O Woodstock pernambucano

O Woodstock pernambucano

por Teresa Sales (cronista convidada e tia de Mariana Monteiro)

Aqui bem pertinho, na Fazenda Macuca, município de Correntes. Pedaço bom do Agreste onde outrora se plantava o melhor café do Brasil. Imaginem uma banda (pernambucana) típica de New Orleans, puxada por um boi de BumbaMeuBoi e comandada por um Capitão de Cavalo Marinho.

Estamos no terceiro e último dia do Macuca Jazz & Improviso desse ano de 2014, em Garanhuns (PE). Para os jovens guerreiros acampados, a festa teria emendado da última programação da noite do sábado com a primeira do domingo as cinco da matina. Para nós, que estamos hospedados no sossego do Mosteiro de São Bento em Garanhuns, começou às 15 horas com Zeca do Rolete e Agremiação do Baixo Falante. Por jazz & improviso entenda-se jazz lato senso, o senso do improviso do qual está repleta nossa cultura musical nordestina. Foi o que ouvimos nesse último grupo a se apresentar no palco.

Zeca do Rolete com a sua turma toca coco, toca ciranda, toca forró, toca improviso. O salão, antes todo ocupado por mesas, está agora repleto do povo dançando. Esses ritmos pedem coreografia na dança em par, em roda, soltos no salão. Já o jazz não precisa de salão. No apertadinho de mesas e cadeiras, cada um de seu canto entra no clima da música diretamente em ondas que vão e voltam dos músicos, dos instrumentos. Um balanço de corpo que é o mesmo no Blue Note em Nova York ou na Fazenda Macuca em Correntes.

O clima da dança vai esquentando. E é no meio dessa animação que chega Zé da Macuca vestido ao estilo de Cavalo Marinho. Zeca do Rolete saúda-o com uma música de candomblé. Ele sobe ao palco, tenta dar início ao cortejo com o Street Jazz, mas os improvisos continuam e o povo não quer parar de dançar coco.

Chega o boi. Imenso. Carregado por três homens. Chega finalmente o conjunto de jazz. Zeca do Rolete cede lugar então ao Jazz. Não estamos nas ruas de New Orleans, mas ouvimos o mais típico de lá. Caminhando e dançando no mesmo capim pangola onde ouvimos, ao redor do grande palco, as grandes atrações desse ano: Ave Sangria e Duofel. O cortejo para na rodovia. Acertos. Muitos que estavam na dança, ali se despedem. Outros seguem, de carro, de ônibus. Vamos todos a Poço Comprido, distrito de Correntes. Um povoado de dois mil habitantes. Eles estão à nossa espera, à espera do Boi da Macuca.

Quem primeiro aparece são os meninos. Muitos meninos, às dezenas. Poço Comprido está longe ainda da mais recente baixa taxa de natalidade brasileira. Chegam atraídos pelo boi, que os persegue às chifradas. Junta-se ao boi, na brincadeira com os meninos, outra figura do folguedo de Cavalo Marinho, o Mateus, com sua cara pintada de preto (como se não bastasse sua cor natural), camisa de chitão e chapéu cônico com fitas coloridas. Em vez da bexiga de boi de antigamente, Mateus se vale de uma garrafa pet vazia para sair correndo assustando os meninos que o chamam de mussu.

Os meninos acrescentam ao cortejo sua própria coreografia de brincadeira com o boi e com Mateus. New Orleans segue atrás, comandada pelo Capitão do Cavalo Marinho, que para a cada boteco aberto da cidade para um cumprimento, uma homenagem, assim como aos chefes de família sentados à calçada. A banda toca Asa Branca aqui, acolá manda mais uma de Luis Gonzaga, tudo misturado ao jazz.

Distingue-se perfeitamente o cortejo que chega – roupas, cabelos e chapéus extravagantes – dos que nos esperam. A princípio parados nas janelas e calçadas, com suas roupas domingueiras para ver a banda passar. Aos poucos, incorporam-se à banda. Ao final do cortejo, distancio-me um pouco para ver. Os de Poço Comprido já são então quase duas vezes mais de gente no cortejo.

Mangue Beat
Não, não é apenas uma banda de jazz. Também não é somente um folguedo de Cavalo Marinho. É mais. Assim como é mais o Mangue Beat, a orquestra do maestro Spock. Essas leituras de nossas belas tradições culturais em mistura com outros elementos musicais do mundo, onde se destaca o jazz, a herança negra dos irmãos do Norte. Confesso que em poucas festividades de rua, que tanto aprecio, vivi emoção igual.

Tá certo que estou exagerando um pouco ao comparar esse festival ao de Woodstock. Afinal, a fazenda de Max Yasgue, no estado de Nova York (15 a 18 de agosto de 1969, em plena época da contracultura que floresceu nas bandas de lá) contou com 400 mil expectadores e lá se apresentaram monstros sagrados do jazz como Janis Joplin, Jim Hendrix, Santana, Joan Baez …

Mas nem tanto. O público predominantemente jovem com quem compartilhamos os três dias de música não diferia muito daquele de 45 anos atrás. Negros e negras com seus bonitos cabelos pixains assumidos em toda a variedade de looks. Shorts, saias compridas, camisetas, blusinhas de algodão, vestidinhos, lenços e adereços coloridos; magros, cabeludos, barbudos.  Um adjetivo atual para defini-los? Descolados. Ninguém careta. Careta, apenas cigarro de indústria, em franca minoria.

O paulistano do Duofel, Luiz Bueno, saúda as crianças e os namorados. “Vocês encontram aqui o que a Rede Globo não oferece: vida”.

O que mais me marcou em todo o festival foi a apresentação do Ave Sangria. Surpresa para mim, que não morava no Recife quando eles surgiram. E sequer os vi ao ressurgirem no Teatro de Santa Isabel ainda este ano. A presença de Marco Polo no palco, com braços metamorfoseados em asas de um pássaro mágico que compôs as músicas, que só fui ouvir melhor ao voltar para casa. Fui das poucas pessoas que não fez coro com a banda.

Ave Sangria estaria bem em Woodstock.

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