Paul McCartney in concert- precisa dizer mais?

Paul McCartney in concert- precisa dizer mais?

Um dos músicos mais conhecidos do mundo, de 72 anos, chega a uma cidade em que nunca esteve antes, pega uma bicicleta e sai pedalando pelo parque. Você acha que ele vai dar um show de uma hora e meia, certo? Não ele é Paul McCartney, Beatle esportista e vegano, e ficou três horas no palco cantando as músicas de um repertório construído ao longo dos últimos 61 anos. Um repertório que mudou a história da música mundial.

Ainda chovia na pista do Estádio Nacional Mané Garrincha quando Paul subiu ao palco, com uma hora e nove minutos de atraso, ao que tudo indica por causa da chuva, e mesmo assim sob os gritos de uma plateia que, ali na frente, mais parecia com os beatlemaníacos da Londres de 1963.

A emoção já fora despertada por um vídeo que mostrava Paul desde a infância até a fase Beatles, intercalada por fotos de belos quadros contemporâneos coloridos. As músicas do “esquenta” eram todas do quarteto de Liverpool, mas normalmente cantadas por outros intérpretes. O público da pista normal já cantara animado “Come Together”, que não faria parte do repertório do show. Paul não canta músicas que eram interpretadas por John Lennon. No que faz muito bem, claro. 

Loooove, Love Magical Mistery Toooour”, entoa Paul, abrindo o show com um dos grandes sucessos da fase madura dos Beatles. Meu amigo Marcos Pinheiro, do site e do programa de rádio Cult 22, havia publicado uma setlist dos outros shows da turnê em que ele abria com “Eight Days a Week”. Eu tinha ficado animadíssima com a perspectiva de ouvir de cara uma das músicas de que mais gostava na minha adolescência. Mas Marquinhos (na foto abaixo, comigo, meu marido e a amiga Bianca)ressalvara: pode ser que ele mude e abra com “Love Magical….”. Não deu outra.

O público, na pista Premium, formado principalmente de trintões e quarentões (os sessentões, setentões e as crianças estavam nas arquibancadas), cantou junto desde o primeiro momento. Paul estava de blusa branca e paletó vermelho. E animadíssimo como sempre. Fazia 24 anos que eu não o via ao vivo.

A primeira e única vez que tinha ido a um show dele fora no primeiro que deu no Brasil, no Maracanã, em 1990. Ao meu lado, além de meu marido amante dos Beatles, e de Marcos e outros amigos, estava minha amiga de adolescência Mônica, que fora ao show de 90 comigo no Rio. Aquele show tinha sido emoção pura porque era a primeira vez que eu via e, principalmente, ouvia um Beatle em minha vida. Lembro-me nitidamente de fechar os olhos e ter a sensação de estar vendo os 4 ali no palco do Maracanã. Foi como nada na vida. E ainda tínhamos visto Paul acenando na janela do quarto em que estava hospedado naquele hotel da ponta de Copacabana. Eu e Mônica repetiríamos a dose de propósito, para repetir também a emoção. E assim foi.

Depois do baque inicial, Paul segue o show com “Save Us”, uma das músicas do último disco solo, em que é acompanhado da mesma banda que vemos ali no palco, de guitarra, baixo, bateria e teclado. O CD foi muito elogiado pela crítica. Infelizmente, esgotou na Livraria Cultura às vésperas da apresentação. “Oi Brasília. Boa noite, brasilienses! Esta noite vou tentar falar um pouco de português, mas mais inglês”, diz, usando a colinha divulgada no facebook depois que um fotógrafo conseguiu registrá-la no show do Rio. “OK, we are gonna have a party here today!”, diz ele, emendando com “All my loving”, para continuar a viagem de volta ao tempo pré-Swinging London. Minhas lembranças da adolescência em São Paulo, onde aprendi a ouvir Beatles, voltam com força total. A emoção é grande. “É bom estar aqui, finalmente”, continua na cola, agora adaptada à capital.

