Posts made in novembro, 2014

O Woodstock pernambucano

por Teresa Sales (cronista convidada e tia de Mariana Monteiro)

Aqui bem pertinho, na Fazenda Macuca, município de Correntes. Pedaço bom do Agreste onde outrora se plantava o melhor café do Brasil. Imaginem uma banda (pernambucana) típica de New Orleans, puxada por um boi de BumbaMeuBoi e comandada por um Capitão de Cavalo Marinho.

Estamos no terceiro e último dia do Macuca Jazz & Improviso desse ano de 2014, em Garanhuns (PE). Para os jovens guerreiros acampados, a festa teria emendado da última programação da noite do sábado com a primeira do domingo as cinco da matina. Para nós, que estamos hospedados no sossego do Mosteiro de São Bento em Garanhuns, começou às 15 horas com Zeca do Rolete e Agremiação do Baixo Falante. Por jazz & improviso entenda-se jazz lato senso, o senso do improviso do qual está repleta nossa cultura musical nordestina. Foi o que ouvimos nesse último grupo a se apresentar no palco.

Zeca do Rolete com a sua turma toca coco, toca ciranda, toca forró, toca improviso. O salão, antes todo ocupado por mesas, está agora repleto do povo dançando. Esses ritmos pedem coreografia na dança em par, em roda, soltos no salão. Já o jazz não precisa de salão. No apertadinho de mesas e cadeiras, cada um de seu canto entra no clima da música diretamente em ondas que vão e voltam dos músicos, dos instrumentos. Um balanço de corpo que é o mesmo no Blue Note em Nova York ou na Fazenda Macuca em Correntes.

O clima da dança vai esquentando. E é no meio dessa animação que chega Zé da Macuca vestido ao estilo de Cavalo Marinho. Zeca do Rolete saúda-o com uma música de candomblé. Ele sobe ao palco, tenta dar início ao cortejo com o Street Jazz, mas os improvisos continuam e o povo não quer parar de dançar coco.

Chega o boi. Imenso. Carregado por três homens. Chega finalmente o conjunto de jazz. Zeca do Rolete cede lugar então ao Jazz. Não estamos nas ruas de New Orleans, mas ouvimos o mais típico de lá. Caminhando e dançando no mesmo capim pangola onde ouvimos, ao redor do grande palco, as grandes atrações desse ano: Ave Sangria e Duofel. O cortejo para na rodovia. Acertos. Muitos que estavam na dança, ali se despedem. Outros seguem, de carro, de ônibus. Vamos todos a Poço Comprido, distrito de Correntes. Um povoado de dois mil habitantes. Eles estão à nossa espera, à espera do Boi da Macuca.

Quem primeiro aparece são os meninos. Muitos meninos, às dezenas. Poço Comprido está longe ainda da mais recente baixa taxa de natalidade brasileira. Chegam atraídos pelo boi, que os persegue às chifradas. Junta-se ao boi, na brincadeira com os meninos, outra figura do folguedo de Cavalo Marinho, o Mateus, com sua cara pintada de preto (como se não bastasse sua cor natural), camisa de chitão e chapéu cônico com fitas coloridas. Em vez da bexiga de boi de antigamente, Mateus se vale de uma garrafa pet vazia para sair correndo assustando os meninos que o chamam de mussu.

Os meninos acrescentam ao cortejo sua própria coreografia de brincadeira com o boi e com Mateus. New Orleans segue atrás, comandada pelo Capitão do Cavalo Marinho, que para a cada boteco aberto da cidade para um cumprimento, uma homenagem, assim como aos chefes de família sentados à calçada. A banda toca Asa Branca aqui, acolá manda mais uma de Luis Gonzaga, tudo misturado ao jazz.

Distingue-se perfeitamente o cortejo que chega – roupas, cabelos e chapéus extravagantes – dos que nos esperam. A princípio parados nas janelas e calçadas, com suas roupas domingueiras para ver a banda passar. Aos poucos, incorporam-se à banda. Ao final do cortejo, distancio-me um pouco para ver. Os de Poço Comprido já são então quase duas vezes mais de gente no cortejo.

