formar o movimento triangular. A grande mesa os afasta do espectador. A pintura retrata o momento logo após Jesus ter dito aos apóstolos que um deles o traiu. Estão ali nos rostos e mãos as reações de cada um deles. É de uma expressão incrível.

Não se esqueça de fazer a reserva pela internet antes da viagem, com antecedência. Se gostar muito de arte, marque dois dias seguidos, porque cada pessoas pode permanecer no recinto por apenas 15 minutos.

Design e Boemia em Brera
O design italiano é outro dos pontos altos de Milão. O famoso design italiano não tem um endereço certo, não que eu tenha encontrado. Está espalhado pelas lojas de objetos e de móveis da cidade, até mesmo pelas de departamento como a Rinascenti. Mas se eu tiver que indicar um bairro para ser ver objetos interessantes, indico Brera.

As ruas do bairro merecem pelo menos uma tarde inteira e um início de noite. Segui o itinerário indicado por uma amiga do ramo da moda que mora em Milão há vinte anos, Momi. Saí da loja 10 Corso Como, onde há roupas de marca bem moderninhas no térreo e objetos de design na livraria do primeiro andar.

Não achei muita graça na comida do charmoso restaurante do complexo. Dali se segue pela rua principal, também só para pedestres até se chegar ao Eataly, uma loja de departamentos de… comida. Compramos nossos vinhos ali. Continue andando pelo Corso Garibaldi.

Trufas brancas
No fim do Cosro Garibaldi está a Via Mercato. Quando chegamos a ela, estamos em Brera.

As ruas vão se afunilando. Perto da Pinacoteca, elas são estreitinhas e contam com vários restaurantes, bares e lojinhas.

Entre eles, há antiquários supervariados.

É uma delícia se perder por ali. Se chegar a noite, pegue logo uma mesa do lado de fora. No nosso caso, fomos atraídos também pelas enormes trufas brancas. Era o início da temporada do tartuffo bianco, avisavam cartazes e, na frente deles, as próprias trufas expostas.

Brera no sábado à noite é uma animação só.

Enquanto americanos se refestelavam com lagostas, apreciávamos nossas pastas com tartufo olhando para um casal de namorados que não parava de se agarrar na parede logo em frente. Tão italiano!

Noite animada e iguaria no bairro boêmio
Se o tempo é parco, como era o caso do nosso, outro bairro que vale a visita é o Navigli.

“É uma espécie de Marrais”, resumiu Momi, que morou anos no bairro cortado pelos canais que constituíam a parte portuária da cidade até o século XIX. Com seus inúmeros restaurantes e bares em frente aos canais e suas galerias de novos artistas, o Navigli está na moda.

Come-se bem no bairro, que tem notívagos de todas as idades. Foi ali que encontramos Momi; seu namarido, o simpático Gino; e sua filha adolescente Iris, para um aperitivo em um restaurante lindinho, todo cheio de estantes com objetos de cozinha.

Um belo aperitivo, em que eles nos apresentaram a straciatela, uma muzzarela de búfala que se derrete, com certeza uma das 10 maravilhas da culinária mundial!

A comida, é claro, é um dos personagens principais de qualquer cidade da Itália a que se vá. Por isso, provamos o delicioso gelatto cheio de sabor nas ruas, comemos pasta e risoto nos restaurantes espalhados pela cidade, mas também procuramos lugares mais especiais ainda. Ou mais sofisticados mesmo.

O principal é o Cracco, que ganhou duas estrelas no prestigiado guia Michelin. A decoração não tem nada demais, mas um elevador nos leva às salas exclusivas do subsolo. O serviço é impecável e eu sugiro o menu degustação. Você vai saborear iguarias como ouriço e sentir o gosto do mar.

 

O chef ousa ao misturar no mesmo prato fois gras, filé e salmão. Eu tiraria o salmão, ele quase anulou o sabor dos outros dois.

Um dos meus pratos moderninhos prediletos é o ovo mole com trufas. E foi aí que comecou um plus daquele jantar: a louça com dois lados diferentes. Um antigo e outro moderno. Olha só!

E que tal carne de … pombo?

Teve também um prato líquido, que levava sakê. Uma delícia, mas juntando com todo o vinho, não deu bom resultado na manhã do dia seguinte…

Só pra apreciar a louça, veja este prato com sorbet e feijão azuki. Adorei!

Muçarela dos Deuses
Em Brera, procure a Okido. É um bar de muçarelas que surgiu em Roma e é tão bom que já chegou até a Nova Iorque de tão bom.

Peça um pratinho com duas muçarelas para degustar. Uma delas é a straciatela, a muçarela cremosa, que vem envolvida em líquido. Mas a burrata também é muito gostosa. Além de tudo o lugar é lindinho!

Foi tão difícil escolher entre os hotéis interessantes que encontrei na internet que resolvemos ficar em três. Um deles, o Uptown Palace, é confortável, com quarto grande, mas tradicional. Indico mesmo dois deles: um é o Palazzo Segreto. Fica em uma travessinha bem escondida do Corso Vitorio Emannuelle, em um prédio antigo. Por dentro, é todo modernizado, em cimento. Na sala principal, onde se toma o gostoso café da manhã, uma linda pintura contemporânea.

O outro é o Grand Hotel Villa Torreta, que faz parte da lista dos hoteis boutique da Mc Gallery Collection, reconhecidos pelo valor histórico, de design ou pela inserção na natureza. Passe umas duas noites ali durante a semana porque nos fins de semanas os casamentos realizados no palacete fazem um barulho que atrapalha o descanso.

O Villa Torreta é um palacete de 1600 com aqueles quartos e banheiros enormes. Tem pátios e jardins pra passear.

E, principalmente, tem lindos afrescos pintados lá por 1700.

É três vezes mais barato do que um hotel no centro, já que fica no fim da linha do metrô, quase fora da cidade. É pra se recolher ali depois de um longo dia de compras ou passeios pela cidade. E jantar ali mesmo num dos enormes salões pintados. A comida é bem gostosa. O café da manhã o melhor da viagem. O serviço excelente. Pague um pouco mais e fique no quarto número 1. É cheio de afrescos… melhor nem descrever, fique com a foto.

E olha o banheiro, ops, sala de banho de mármore. Tudo absolutamente inspirador.

Pra aumentar o já inevitável gostinho de quero mais, deixamos pra uma outra viagem alguns programas que parecem prometer. Entre eles, as casas noturnas de marcas como a Roberto Cavalli e a Armani, que, segundo os guias, fervem até de manhã.

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4 Comentários

  1. Excelente artigo! :) Obrigada pelas fotos e pela descrição :)

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