Posts made in outubro, 2014

Supertramp no lugar do debate

Na última sexta-feira, troquei o debate da Globo com os candidatos a presidente por um programa muito mais relaxante: assistir ao show de Roger Hodgson, conhecido como “a voz do Supertramp”, desde que o grupo acabou no fim dos anos 80. Hodgson é, na verdade, a voz mais importante, a aguda, enquanto Rick Davies fazia a base grave. Pra uma plateia composta principalmente por pessoas de meia e terceira idade, mas também por seus filhos e netos, o inglês e sua banda já abriram o show com “Take the long way home”, um dos maiores sucessos do Supertramp, criado em 1969 e que se tornou um dos grupos mais populares dos anos 70 e 80, vendendo mais de 60 milhões de discos. Com os cabelos brancos compridos e um colete sobre uma blusa branca, Hodgson parecia saído diretamente dos anos 70, sentado ao teclado, do lado esquerdo da plateia. Droga, desta vez errei o lado: me esqueci que seu instrumento principal era o teclado, que normalmente fica à esquerda. Mas estamos pertíssimo do palco.

Por causa dessa proximidade, a emoção é beeem diferente da que senti em 1988, quando vi pela primeira vez na Praça da Apoteose no Rio a outra metade do Supertramp, Rick Davies, como uma das principais atrações do Hollywood Rock daquele ano. Estes festivais tinham um clima maravilhoso desde a tarde, em que as pessoas íam aos pouquinhos povoando a praça em frente ao palco. O show do Supertramp, pouco tempo depois da separação de Roger Hodgson e Rick Davies, foi um dos mais esperados. Das atrações internacionais, dividiam minhas atenções com o Duran Duran e o Simple Minds. Mas havia ainda o Simply Red, o UB 40 (show maravilhoso!!) e os Pretenders! Quando o Supertramp entrou no palco, como a atração internacional da quarta e última noite, já era noite e o espaço estava lotado. Vimos o show da arquibancada. Pra mim, que era fã desde a pré-adolescência, foi muito emocionante.

Quando comprei o ingresso pro show da semana passada, já sabia o que esperar: um mar de hits, um após o outro, muito marcados pelos teclados e saxofones. E foi assim: a segunda música foi “School”. O piano, tocado por Kevin Adamson, me remeteu diretamente ao show de 88. Mas num ambiente muito mais intimista, a sala de concertos do Centro de Convenções de Brasília, sobrou espaço para o bate-papo. E o astro inglês estava inspirado: “Well, boa noite, it’s great to be back in Brazil, we’re having a fantastic time”, começou ele, que há apenas dois anos, já estivera naquele mesmo palco. “My portuguese is not so good, but I want to speak portuguese ‘cause I am in Brazil, and I love Brazil”. E o idioma mudou: “Eu gostaria de falar português, eu amo o espírito, o coração dos brasileiros”. E voltou pro idioma nativo: “Life is a little difficult for some of us right now, so let’s forget all of our problems for the next two hours”. Perfeito, pensei, vou chegar em casa lá pelo terceiro bloco do debate.

O simpático bandleader se reveza entre o teclado e uma guitarra acústica. O acompanham um baterista, um baixista, o outro pianista e um canadense que é o rei dos sopros: toca três saxofones (o tradicional, o barítono e o sax alto), flauta e a tradicional gaita que abriu o show em “Take the long way home”. De quebra, ele ainda ajuda no terceiro teclado da banda.

 

Começa “In Jeopardy” e o público, bastante fiel, acompanha. “Esses são tempos difíceis e temos que nos agarrarmos (sic) em coisas importantes. Eu acredito que a mais importante é o amor”, diz Hodgson, em português, se mostrando um dos convidados mais dedicados ao nosso idioma que já apareceu por aqui. Ele emenda com a linda balada “Lovers in the Wind”, agora sentado ao piano. Sua voz ainda está em forma, todos os superagudos estão lá.

Entre um sucesso e outro, a conversa com os fãs continua: “When I was 19 in England, I dreamed about going to California. Well, I didn’t Know about Brazil. If I knew, this next song could have been called ‘Breakfast in Brazil’”. E começa a grande “Breakfast in America”, um dos maiores sucessos do grupo e a canção título do famoso álbum de 1979 do Supertramp. O outro mais conhecido era o Paris.

É quando me lembro quanto tempo fazia que não ouvia minhas fitas cassetes. Sou levada ainda à saída da escola Vera Cruz, em São Paulo, em 1982. À tarde, tínhamos aula de inglês no prédio ao lado. Uma das músicas que aprendemos foi “It’s raining again”, também do grupo, e outras de Simon and Garfunkel. Aquele ano passado em São Paulo, aliás, foi uma verdadeira escola de música pop. Foi naquela época que me apaixonei pelos Beatles, depois de comprar a coletânea vermelha, que tinha os clássicos mais antigos, de antes da fase psicodélica.