Mangue Beat
Não, não é apenas uma banda de jazz. Também não é somente um folguedo de Cavalo Marinho. É mais. Assim como é mais o Mangue Beat, a orquestra do maestro Spock. Essas leituras de nossas belas tradições culturais em mistura com outros elementos musicais do mundo, onde se destaca o jazz, a herança negra dos irmãos do Norte. Confesso que em poucas festividades de rua, que tanto aprecio, vivi emoção igual.

Tá certo que estou exagerando um pouco ao comparar esse festival ao de Woodstock. Afinal, a fazenda de Max Yasgue, no estado de Nova York (15 a 18 de agosto de 1969, em plena época da contracultura que floresceu nas bandas de lá) contou com 400 mil expectadores e lá se apresentaram monstros sagrados do jazz como Janis Joplin, Jim Hendrix, Santana, Joan Baez …

Mas nem tanto. O público predominantemente jovem com quem compartilhamos os três dias de música não diferia muito daquele de 45 anos atrás. Negros e negras com seus bonitos cabelos pixains assumidos em toda a variedade de looks. Shorts, saias compridas, camisetas, blusinhas de algodão, vestidinhos, lenços e adereços coloridos; magros, cabeludos, barbudos.  Um adjetivo atual para defini-los? Descolados. Ninguém careta. Careta, apenas cigarro de indústria, em franca minoria.

O paulistano do Duofel, Luiz Bueno, saúda as crianças e os namorados. “Vocês encontram aqui o que a Rede Globo não oferece: vida”.

O que mais me marcou em todo o festival foi a apresentação do Ave Sangria. Surpresa para mim, que não morava no Recife quando eles surgiram. E sequer os vi ao ressurgirem no Teatro de Santa Isabel ainda este ano. A presença de Marco Polo no palco, com braços metamorfoseados em asas de um pássaro mágico que compôs as músicas, que só fui ouvir melhor ao voltar para casa. Fui das poucas pessoas que não fez coro com a banda.

Ave Sangria estaria bem em Woodstock.

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Paul McCartney in concert- precisa dizer mais?

Um dos músicos mais conhecidos do mundo, de 72 anos, chega a uma cidade em que nunca esteve antes, pega uma bicicleta e sai pedalando pelo parque. Você acha que ele vai dar um show de uma hora e meia, certo? Não ele é Paul McCartney, Beatle esportista e vegano, e ficou três horas no palco cantando as músicas de um repertório construído ao longo dos últimos 61 anos. Um repertório que mudou a história da música mundial.

Ainda chovia na pista do Estádio Nacional Mané Garrincha quando Paul subiu ao palco, com uma hora e nove minutos de atraso, ao que tudo indica por causa da chuva, e mesmo assim sob os gritos de uma plateia que, ali na frente, mais parecia com os beatlemaníacos da Londres de 1963.

A emoção já fora despertada por um vídeo que mostrava Paul desde a infância até a fase Beatles, intercalada por fotos de belos quadros contemporâneos coloridos. As músicas do “esquenta” eram todas do quarteto de Liverpool, mas normalmente cantadas por outros intérpretes. O público da pista normal já cantara animado “Come Together”, que não faria parte do repertório do show. Paul não canta músicas que eram interpretadas por John Lennon. No que faz muito bem, claro. 

Loooove, Love Magical Mistery Toooour”, entoa Paul, abrindo o show com um dos grandes sucessos da fase madura dos Beatles. Meu amigo Marcos Pinheiro, do site e do programa de rádio Cult 22, havia publicado uma setlist dos outros shows da turnê em que ele abria com “Eight Days a Week”. Eu tinha ficado animadíssima com a perspectiva de ouvir de cara uma das músicas de que mais gostava na minha adolescência. Mas Marquinhos (na foto abaixo, comigo, meu marido e a amiga Bianca)ressalvara: pode ser que ele mude e abra com “Love Magical….”. Não deu outra.

