Um filme delicioso sobre música

Um filme delicioso sobre música

Fazia tempo que eu não assistia a um bom filme sobre música. Bons filmes sobre música, especialmente música pop, incluindo rock, são bem sazonais, aparecem de vez em quando e, quando são bons mesmo, ficam marcados na nossa memória. Quem gosta de música pop boa e autêntica não deve perder “Mesmo se tudo der errado” (“Begin Again”, no título original). Poderia ser só mais uma comédia romântica com Mark Ruffalo. Mas é, isto sim, uma crítica daquelas à indústria fonográfica, cada vez mais comercial, cada vez mais em busca da música vendável, cada vez mais disposta a despir os artistas de sua originalidade em prol de um produto que supostamente agradará ao grande público, de acordo com sua prospecção de que público é este.

Só que o filme do diretor irlandês John Carney faz isso de uma forma sutil, ou melhor, delicada. Delicada como a música que a compositora e cantora interpretada por Keira Knightley, Gretta, faz questão de manter assim mesmo. Delicada como a história que, apesar de parecer quase convencional, termina se revelando tão indie quando a música de Gretta. Ela é uma compositora inglesa que veio para Nova Iorque com o namorado para quem compõe algumas canções. Ele já está ficando famoso e acaba de assinar contrato com uma gravadora americana. O casal tinha tudo para ser feliz nesta nova fase da vida, mas a história desanda.

É aí, no meio da crise, que a trajetória de Gretta cruza com a de outro personagem também no meio de sua própria crise pessoal: o produtor musical em decadência Dan, vivido por Ruffalo, muito mais animado do que na maior parte dos filmes que estrela.

Dan, que acaba de perder seu lugar na sociedade em uma agora grande produtora que ele ajudou a criar, aposta na música de Gretta. Isso dá margem a uma das melhores sequências do filme, que se repete na tela de três pontos de vista diferentes. Inovação de roteiro e montagem que dá um sabor independente à produção. A outra pegada de gênio é inerente à própria história e se traduz em uma série de gravações de áudio e vídeo de músicas em que Gretta canta em diferentes locações de Nova Iorque, de um beco até um teto com vista para o Empire State, com o som ambiente como BG (background, som ambiente).

Uma ode à naturalidade, uma ode à música pela música, é o que este filme é. Hollywoodianices à parte, como a relação de Dan e sua filha e outras cositas más, “Mesmo se tudo der errado” consegue manter sua aura indie até, e principalmente, no final.

A gente vai assistindo ao filme e se lembrando de outras grandes produções guiadas pela música. Me vieram à cabeça “Quase Famosos”, que também retrata um período da história da música pop e suas indiossincrasias; “Alta Fidelidade “, que as canções servem para contar a história do personagem vivido por John Cusack e criado por Nick Hornby… E aí a gente sente como filmes como este fazem falta.

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