Quem foi aos shows anteriores, reconhece as gracinhas daquele que é a parte mais pop da dupla Lennon e McCartney: o gestual é o mesmo. Quando tira o paletó vermelho e o público grita, ele pergunta, fingindo surpresa: “Why?” “Listen to what the man said” é a próxima. Paul pega uma guitarra com bolas coloridas, em uma das primeiras das mais de 15 trocas de instrumentos de todo o show. O som me lembra Lou Reed e Paul faz um pequeno solo. Não é sua especialidade aqui, ele acompanha, e deixa os solos para o companheiro de banda. A versatilidade o bandleader mostra na troca da guitarra pelo baixo e também pelo piano.

 

This is the original guitar I played on the record in the 60s”, anuncia, antes de começar “Paperback Writer”, do iniciozinho da carreira dos Beatles. “Esta música é dedicada a Jimmy Hendrix”, diz Paul, levando a plateia mais uma vez ao delírio.

Esta é dedicada a minha amada esposa Nancy”, fala, continuando o momento dedicatória, ainda em português, e se dirigindo pela primeira vez ao piano. Desta vez dei sorte, o piano está na nossa frente, à direita do público. A canção é “My Valentine” e o vídeo é protagonizado por Natalie Portman e Johnny Depp, que falam em linguagem de sinais. Forte. E ele também dedica uma canção a Linda, com quem teve os filhos (ele carrega um deles na foto abaixo), entre eles a hoje estilista Stela.

A primeira metade do espetáculo é uma prova de que o Beatle pode, tranquilamente, mesclar as músicas do grupo com a de outras fases, como a banda que formou depois da separação, The Wings, ou a carreira solo posterior. O público gosta. E a hora dos Wings havia chegado. “This one is for the Wings fans”, diz, introduzindo “1985”.

História do rock
Mas logo está de volta ao palco o repertório do quarteto que mudou a história do rock, popularizando no velho mundo e modernizando o ritmo criado anos antes, a partir do blues, por pioneiros como Chuck Berry e Little Richard. O rock já havia chegado ao público branco pelas mãos- e pernas e quadris- de Elvis Presley.

Paul encanta novamente a plateia com “The long and winding road”, dona de uma das melodias mais belas dos Beatles. Seguem-se “Maybe I’m amazed”, uma canção country, que me remete a Simon and Garfunkel; “I’ve just seen a face” e, pra incendiar novamente os beatlemaníacos “We can work it out”!

Another Day” e “And I love her” fazem o público acompanhar, emocionado, acendendo luzinhas. Paul já havia voltado às guitarras acústicas e ganhou um ursinho de pelúcia branco, que foi buscar na mão de uma fã. It’s good to be here in Brasília. Beautiful town, beautiful city. Thank you for the warm welcome!”

Na hora de “Blackbird” Paul sobe junto com o palco móvel, num dos momentos mais belos do espetáculo. Fico me lembrando da linda versão de Ella Fitzgerald, que adoro…

George Harrison
Esta música é para o meu querido amigo George!”, dispara Paul, arrancando do público a reação mais calorosa da noite. É “Here Today”, cuja letra diz: “se você estivesse aqui hoje…”, se referindo a Harrison, que morreu há 13 anos. George foi o grande responsável pela transformação da música dos Beatles, após apresentar Paul, John e Ringo à música indiana de Ravi Shankar e ao universo do psicodelismo que ajudou a produzir o grande Sgt. Pepper’s Lonely Heart Club Band, de 1967.

Sgt. Pepper
Depois de “New”, que mostra como o novo álbum é especial, é hora justamente para o Sgt. Pepper, pra mim o grande disco dos Beatles e um dos mais importantes da música popular mundial. Foi o disco que marcou definitivamente a mudança de direção que fez com que os quatro músicos da pequena Liverpool levassem para suas músicas a viagem proporcionada pelo LSD.
Além destas influênicas, o álbum bebeu em fontes como o vaudeville, o circo, o music hall, o avant-garde, e a música clássica ocidental. A enciclopédia Oxford, o descreveu como “o álbum mais influente de rock and roll alguma vez gravado”.