O público, na pista Premium, formado principalmente de trintões e quarentões (os sessentões, setentões e as crianças estavam nas arquibancadas), cantou junto desde o primeiro momento. Paul estava de blusa branca e paletó vermelho. E animadíssimo como sempre. Fazia 24 anos que eu não o via ao vivo.

A primeira e única vez que tinha ido a um show dele fora no primeiro que deu no Brasil, no Maracanã, em 1990. Ao meu lado, além de meu marido amante dos Beatles, e de Marcos e outros amigos, estava minha amiga de adolescência Mônica, que fora ao show de 90 comigo no Rio. Aquele show tinha sido emoção pura porque era a primeira vez que eu via e, principalmente, ouvia um Beatle em minha vida. Lembro-me nitidamente de fechar os olhos e ter a sensação de estar vendo os 4 ali no palco do Maracanã. Foi como nada na vida. E ainda tínhamos visto Paul acenando na janela do quarto em que estava hospedado naquele hotel da ponta de Copacabana. Eu e Mônica repetiríamos a dose de propósito, para repetir também a emoção. E assim foi.

Depois do baque inicial, Paul segue o show com “Save Us”, uma das músicas do último disco solo, em que é acompanhado da mesma banda que vemos ali no palco, de guitarra, baixo, bateria e teclado. O CD foi muito elogiado pela crítica. Infelizmente, esgotou na Livraria Cultura às vésperas da apresentação. “Oi Brasília. Boa noite, brasilienses! Esta noite vou tentar falar um pouco de português, mas mais inglês”, diz, usando a colinha divulgada no facebook depois que um fotógrafo conseguiu registrá-la no show do Rio. “OK, we are gonna have a party here today!”, diz ele, emendando com “All my loving”, para continuar a viagem de volta ao tempo pré-Swinging London. Minhas lembranças da adolescência em São Paulo, onde aprendi a ouvir Beatles, voltam com força total. A emoção é grande. “É bom estar aqui, finalmente”, continua na cola, agora adaptada à capital.

Quem foi aos shows anteriores, reconhece as gracinhas daquele que é a parte mais pop da dupla Lennon e McCartney: o gestual é o mesmo. Quando tira o paletó vermelho e o público grita, ele pergunta, fingindo surpresa: “Why?” “Listen to what the man said” é a próxima. Paul pega uma guitarra com bolas coloridas, em uma das primeiras das mais de 15 trocas de instrumentos de todo o show. O som me lembra Lou Reed e Paul faz um pequeno solo. Não é sua especialidade aqui, ele acompanha, e deixa os solos para o companheiro de banda. A versatilidade o bandleader mostra na troca da guitarra pelo baixo e também pelo piano.

 

This is the original guitar I played on the record in the 60s”, anuncia, antes de começar “Paperback Writer”, do iniciozinho da carreira dos Beatles. “Esta música é dedicada a Jimmy Hendrix”, diz Paul, levando a plateia mais uma vez ao delírio.

Esta é dedicada a minha amada esposa Nancy”, fala, continuando o momento dedicatória, ainda em português, e se dirigindo pela primeira vez ao piano. Desta vez dei sorte, o piano está na nossa frente, à direita do público. A canção é “My Valentine” e o vídeo é protagonizado por Natalie Portman e Johnny Depp, que falam em linguagem de sinais. Forte. E ele também dedica uma canção a Linda, com quem teve os filhos (ele carrega um deles na foto abaixo), entre eles a hoje estilista Stela.

A primeira metade do espetáculo é uma prova de que o Beatle pode, tranquilamente, mesclar as músicas do grupo com a de outras fases, como a banda que formou depois da separação, The Wings, ou a carreira solo posterior. O público gosta. E a hora dos Wings havia chegado. “This one is for the Wings fans”, diz, introduzindo “1985”.

