Um dia de fúria versão espanhola

Um dia de fúria versão espanhola

Poderia ser um dos filmes do início da carreira de Almodóvar, quando ele ainda ria do próprio sentimentalismo, quando ria do drama todo que gosta de mostrar. Almodóvar com uma estética mais clean. Mas “Relatos Selvagens” é apenas coproduzido pelo diretor espanhol que, atualmente, prefere se dedicar mais ao melodrama puro e simples. O filme, na verdade uma colagem de seis curtas-metragens de um único diretor, Damián Szifrón, mas que parecem ser de diretores diferentes, é uma espécie de “Um dia de Fúria” espanhol. Conta, portanto, com muito mais humor do que o filme americano com Michael Douglas no papel principal do estressado. Em suma, o ótimo e original “Relatos Selvagens” é uma tragicomédia. De tão inusitadas, as situações em que se envolvem os personagens se tornam cômicas.

Em um dos curtas, a fúria chega quando um homem em um carro ultrapassa outro que o estava impedindo de trafegar rapidamente, de propósito. Quando consegue ultrapassar, solta um xingamento para o chato, que dirige um carro velho. Eis que o pneu daquele que ultrapassou fura e ele, que estava bem à frente, é obrigado a ficar parado na estrada, em um ponto no meio do nada, esperando por um socorro mecânico que não chega nunca. É claro que o ultrapassado o alcança e começa a tripudiar. A violência contra o carro novinho do homem mais rico é apenas o início de uma luta com vários rounds que se tornará ridiculamente trágica logo, logo.

Outro episódio, este estrelado pelo onipresente e sempre ótimo ator argentino Ricardo Darín, mostra outra dessas situações bem comuns no nosso dia a dia que, num dia em que estamos especialmente cansados, pode nos levar à loucura. Depois da estressante atividade de implodir um prédio, o engenheiro espanhol vivido por Darín (com sotaque bem diferente do argentinês a que estamos acostumados) tem seu carro rebocado, após ter estacionado em frente a uma loja em que fora buscar o bolo da festa de aniversário da filha. Quando chega ao guichê do Detran de lá, descobre que terá que pagar a multa e ainda uma taxa para a retirada do carro. A indignação educada se transforma em ira diante da atitude do funcionário do guichê de ignorar totalmente seus argumentos de que não havia nenhum aviso de proibido estacionar no lugar em que ele parara. A situação vai piorando, piorando até culminar em uma inesperada redenção no fim da história.

O único episódio argentino – os demais se passam na Espanha- é um dos mais realistas. Quando um jovem medroso da classe alta de Buenos Aires atropela e mata uma pessoa, após dirigir embriagado, seus pais, aconselhados pelo advogado da família, resolvem fazer um acordo para incriminar o jardineiro. Só que o acordo esbarra na competência do policial que faz a perícia no carro. O final é matador.

O episódio mais curto se passa todo dentro de um avião. É hilário. A premissa é a de que cada uma das pessoas que se encontram no voo teve uma relação, em algum momento de suas vidas, com um homem que se tornará o pivô dos acontecimentos. Nada mais pode ser dito sem comprometer a surpresa.

Noutro episódio, uma garçonete conta a sua colega ex-presidiária que está tendo que servir o homem que fez mal a alguém de sua família. A colega toma suas dores e resolve agir.

E como não se divertir com o filmete que parte de uma traição descoberta no dia do casamento pela própria noiva? Pode haver raiva mais genuína que a despertada pelo ciúme? E poderia haver uma situação mais catalizadora da ação do que o fato de a descoberta ter sido feita justamente no dia do casamento? A esta conjunção de fatores, se soma ainda uma série de cenas dignas de comédias-pastelão como os velhos filmes de Almodóvar “Kika” ou “De Salto Alto”. A atriz que faz a noiva dá brilho ao personagem e o ator, quase sempre contido, não fica atrás.

 

O fato é que você sai do cinema se sentindo mais leve. Se sentindo vingado das raivas que passa no dia a dia. E o mais perigoso: se sentindo respaldado para cometer suas próprias vinganças. Ter seu próprio dia de fúria.

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