“É emocionante ver como os brasileiros que não sabem inglês sabem cantar as músicas”, diz. Não sei exatamente por que, mas me pego chorando em todas as músicas que conheço, ou seja, a maioria. Deve ser porque fazia tanto tempo que não as ouvia. Como essas canções fazem as pessoas que cresceram nos anos 80 se lembrarem delas mesmas! E como os acordes do Supertramp são tocantes e belos!

As pessoas aplaudem de pé eu autor está visivelmente feliz com a reação do público. E o público ainda está em pé quando começa “The Logical Song”! Outros se levantam. E a comoção vai tomando conta de boa parte da plateia. Muita gente vai pra frente do palco dançar em pé, inclusive eu. Um cara tenta entregar uma jaqueta a Hodgson, mas ele recusa, educadamente. No fim da música, enquanto o público aboletado na frente tira fotos com a banda atrás, Hodgson saca sua câmera e tira a foto da plateia. Outros dois músicos fazem a mesma coisa. Um deles tira uma selfie do celular com o público atrás. Demais!

“Essa música é só pra ocasiões especiais. E esta é uma ocasião especial”, diz Hogdson. “You can take a break, guys, I want to be alone with the audience”, continua, começando um set solo. Na guitarra, ele toca a balada “Death and a Zoo”, pós-Supertramp, inspirada em uma de suas caminhadas no campo na Califórnia. De deixar um Neil Young orgulhoso.

E o show segue com nada menos que a lindíssima “Don’t Leave me Now”. Uma das minhas preferidas e que, desta vez, me lembra a época da natação. O Supertramp estava mesmo na trilha sonora da vida de qualquer garoto nascido na virada dos 60 para os 70!

Na música seguinte, os três teclados tocam juntos pra se ver a importância que o instrumento tem na música da banda. Os três músicos se dividem na tarefa de substituir a voz grave das gravações originais.

É a hora da apresentação dos músicos, dois americanos e dois canadenses. Aaron Macdonald é o multi-instrumentista dos sopros, Bryan Head é o baterista; David J Carpenter é o baixista; além do pianista Adamson. E se percebe que aquelas duas horas estão passando quando começa “Dreamer”. Mais uma vez, todos se levantam, dando o tom da comoção. “We are gonna play a final song”, diz Hodgson. “No”, gritam os fãs. “Well, it’s up to you…”. E quem foi para o corredor, não volta. “Fool’s overture”, que começa com aquele instrumental matador e inconfundível, é visceral. Progressiva.

A banda vai embora, mas, diante das palmas, volta. “You know, I’m english but I think I have brazilian blood”, solta o compositor, pra reforçar. Esse Segundo bizz começa com “Give a Little Bit”.. e, finalmente, segue com “It’s raining again” pra fechar com chave de ouro! Todos já estão em pé e assim continuam. “See you again soon, I hope”, se despede o músico.

Claro que não poderíamos ir embora sem esta música tão a cara da nossa Brasília pós seca prolongada e agora, também de São Paulo. Ih!: seca= São Paulo=Picolé de chuchu=Aécio, ai o debate! É, né> vamos lá ver quem está ganhando a luta de boxe. Mas com certeza o amor em meu coração depois desse show já será bem maior que o ódio.

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O belíssimo Lago di Como

Quando for a Milão, reserve pelo menos três dias para visitar o Lago di Como. Pra relaxar mesmo, fique uma semana inteira. É o lugar perfeito para descansar da agitação dos programas artísticos e históricos da capital da Moda. Este é o mais famoso dos três grandes lagos do norte da Itália. Juntamente com o Lago Garda e o Maggiore em menor proporção, foi, desde a época dos antigos romanos, uma espécie de balneário para os ricos e famosos, que construíram nas cidadezinhas às suas margens casarões e palacetes. Um deles é, atualmente, de propriedade do ator e diretor americano George Clooney, que, durante a nossa viagem, em uma cerimônia em Florença, anunciou que desistira de realizar seu casamento ali, para fazer a cerimônia em Veneza. “Foi uma ótima segunda opção”, ironizou o prefeito de Como.

Atualmente, algumas dessas construções, especialmente dos séculos XVIII e XIX, foram transformadas em locais abertos à visitação ou viraram hotéis históricos. No verão, as cidades mais conhecidas como Cernobbio (com sua famosa Villa D’Este), Tremezzo, Leno e, principalmente, Bellagio, ficam apinhadas de turistas de todas as idades, mas em sua maioria, de meia e terceira idades. É um turismo intenso, mas tranquilo.

Além das belas construções, o que torna o Lago di Como especial é o fato de ele estar no meio de uma cadeia de montanhas que fazem parte dos Alpes, e que vai ficando cada vez mais alta à medida que se navega para o interior do lago, em direção à fronteira com a Suiça.