História do rock
Mas logo está de volta ao palco o repertório do quarteto que mudou a história do rock, popularizando no velho mundo e modernizando o ritmo criado anos antes, a partir do blues, por pioneiros como Chuck Berry e Little Richard. O rock já havia chegado ao público branco pelas mãos- e pernas e quadris- de Elvis Presley.

Paul encanta novamente a plateia com “The long and winding road”, dona de uma das melodias mais belas dos Beatles. Seguem-se “Maybe I’m amazed”, uma canção country, que me remete a Simon and Garfunkel; “I’ve just seen a face” e, pra incendiar novamente os beatlemaníacos “We can work it out”!

Another Day” e “And I love her” fazem o público acompanhar, emocionado, acendendo luzinhas. Paul já havia voltado às guitarras acústicas e ganhou um ursinho de pelúcia branco, que foi buscar na mão de uma fã. It’s good to be here in Brasília. Beautiful town, beautiful city. Thank you for the warm welcome!”

Na hora de “Blackbird” Paul sobe junto com o palco móvel, num dos momentos mais belos do espetáculo. Fico me lembrando da linda versão de Ella Fitzgerald, que adoro…

George Harrison
Esta música é para o meu querido amigo George!”, dispara Paul, arrancando do público a reação mais calorosa da noite. É “Here Today”, cuja letra diz: “se você estivesse aqui hoje…”, se referindo a Harrison, que morreu há 13 anos. George foi o grande responsável pela transformação da música dos Beatles, após apresentar Paul, John e Ringo à música indiana de Ravi Shankar e ao universo do psicodelismo que ajudou a produzir o grande Sgt. Pepper’s Lonely Heart Club Band, de 1967.

Sgt. Pepper
Depois de “New”, que mostra como o novo álbum é especial, é hora justamente para o Sgt. Pepper, pra mim o grande disco dos Beatles e um dos mais importantes da música popular mundial. Foi o disco que marcou definitivamente a mudança de direção que fez com que os quatro músicos da pequena Liverpool levassem para suas músicas a viagem proporcionada pelo LSD.
Além destas influênicas, o álbum bebeu em fontes como o vaudeville, o circo, o music hall, o avant-garde, e a música clássica ocidental. A enciclopédia Oxford, o descreveu como “o álbum mais influente de rock and roll alguma vez gravado”.

Um álbum tão mítico que despertou até lendas sobre suas intenções satânicas, com aquela história de que, quem tocasse uma das músicas de seu lado B ao contrário, ouviria a voz do Demônio. 

Não por causa disso, mas quando Paul McCartney diz “This one is from the Sgt. Pepper Album”, sinto um frio subir por minha espinha. “Lovely Rita, Rita Maeeee!”, canta o principal parceiro musical de John Lennon. A outra é “Beeing for the Benefit of Mr. Kite”, uma música bem lado B que eu adoro!

Heroínas de Lennon/McCartney
Aliás, como era incrível a capacidade da dupla Lennon e McCartney de criar personagens que eram verdadeiras heroínas. “Eleonor Rigby”, um dos momentos mais emocionantes do show de domingo, era a mulher que morre tragicamente, porque sozinha e esquecida. “Lady Madonna” a mãe heroína de muitos filhos, que tem que alimentar, enquanto dá de mamar ao mais novo. A melodia e o ritmo alegres dão outra dimensão à vida dura dela. E levanta o público, claro! E há “Lovely Rita”… e outras, como “Penny Lane”, que é o nome de uma rua, esta cantada por Lennon e, portanto, fora do show de Paul.

Everybody outthere”, que dá nome ao último CD solo, já soa como uma velha conhecida dos fãs. Tem uma boa batida pop. E é hora de mais uma homenagem a George, com uma das poucas músicas que ele compôs para os Beatles, a belíssima “Something”. “Obrigada, George for this beautiful song”, diz Paul, misturando as línguas. Não vou mentir que ficaria ainda mais em êxtase com outra canção de Harrison: “While my guitar gently weeps”!