Um álbum tão mítico que despertou até lendas sobre suas intenções satânicas, com aquela história de que, quem tocasse uma das músicas de seu lado B ao contrário, ouviria a voz do Demônio. 

Não por causa disso, mas quando Paul McCartney diz “This one is from the Sgt. Pepper Album”, sinto um frio subir por minha espinha. “Lovely Rita, Rita Maeeee!”, canta o principal parceiro musical de John Lennon. A outra é “Beeing for the Benefit of Mr. Kite”, uma música bem lado B que eu adoro!

Heroínas de Lennon/McCartney
Aliás, como era incrível a capacidade da dupla Lennon e McCartney de criar personagens que eram verdadeiras heroínas. “Eleonor Rigby”, um dos momentos mais emocionantes do show de domingo, era a mulher que morre tragicamente, porque sozinha e esquecida. “Lady Madonna” a mãe heroína de muitos filhos, que tem que alimentar, enquanto dá de mamar ao mais novo. A melodia e o ritmo alegres dão outra dimensão à vida dura dela. E levanta o público, claro! E há “Lovely Rita”… e outras, como “Penny Lane”, que é o nome de uma rua, esta cantada por Lennon e, portanto, fora do show de Paul.

Everybody outthere”, que dá nome ao último CD solo, já soa como uma velha conhecida dos fãs. Tem uma boa batida pop. E é hora de mais uma homenagem a George, com uma das poucas músicas que ele compôs para os Beatles, a belíssima “Something”. “Obrigada, George for this beautiful song”, diz Paul, misturando as línguas. Não vou mentir que ficaria ainda mais em êxtase com outra canção de Harrison: “While my guitar gently weeps”!

E a apresentação continuou num crescendo, enveredando para outra série de sucessos, quase todos dos Beatles: “Ob-La-Di, Ob-La-Da”; “Band on the Run” (de Paul solo); “Back in the U.S.S.R” (de arrepiar); culminando com “Let it be”, daqueles momentos Hors Concours do show e da história dos Beatles.

 

O momento espetáculo acontece quando Paul e banda são “surpreendidos” com o fogo que sai de vários pontos da frente do palco, na hora de “Live and Let Die”. À maneira da inovação trazida à interpretação da música pelo Guns and Roses, um dos maiores sucessos da carreira solo de McCartney, leva a plateia mais uma vez à loucura.

Mas ainda há a grande “Hey Jude” para a primeira despedida. A esta altura, a chuva já havia ficado forte de novo. Mas nada que fizesse o público desistir do bizz. E ele veio com nada menos que “Day Tripper”, voltando novamente ao início de tudo; “Get Back”, que sempre me lembrará aquele vídeo do quarteto no topo de um prédio; e a lindíssima “I Saw Her Standing There”, pra fechar com chave de ouro. Mas, claro, há um segundo bizz. Quem não tinha visto a setlist da tourné, fica surpreso. Mas como ir embora sem ouvir “Yesterday”, pra mim, o momento mais emocionante de toda a noite?

Pra mostrar que é incansável mesmo, sir Paul ainda quer mais: “Helter Skelter” volta a incendiar a primeira noite de rock do novo Mané Garrincha. E ainda haverá “Golden Slumbers”, “Carry That Weight” e “The End”. Fogos de artifício se juntam a uma outra chuva: desta vez de papeis coloridos.  Nossa alma, assim como nossas capas de chuva, está totalmente lavada.

E toda aquela energia me fez desejar chegar aos 72 anos com a mesma vitalidade de Paul McCartney. O primeiro passo é tirar a bicicleta do porão e começar a andar no parque da cidade de novo, depois de algumas décadas afastada dela.  

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