O contraste entre as pequenas cidades lá embaixo e as montanhas por trás é belíssimo.

A cidade principal do lago, por onde se chega a ele vindo de trem ou de carro de Milão, também se chama Como. É uma cidade maiorzinha, fundada em 196 antes de Cristo (!) e que, com sua bela catedral de estilo renascentista (iniciada em 1396 e terminada em 1740), vale a visita.

também lojas de marca nas belas ruazinhas da cidade, além de outras duas igrejas e museus. Mas não é o local ideal para se hospedar, se o objetivo é relaxar. A maior parte dos turistas opta pelas cidades que ficam próximas ao início das pernas do grande Y formado pelo lago. Ali está Tremezzo, onde fica o famoso palácio Villa Carlota, aberto à visitação; a pequenina e superaprazível Leno, que hospeda o imperdível Villa Balbiallone; e a mais turística das cidades: Bellagio.

Além de contar com duas casas cujos grandes jardins são abertos à visitação, a Villa Melzi e a Villa Serbelloni , Bellagio tem um conjunto de ruazinhas estreitas paralelas que partem do cais e vão dar na parte de cima da cidade. Em frente ao cais, por onde chegam as barcas lentas e rápidas, que vêm passando por cada uma das cidades do lago desde Como, estão hotéis, restaurantes e lojinhas com lembranças e produtos locais como lenços e echarpes de lã e, especialmente, de seda.

Na extremidade esquerda, fica o Gran Hotel Villa Serbelloni, que, na semana em que fomos, hospedou os ricos aficionados por automobilismo, que vieram assistir ao Grande Prêmio de Ímola, a alguns quilômetros dali. O pátio estava cheio de Ferraris que, me explicou o concierge do hotel, faziam parte do clube da Ferrari.

Um dos melhores programas de Bellagio é mesmo passear por suas ruelas, entrar nas lojinhas de artesanato local, algumas com 200 anos de tradição, ou nas de salames e queijos, superespecializadas.

À noite, os senhores e senhoras, muitos deles americanos, mas também italianos, se vestem bem para jantar em um dos restaurantes tipicamente italianos, com partes ao ar livre, de comidas simples, mas com ingredientes como vôngole, cogumelos, peixes do lago e trufas. As cartas de vinhos, normalmente todos italianos, são vastas, têm de rótulos da Sicília até os famosos chiantis e supertoscanos da Toscana e, sempre, o vinho da casa. Se quiser esticar um pouco, vá tomar um limoncello ou um amareto em um dos bares moderninhos de Bellagio. Sim, também há jovens veraneando ali.

Para o descanso ser total, escolha um hotel confortável e com vista para o Lago. Ficamos no lindo Belvedere. O prédio de 1880 me fazia sentir no filme “Morte em Veneza”. Era o típico hotel do século XIX com todas as suas salas antigas e quartos com vista para o lago.

Parecia que a qualquer momento surgiria um homem ou uma mulher vestindo um maiô completo listrado e uma touca colorida bem anos 20. Iguais, aliás, aos que apareciam nos cartazes vendidos nas lojinhas de souvenirs em frente ao cais.

Além da piscina…

… o Belvedere tem uma piscina quente de hidromassagem com visão infinita para o lago. O local perfeito para se observar o sol batendo nas montanhas rochosas no fim da tarde. Uma visão deslumbrante. Absolutamente idílica. Um dos momentos mágicos da viagem que ainda não saiu da minha mente, duas semanas depois do embarque de volta.

As rochas amareladas das montanhas eram lindas também da janela do nosso quarto, ou do solarium onde tomamos nosso primeiro aperitivo da viagem: espumante rosé com batatas fritas cortadas fininhas.

Do hotel também dava pra ver os belos jardins da mansão Melzi, que não conseguimos visitar por pura falta de tempo. Programe-se porque ela só abre em dois horários: às 11h da manhã e às 15h.

Quem aprecia a gastronomia de ponta pode usar isso como desculpa para passar uma noite em alto estilo nos lindos salões do Grand Hotel Villa Serbelloni, de 1873, e com 5 estrelas. O restaurante Mistral ganhou em 2005 uma estrela do guia Michelin. No elegante salão em frente ao lago, o chef oferece dois menus degustação: um mais tradicional, que eu escolhi; e outro de culinária molecular, opção do meu marido. Foi muito bom ter provado um pouco dos dois.

O meu abria com um carangueijo gigante pescado no Ártico, e seguia com um prato com duas versões de fois gras.

 

Também comi carne de pavão pela primeira vez na vida. Não sem muita pena do bicho.

Os dois jantares acabaram com um gelatto molecular feito na hora.