E a apresentação continuou num crescendo, enveredando para outra série de sucessos, quase todos dos Beatles: “Ob-La-Di, Ob-La-Da”; “Band on the Run” (de Paul solo); “Back in the U.S.S.R” (de arrepiar); culminando com “Let it be”, daqueles momentos Hors Concours do show e da história dos Beatles.

 

O momento espetáculo acontece quando Paul e banda são “surpreendidos” com o fogo que sai de vários pontos da frente do palco, na hora de “Live and Let Die”. À maneira da inovação trazida à interpretação da música pelo Guns and Roses, um dos maiores sucessos da carreira solo de McCartney, leva a plateia mais uma vez à loucura.

Mas ainda há a grande “Hey Jude” para a primeira despedida. A esta altura, a chuva já havia ficado forte de novo. Mas nada que fizesse o público desistir do bizz. E ele veio com nada menos que “Day Tripper”, voltando novamente ao início de tudo; “Get Back”, que sempre me lembrará aquele vídeo do quarteto no topo de um prédio; e a lindíssima “I Saw Her Standing There”, pra fechar com chave de ouro. Mas, claro, há um segundo bizz. Quem não tinha visto a setlist da tourné, fica surpreso. Mas como ir embora sem ouvir “Yesterday”, pra mim, o momento mais emocionante de toda a noite?

Pra mostrar que é incansável mesmo, sir Paul ainda quer mais: “Helter Skelter” volta a incendiar a primeira noite de rock do novo Mané Garrincha. E ainda haverá “Golden Slumbers”, “Carry That Weight” e “The End”. Fogos de artifício se juntam a uma outra chuva: desta vez de papeis coloridos.  Nossa alma, assim como nossas capas de chuva, está totalmente lavada.

E toda aquela energia me fez desejar chegar aos 72 anos com a mesma vitalidade de Paul McCartney. O primeiro passo é tirar a bicicleta do porão e começar a andar no parque da cidade de novo, depois de algumas décadas afastada dela.  

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O mundo se vinga por você ou Para o João ler quando tiver 16 anos

Aos 6, meu filho João já dá sinais de que poderá se tornar um adolescente romântico como a mãe dele foi um dia. Tomara que não, que puxe mais o pragmatismo do pai. Por via das dúvidas, pra ele e pra todos os adolescentes chegados a um romantismo, escrevo estas mal traçadas linhas. Como uma espécie de aviso, um colchão que pode suavizar as quedas da vida.

Quem é romântico se apaixona perdidamente, algumas vezes na vida. Tenho uma teoria hoje em dia de que o romântico é assim porque foi amado demais, desmedidamente, pelos pais, e criado um pouco numa redoma de carinho. Aí cresce achando (e principalmente sentindo) que o normal é isso: é amar pra valer, é amar sem limites. E o pior: esperando que será amado de volta na mesma medida. Normalmente, justamente por amar demais e expressar este amor com a espontaneidade típica de quem foi criado assim, não é amado de volta. Afinal, o ser humano- e não são só os homens não- quer o que é mais difícil. Quer conquistar.

Aí o apaixonado platônico sofre desbragadamente, tal qual estivesse no romance “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Goethe, ou em uma novela de qualquer escritor do Mal do Século francês, inglês (como Oscar Wilde, na terceira foto abaixo) ou mesmo brasileiro.

No caso do adolescente ou jovem que tenha crescido nos anos 1980, provavelmente alimentará sua dor ouvindo os versos sofridos de bandas como The Smiths e REM, cujos letristas foram justamente influenciados por estes escritores do passado.

Isso continua na universidade se a pessoa for mesmo daquelas incorrigíveis. O desprezo do ser amado não tem nada a ver com o do filme de Godard com Brigitte Bardot nua em Capri; ele é real mesmo e dói pra caramba. Nos casos mais graves, a tendência ao amor platônico e ao perfeccionismo pode se estender até a idade adulta. Porque você só ama aquela pessoa, totalmente idealizada, diga-se de passagem, exatamente como as sombras da caverna de Platão. Você deixa outras oportunidades passarem, despreza outras pessoas que amam você. Afinal, elas não são aquele seu objeto de seu desejo, tão único e especial.

