Supertramp no lugar do debate

Supertramp no lugar do debate

Na última sexta-feira, troquei o debate da Globo com os candidatos a presidente por um programa muito mais relaxante: assistir ao show de Roger Hodgson, conhecido como “a voz do Supertramp”, desde que o grupo acabou no fim dos anos 80. Hodgson é, na verdade, a voz mais importante, a aguda, enquanto Rick Davies fazia a base grave. Pra uma plateia composta principalmente por pessoas de meia e terceira idade, mas também por seus filhos e netos, o inglês e sua banda já abriram o show com “Take the long way home”, um dos maiores sucessos do Supertramp, criado em 1969 e que se tornou um dos grupos mais populares dos anos 70 e 80, vendendo mais de 60 milhões de discos. Com os cabelos brancos compridos e um colete sobre uma blusa branca, Hodgson parecia saído diretamente dos anos 70, sentado ao teclado, do lado esquerdo da plateia. Droga, desta vez errei o lado: me esqueci que seu instrumento principal era o teclado, que normalmente fica à esquerda. Mas estamos pertíssimo do palco.

Por causa dessa proximidade, a emoção é beeem diferente da que senti em 1988, quando vi pela primeira vez na Praça da Apoteose no Rio a outra metade do Supertramp, Rick Davies, como uma das principais atrações do Hollywood Rock daquele ano. Estes festivais tinham um clima maravilhoso desde a tarde, em que as pessoas íam aos pouquinhos povoando a praça em frente ao palco. O show do Supertramp, pouco tempo depois da separação de Roger Hodgson e Rick Davies, foi um dos mais esperados. Das atrações internacionais, dividiam minhas atenções com o Duran Duran e o Simple Minds. Mas havia ainda o Simply Red, o UB 40 (show maravilhoso!!) e os Pretenders! Quando o Supertramp entrou no palco, como a atração internacional da quarta e última noite, já era noite e o espaço estava lotado. Vimos o show da arquibancada. Pra mim, que era fã desde a pré-adolescência, foi muito emocionante.

Quando comprei o ingresso pro show da semana passada, já sabia o que esperar: um mar de hits, um após o outro, muito marcados pelos teclados e saxofones. E foi assim: a segunda música foi “School”. O piano, tocado por Kevin Adamson, me remeteu diretamente ao show de 88. Mas num ambiente muito mais intimista, a sala de concertos do Centro de Convenções de Brasília, sobrou espaço para o bate-papo. E o astro inglês estava inspirado: “Well, boa noite, it’s great to be back in Brazil, we’re having a fantastic time”, começou ele, que há apenas dois anos, já estivera naquele mesmo palco. “My portuguese is not so good, but I want to speak portuguese ‘cause I am in Brazil, and I love Brazil”. E o idioma mudou: “Eu gostaria de falar português, eu amo o espírito, o coração dos brasileiros”. E voltou pro idioma nativo: “Life is a little difficult for some of us right now, so let’s forget all of our problems for the next two hours”. Perfeito, pensei, vou chegar em casa lá pelo terceiro bloco do debate.

O simpático bandleader se reveza entre o teclado e uma guitarra acústica. O acompanham um baterista, um baixista, o outro pianista e um canadense que é o rei dos sopros: toca três saxofones (o tradicional, o barítono e o sax alto), flauta e a tradicional gaita que abriu o show em “Take the long way home”. De quebra, ele ainda ajuda no terceiro teclado da banda.

 

Começa “In Jeopardy” e o público, bastante fiel, acompanha. “Esses são tempos difíceis e temos que nos agarrarmos (sic) em coisas importantes. Eu acredito que a mais importante é o amor”, diz Hodgson, em português, se mostrando um dos convidados mais dedicados ao nosso idioma que já apareceu por aqui. Ele emenda com a linda balada “Lovers in the Wind”, agora sentado ao piano. Sua voz ainda está em forma, todos os superagudos estão lá.

Entre um sucesso e outro, a conversa com os fãs continua: “When I was 19 in England, I dreamed about going to California. Well, I didn’t Know about Brazil. If I knew, this next song could have been called ‘Breakfast in Brazil’”. E começa a grande “Breakfast in America”, um dos maiores sucessos do grupo e a canção título do famoso álbum de 1979 do Supertramp. O outro mais conhecido era o Paris.

