O mundo se vinga por você ou Para o João ler quando tiver 16 anos

O mundo se vinga por você ou Para o João ler quando tiver 16 anos

Aos 6, meu filho João já dá sinais de que poderá se tornar um adolescente romântico como a mãe dele foi um dia. Tomara que não, que puxe mais o pragmatismo do pai. Por via das dúvidas, pra ele e pra todos os adolescentes chegados a um romantismo, escrevo estas mal traçadas linhas. Como uma espécie de aviso, um colchão que pode suavizar as quedas da vida.

Quem é romântico se apaixona perdidamente, algumas vezes na vida. Tenho uma teoria hoje em dia de que o romântico é assim porque foi amado demais, desmedidamente, pelos pais, e criado um pouco numa redoma de carinho. Aí cresce achando (e principalmente sentindo) que o normal é isso: é amar pra valer, é amar sem limites. E o pior: esperando que será amado de volta na mesma medida. Normalmente, justamente por amar demais e expressar este amor com a espontaneidade típica de quem foi criado assim, não é amado de volta. Afinal, o ser humano- e não são só os homens não- quer o que é mais difícil. Quer conquistar.

Aí o apaixonado platônico sofre desbragadamente, tal qual estivesse no romance “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Goethe, ou em uma novela de qualquer escritor do Mal do Século francês, inglês (como Oscar Wilde, na terceira foto abaixo) ou mesmo brasileiro.

No caso do adolescente ou jovem que tenha crescido nos anos 1980, provavelmente alimentará sua dor ouvindo os versos sofridos de bandas como The Smiths e REM, cujos letristas foram justamente influenciados por estes escritores do passado.

Isso continua na universidade se a pessoa for mesmo daquelas incorrigíveis. O desprezo do ser amado não tem nada a ver com o do filme de Godard com Brigitte Bardot nua em Capri; ele é real mesmo e dói pra caramba. Nos casos mais graves, a tendência ao amor platônico e ao perfeccionismo pode se estender até a idade adulta. Porque você só ama aquela pessoa, totalmente idealizada, diga-se de passagem, exatamente como as sombras da caverna de Platão. Você deixa outras oportunidades passarem, despreza outras pessoas que amam você. Afinal, elas não são aquele seu objeto de seu desejo, tão único e especial.

Você pode passar anos sofrendo e sendo desprezado. Eis que um dia, as coisas mudaram, você evoluiu um pouco porque resolvera algum tempo antes, finalmente, dar uma chance a alguém que se interessara por você, mesmo não estando a princípio tão interessado nele, e teve um namoro normal. Parece até brincadeira ou coisa do destino, dirá quem acredita nele. Mas é aí, precisamente, quando você está bem, com a autoestima em melhores condições, que retorna do passado, de um passado nem tão remoto assim, um daqueles objetos de desejo. Ele levou um pé na bunda da garota que ELE amava, sua rival invejada por você então; está mais gordo; e já olha pra você com outros olhos. Vê que você está bem, continua bonita, está mais confiante e melhor até no trabalho do que ele jamais conseguiu estar, embora fosse um gênio da matemática na escola.

A vingança
Em nome dos velhos tempos, você fica com ele mais uma vez- como naquela época em que tudo o que você conseguia era ficar, namorar jamais. Mas, quem diria, ele agora quer mais: quer namorar. Anos depois, aquela pessoa que parece vir de um outro mundo, quer retomar tudo como se o tempo não tivesse passado. Pra você, porém, aquilo já não faz sentido algum. E nem dá pra aproveitar um esperado sentimento de vingança. O que te toma é um sentimento de pena e um pouco de melancolia. Afinal, onde está aquela pessoa orgulhosa de outrora por quem você era capaz de fazer as maiores loucuras? (Na foto abaixo, Arthur Rimbaud, poeta romântico francês)

Aquele outro, o objeto de desejo dos tempos de faculdade, também reaparece, décadas depois, em outra situação. No trabalho, ele é agora bem sucedido, até porque fez uma carreira vertical, na mesma empresa, sem maiores riscos- o oposto de você, que sempre se aventurou em busca de sonhos diversos; o romântico é assim. Mas ele é ridicularizado por muitos subordinados. Se tornou uma triste figura, às vezes patética, dizem alguns. A postura indiferente, que na escola era cool, charmosa; no trabalho é autoritária, pouco simpática, se volta contra ele. Aqui, sim, às vezes você se sente um pouco vingado, mas às vezes também quase sente um pouco de pena. O pior é quando você passa a relativizar seu velho sentimento, seu velho amor. Se sente mal por ter desperdiçado tanto sentimento com alguém que não era exatamente o que você achava que era.

E tem aquele cara com quem você chegou a namorar mas que, embora fosse apaixonado no início, de repente se desapegou e terminou por uma briguinha boba. Às vezes são os amigos que te abrem os olhos. Ele queria se casar, você era muito jovem e disse não. Ora, foi por isso que ele terminou, dizem os amigos. Não é que pode ter sido mesmo? Mas você foi criada por pais feministas; em mais de 20 anos, nunca lhe passou pela cabeça que o motivo do término tenha sido orgulho ferido, um sentimento mais afeto aos que têm uma criação mais machista, mais brasileira, vá lá.

Guardadas as devidas proporções, isso acontece também com as amizades. Quando você está mal, muitas desaparecem. Quando alcança um determinado status, muitas vezes no trabalho, elas reaparecem. Daí a importância de se saber distinguir quem tem a sabedoria de valorizar você nos diversos momentos de sua vida. A moral da história de tão conhecida, chega a ser um clichê: o mundo dá voltas. E como elas são inesperadas! Você não precisa se esforçar nesse sentido. Basta ser você mesmo e continuar no seu caminho, com coerência. Se você é dos bons, o mundo se vinga por você.

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4 Comentários

  1. Conhecemos bem estas estórias…

  2. Michele Faryj Frasunkiewicz |

    Que texto lindo querida Mariana!
    Tão íntimo e tão puro!
    Tenho certeza que o João vai amar ler estas BELAS e MUITO BEM TRAÇADAS LINHAS =)
    Beijos!

    • Obrigada, querida Michele! Mas no fim das contas, terminei achando meio pesado pra uma pessoa de 16. Quem sabe lá pra uns 19, então… Beijos e obrigada pela leitura, sempre!

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