Você pode passar anos sofrendo e sendo desprezado. Eis que um dia, as coisas mudaram, você evoluiu um pouco porque resolvera algum tempo antes, finalmente, dar uma chance a alguém que se interessara por você, mesmo não estando a princípio tão interessado nele, e teve um namoro normal. Parece até brincadeira ou coisa do destino, dirá quem acredita nele. Mas é aí, precisamente, quando você está bem, com a autoestima em melhores condições, que retorna do passado, de um passado nem tão remoto assim, um daqueles objetos de desejo. Ele levou um pé na bunda da garota que ELE amava, sua rival invejada por você então; está mais gordo; e já olha pra você com outros olhos. Vê que você está bem, continua bonita, está mais confiante e melhor até no trabalho do que ele jamais conseguiu estar, embora fosse um gênio da matemática na escola.

A vingança
Em nome dos velhos tempos, você fica com ele mais uma vez- como naquela época em que tudo o que você conseguia era ficar, namorar jamais. Mas, quem diria, ele agora quer mais: quer namorar. Anos depois, aquela pessoa que parece vir de um outro mundo, quer retomar tudo como se o tempo não tivesse passado. Pra você, porém, aquilo já não faz sentido algum. E nem dá pra aproveitar um esperado sentimento de vingança. O que te toma é um sentimento de pena e um pouco de melancolia. Afinal, onde está aquela pessoa orgulhosa de outrora por quem você era capaz de fazer as maiores loucuras? (Na foto abaixo, Arthur Rimbaud, poeta romântico francês)

Aquele outro, o objeto de desejo dos tempos de faculdade, também reaparece, décadas depois, em outra situação. No trabalho, ele é agora bem sucedido, até porque fez uma carreira vertical, na mesma empresa, sem maiores riscos- o oposto de você, que sempre se aventurou em busca de sonhos diversos; o romântico é assim. Mas ele é ridicularizado por muitos subordinados. Se tornou uma triste figura, às vezes patética, dizem alguns. A postura indiferente, que na escola era cool, charmosa; no trabalho é autoritária, pouco simpática, se volta contra ele. Aqui, sim, às vezes você se sente um pouco vingado, mas às vezes também quase sente um pouco de pena. O pior é quando você passa a relativizar seu velho sentimento, seu velho amor. Se sente mal por ter desperdiçado tanto sentimento com alguém que não era exatamente o que você achava que era.

E tem aquele cara com quem você chegou a namorar mas que, embora fosse apaixonado no início, de repente se desapegou e terminou por uma briguinha boba. Às vezes são os amigos que te abrem os olhos. Ele queria se casar, você era muito jovem e disse não. Ora, foi por isso que ele terminou, dizem os amigos. Não é que pode ter sido mesmo? Mas você foi criada por pais feministas; em mais de 20 anos, nunca lhe passou pela cabeça que o motivo do término tenha sido orgulho ferido, um sentimento mais afeto aos que têm uma criação mais machista, mais brasileira, vá lá.

Guardadas as devidas proporções, isso acontece também com as amizades. Quando você está mal, muitas desaparecem. Quando alcança um determinado status, muitas vezes no trabalho, elas reaparecem. Daí a importância de se saber distinguir quem tem a sabedoria de valorizar você nos diversos momentos de sua vida. A moral da história de tão conhecida, chega a ser um clichê: o mundo dá voltas. E como elas são inesperadas! Você não precisa se esforçar nesse sentido. Basta ser você mesmo e continuar no seu caminho, com coerência. Se você é dos bons, o mundo se vinga por você.