Uma noite de luxo, que passamos ao som de instrumentos de câmara que tocavam música erudita e jazz no salão ao lado.

A decoração, com afrescos e candelabros de cristal de murano, ajudava a nos transportar no tempo. O garçom do lado esquerdo, fazendo o gelatto, sempre solícito e simpático, conversou muito conosco sobre o cardápio. O serviço foi perfeito. Conheci ali o Amarone, um vinho superencorpado e amadeirado, mas que desce suavemente. O vinho da safra de 2006, foi o melhor que tomei na viagem.

Tremezzo
Pegue um barco lento no cais e vá até Tremezzo. Dê uma olhada no Grand Hotel de lá também e fique com água na boca. Ou se hospede ali, uma opção em que pensei para nossa próxima viagem. Sua piscina fica em uma balsa no meio do lago!

Em Tremezzo você visitará a Villa Carlotta, um casarão dado a uma moça chamada Carlotta, que era conhecida de Napoleão Bonaparte.

Há belos móveis e esculturas no interior…

… mas a grande atração são os vastos jardins. Subindo um pouco pela direita, se chega a esta colina florida.

À medida que se sobe, a vista do lago vai ficando mais bonita.

A diversidade de espécies, de todos os continentes, transformou a propriedade em um jardim botânico.

Leno
Pegue o barco novamente para chegar à aconchegante Leno. Do barco, aliás, se tem belas vistas das cidades com os Alpes por trás. Almoce ou tome um aperitivo no Restaurante Plinio. A comida é gostosa e você ganha de brinde uma vista lindíssima pra as montanhas com vegetação do outro lado do lago. À direita, vê-se o topo da vela igrejinha românica da cidade e de seu batistério.

Olhando os patos abaixo, se tem certeza de como o Lago di Como é limpo.

Se o tempo estiver bom, você encontrará famílias tomando sol, pescando e nadando.

A atração mais famosa de Leno é a Villa Balbianello.

Você pode optar por andar pela trilha de um quilômetro que leva à mansão, de onde se tem uma bela vista do lago em meio às acácias…

…ou pegar uma lancha no fim do cais que, a 5 euros, o levará à entrada da Villa. É, com toda a certeza, uma das mansões mais incríveis do Lago di Como.

No passado, pertenceu aos Visconti. No século XX, foi do aventureiro Guido Monzino, o líder da primeira expedição italiana a subir o Monte Everest. Explore os deslumbrantes jardins enquanto espera para começar sua visita guiada, contratada logo na entrada. Há jardins em torno de toda a casa. As esculturas compõem verdadeiras pinturas com os pinheiros e o lago ao fundo.

Não perca os jardins do outro lado da villa.

À primeira vista, a casa parece pequena.

Mas ela esconde muitos segredos. Ao mostrar cada um dos 19 cômodos, a guia que fala em inglês com forte sotaque italiano vai desvendando os cinco andares da villa. Há o quarto do explorador a sala em que ficam as relíquias que comprou pelo mundo afora, de máscaras astecas até roupas de esquimós do ártico.

Há muito mármore no chão e a famosa seda de Como revestindo as paredes, outros quartos com paredes de madeira que, muitas vezes, escondem passagens secretas.

Não deixe de olhar lá pra fora quando passar por uma janela. A paisagem é de tirar o fôlego.  E você sabe a diferença entre os lustres italianos e os franceses? Vai descobrir na mansão. Uma dica: este é o francês.

No fim do tour, fomos surpreendidos pela chegada de uma noiva para seu casamento. Poderia haver uma locação melhor?

Praia

Fomos duas vezes a Leno porque, na segunda-feira a Villa Balbiollone fica fechada. Aí aproveitei pra viver um dos melhores momentos de toda a viagem: nadar no Lago di Como! Do lado direito do cais onde se pega os barcos, fica um hotel à beira do lago. Em frente a ele, está uma prainha de pedras que parece mas não é privativa do hotel já que há uma entrada pública um pouco antes. Como os hóspedes não estavam usando pulseira que os identificasse como tais, eu não tive dúvida: entrei na prainha, tirei a roupa e fiquei ali tomando aquele sol quente do início de setembro.

Mal intencionada, já tinha ido de biquíni por baixo. Fazia uns 28 graus. A vista deslumbrante compensava o desconforto de nos sentarmos nos pedregulhos. Uns ingleses do hotel vieram nos fazer companhia. Depois de esquentar o corpo, entrei naquela água fria no fundo, mas quente na superfície. O lago de Como é o mais profundo dos três, chegando a mais de 400 metros. Nadar naquela água limpíssima olhando para a montanha lá na frente e para a imensidão daquele lago histórico foi delicioso. Mais que isso: foi um mergulho do qual nunca mais me esquecerei. E do qual tenho sentido saudades todos os dias desde então.

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