É quando me lembro quanto tempo fazia que não ouvia minhas fitas cassetes. Sou levada ainda à saída da escola Vera Cruz, em São Paulo, em 1982. À tarde, tínhamos aula de inglês no prédio ao lado. Uma das músicas que aprendemos foi “It’s raining again”, também do grupo, e outras de Simon and Garfunkel. Aquele ano passado em São Paulo, aliás, foi uma verdadeira escola de música pop. Foi naquela época que me apaixonei pelos Beatles, depois de comprar a coletânea vermelha, que tinha os clássicos mais antigos, de antes da fase psicodélica.

“É emocionante ver como os brasileiros que não sabem inglês sabem cantar as músicas”, diz. Não sei exatamente por que, mas me pego chorando em todas as músicas que conheço, ou seja, a maioria. Deve ser porque fazia tanto tempo que não as ouvia. Como essas canções fazem as pessoas que cresceram nos anos 80 se lembrarem delas mesmas! E como os acordes do Supertramp são tocantes e belos!

As pessoas aplaudem de pé eu autor está visivelmente feliz com a reação do público. E o público ainda está em pé quando começa “The Logical Song”! Outros se levantam. E a comoção vai tomando conta de boa parte da plateia. Muita gente vai pra frente do palco dançar em pé, inclusive eu. Um cara tenta entregar uma jaqueta a Hodgson, mas ele recusa, educadamente. No fim da música, enquanto o público aboletado na frente tira fotos com a banda atrás, Hodgson saca sua câmera e tira a foto da plateia. Outros dois músicos fazem a mesma coisa. Um deles tira uma selfie do celular com o público atrás. Demais!

“Essa música é só pra ocasiões especiais. E esta é uma ocasião especial”, diz Hogdson. “You can take a break, guys, I want to be alone with the audience”, continua, começando um set solo. Na guitarra, ele toca a balada “Death and a Zoo”, pós-Supertramp, inspirada em uma de suas caminhadas no campo na Califórnia. De deixar um Neil Young orgulhoso.

E o show segue com nada menos que a lindíssima “Don’t Leave me Now”. Uma das minhas preferidas e que, desta vez, me lembra a época da natação. O Supertramp estava mesmo na trilha sonora da vida de qualquer garoto nascido na virada dos 60 para os 70!

Na música seguinte, os três teclados tocam juntos pra se ver a importância que o instrumento tem na música da banda. Os três músicos se dividem na tarefa de substituir a voz grave das gravações originais.

É a hora da apresentação dos músicos, dois americanos e dois canadenses. Aaron Macdonald é o multi-instrumentista dos sopros, Bryan Head é o baterista; David J Carpenter é o baixista; além do pianista Adamson. E se percebe que aquelas duas horas estão passando quando começa “Dreamer”. Mais uma vez, todos se levantam, dando o tom da comoção. “We are gonna play a final song”, diz Hodgson. “No”, gritam os fãs. “Well, it’s up to you…”. E quem foi para o corredor, não volta. “Fool’s overture”, que começa com aquele instrumental matador e inconfundível, é visceral. Progressiva.

A banda vai embora, mas, diante das palmas, volta. “You know, I’m english but I think I have brazilian blood”, solta o compositor, pra reforçar. Esse Segundo bizz começa com “Give a Little Bit”.. e, finalmente, segue com “It’s raining again” pra fechar com chave de ouro! Todos já estão em pé e assim continuam. “See you again soon, I hope”, se despede o músico.

Claro que não poderíamos ir embora sem esta música tão a cara da nossa Brasília pós seca prolongada e agora, também de São Paulo. Ih!: seca= São Paulo=Picolé de chuchu=Aécio, ai o debate! É, né> vamos lá ver quem está ganhando a luta de boxe. Mas com certeza o amor em meu coração depois desse show já será bem maior que o ódio.

Compartilhe:
  • Print
  • Digg
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Google Bookmarks
  • LinkedIn
  • Live
  • MySpace
  • RSS
  • Twitter

Deixe um comentário