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Um dia de fúria versão espanhola

Poderia ser um dos filmes do início da carreira de Almodóvar, quando ele ainda ria do próprio sentimentalismo, quando ria do drama todo que gosta de mostrar. Almodóvar com uma estética mais clean. Mas “Relatos Selvagens” é apenas coproduzido pelo diretor espanhol que, atualmente, prefere se dedicar mais ao melodrama puro e simples. O filme, na verdade uma colagem de seis curtas-metragens de um único diretor, Damián Szifrón, mas que parecem ser de diretores diferentes, é uma espécie de “Um dia de Fúria” espanhol. Conta, portanto, com muito mais humor do que o filme americano com Michael Douglas no papel principal do estressado. Em suma, o ótimo e original “Relatos Selvagens” é uma tragicomédia. De tão inusitadas, as situações em que se envolvem os personagens se tornam cômicas.

Em um dos curtas, a fúria chega quando um homem em um carro ultrapassa outro que o estava impedindo de trafegar rapidamente, de propósito. Quando consegue ultrapassar, solta um xingamento para o chato, que dirige um carro velho. Eis que o pneu daquele que ultrapassou fura e ele, que estava bem à frente, é obrigado a ficar parado na estrada, em um ponto no meio do nada, esperando por um socorro mecânico que não chega nunca. É claro que o ultrapassado o alcança e começa a tripudiar. A violência contra o carro novinho do homem mais rico é apenas o início de uma luta com vários rounds que se tornará ridiculamente trágica logo, logo.

Outro episódio, este estrelado pelo onipresente e sempre ótimo ator argentino Ricardo Darín, mostra outra dessas situações bem comuns no nosso dia a dia que, num dia em que estamos especialmente cansados, pode nos levar à loucura. Depois da estressante atividade de implodir um prédio, o engenheiro espanhol vivido por Darín (com sotaque bem diferente do argentinês a que estamos acostumados) tem seu carro rebocado, após ter estacionado em frente a uma loja em que fora buscar o bolo da festa de aniversário da filha. Quando chega ao guichê do Detran de lá, descobre que terá que pagar a multa e ainda uma taxa para a retirada do carro. A indignação educada se transforma em ira diante da atitude do funcionário do guichê de ignorar totalmente seus argumentos de que não havia nenhum aviso de proibido estacionar no lugar em que ele parara. A situação vai piorando, piorando até culminar em uma inesperada redenção no fim da história.

O único episódio argentino – os demais se passam na Espanha- é um dos mais realistas. Quando um jovem medroso da classe alta de Buenos Aires atropela e mata uma pessoa, após dirigir embriagado, seus pais, aconselhados pelo advogado da família, resolvem fazer um acordo para incriminar o jardineiro. Só que o acordo esbarra na competência do policial que faz a perícia no carro. O final é matador.

O episódio mais curto se passa todo dentro de um avião. É hilário. A premissa é a de que cada uma das pessoas que se encontram no voo teve uma relação, em algum momento de suas vidas, com um homem que se tornará o pivô dos acontecimentos. Nada mais pode ser dito sem comprometer a surpresa.

Noutro episódio, uma garçonete conta a sua colega ex-presidiária que está tendo que servir o homem que fez mal a alguém de sua família. A colega toma suas dores e resolve agir.

E como não se divertir com o filmete que parte de uma traição descoberta no dia do casamento pela própria noiva? Pode haver raiva mais genuína que a despertada pelo ciúme? E poderia haver uma situação mais catalizadora da ação do que o fato de a descoberta ter sido feita justamente no dia do casamento? A esta conjunção de fatores, se soma ainda uma série de cenas dignas de comédias-pastelão como os velhos filmes de Almodóvar “Kika” ou “De Salto Alto”. A atriz que faz a noiva dá brilho ao personagem e o ator, quase sempre contido, não fica atrás.

 

O fato é que você sai do cinema se sentindo mais leve. Se sentindo vingado das raivas que passa no dia a dia. E o mais perigoso: se sentindo respaldado para cometer suas próprias vinganças. Ter seu próprio dia de fúria.

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O novo design polonês em Brasília

Cadeiras de fibra de vidro ou alumínio supermodernas, luminárias móveis, equipamentos de última geração para esquiar, estantes participativas, joias mutantes. O novo design polonês tem tudo isso. A pequena mostra “The Spirit of Poland”, no Museu do Conjunto Cultural da República, em Brasília, veio pra mostrar aos brasileiros um pouco da muita criatividade deste país que conhecemos tão pouco.

São empresas e iniciativas individuais que, além do desenho em si, apresentam aqui soluções tecnológicas. A Vzór, por exemplo, que trouxe a cadeira preta, tem um modelo de negócios baseado na produção de uma série limitada de ícones do design polonês. Utiliza tecnologias e materiais inovadores e que respeitam os direitos autorais. Um objetivo da marca, a longo prazo, é criar uma coleção dos ícones do design polonês da Europa Central e promover a prática do design na região e no mundo.

 

Outra peça de mobiliário da exposição é a cadeira do estúdio Tabanda, formado por três designers. A cadeira Diago é inspirada no origami e, em vez de utilizar a usual madeira compensada, é feita de folha de alumínio. Está disponível em sete cores diferentes. Sim, todos os produtos expostos no Museu da República estão à venda, mas apenas dois têm revendedores no Brasil. “Encontrar mercado no Brasil para os objetos da mostra é um dos objetivos da exposição”, disse a Escritos do Ócio uma das produtoras da mostra, a polonesa Weronika Rochacka.

Um móvel que vai chamar a atenção do brasiliense é a mesa Steel in rotation, do estúdio de engenharia Zieta Prozessdesing. Sua inspiração foi nada menos que a Catedral de Brasília, de Oscar Niemeyer. O estúdio tem como clientes Pirelli, Balantine’s e Audi. A mesa faz parte de uma coleção chamada “nômades do futuro”, baseada em estudos de expansão volumétrica. Por causa desta tecnologia chamada FIDU, o aço muda sua forma original por meio da pressão interna e se torna uma construção única e ultraleve.

Uma das peças mais belas e intrigantes da exposição é a luminária móvel da Pani Jurek, estúdio especializado em objetos não estáticos. Após ser fixada por um ponto na parede, a luminária redonda pode ser rodada para um lado e para o outro, produzindo luz voltada para pontos diversos do ambiente. À medida que se move, outro elemento entra em ação: a kolo sand, uma areia de vidro que funciona meio que como uma ampulheta. Só vendo de perto pra captar o efeito.

A estante Ivy Shelf da CSTM Custom parece uma estante moderna, mas normal. O diferencial é que o cliente pode participar de sua confecção. Ele projeta as prateleiras por meio de um aplicativo gratuito, que utiliza a tecnologia da realidade aumentada. O consumidor pode escolher o tamanho, a forma e a função dos móveis de acordo com suas necessidades.

E numa exposição de design não poderiam faltar joias. As da Bro.Kat são feitas de carvão, ou ouro negro, como o material é conhecido na Silésia, região ao sul da Polônia. Nos velhos tempos, era a principal fonte de riqueza da região, diz o catálogo da exposição. Os aneis de carvão com prata em formatos rústicos são um verdadeiro objeto de desejo.

Já as joias da Takk são mutantes. Você mesmo pode modifica-las, construindo um modelo para cada ocasião. Tudo isso graças a um íma que atrai a parte da joia que você escolher, como me mostrou Weronika. No dia da abertura da mostra, ela usava a dela em forma de um longo colar, que também pode se tornar uma pulseira, um anel…

As crianças também vão gostar de algumas invenções em especial. Há o sapo que faz barulho à medida que anda…

… há os bichos coloridos feitos de metal…

Há este vaso com cara de veado…

… e estas coloridíssimas pranchas de esqui.

O espírito da Polônia fica em Brasília até o dia 28 de novembro.

 

 

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