Posts made in janeiro, 2015

Catarse no show do Foo Fighters ou No mundo de Dave Grohl

Olhando pro Dave Grohl gritando os refrões de “Times Like These” ou “Breakout”, ou fazendo graça ao conversar com a plateia do show do Foo Fighters no enorme Maracanã, é difícil imaginar que há 24 anos, quando era baterista do Nirvana, ele era um cara inseguro. Foi o que contou à Rolling Stone deste mês Krist Novoselic, o co-criador da banda que ajudou a reerguer o rock junto com Kurt Cobain, naquele cenário de Seattle que terminou por virar um “movimento”, o Grunge. Dave foi o sexto baterista da banda e se via ouvindo Krist comentar, por vezes, que ele estava por um fio no grupo. À revista, Grohl contou que não era bem assim: depois daquele primeiro momento, ele ainda teve bons momentos com Cobain, antes que este desse um tiro na cabeça, dando fim ao mítico Nirvana em 1992.

Inseguro ou não naquele passado já remoto, o Dave Grohl que sobe a palcos cada vez maiores hoje em dia transborda autoestima, alegria, animação. Sem drogas, movido apenas ao vinho que ele adora. É um nerd declarado, é só olhar pro jeito com que ele dança no palco, segurando sua guitarra, com passinhos de um lado pro outro. “Eu sou nerd mesmo, sou sincero no que faço”, disse na entrevista publicada na edição brasileira da revista, no mês em que faz shows em quatro capitais do País, onde já incendiou plateias outras duas vezes, no Rock in Rio de 2001 e no Lollapaloosa de 2013.

Catarse total
O guitarrista, baterista, cantor, compositor e até cineasta é, não só o criador do grupo que sucedeu o Nirvana com enorme sucesso, mas também seu grande motor. Assistir a um show do Foo Fighters é participar de uma verdadeira catarse coletiva. Coletiva e individual. Foi por isso que, há dois dias, peguei um avião de última hora pro Rio de Janeiro (pagando por causa disso R$ 1500), aterrissando duas horas antes do início do concerto que encheu (mas não lotou) o Maracanã. A turnê é a primeira da banda em solo brasileiro fora de um festival. O show dura duas horas e 45 minutos, surpreendentemente sem bizz.

Senti que precisava desta catarse, depois de um ano de 2014 cheio de tensões na internet por causa das polarizadas eleições em que eu termino me envolvendo mais do que deveria, brigando com amigos próximos inclusive. Minha primeira catarse pós-eleições foi apenas cerebral, assistindo a “Relatos Selvagens” (ver Post Relatos Selvagens…). O filme veio bem a calhar. Mas era necessário cantar bons refrões em alto e bom som, era preciso dançar pulando daquele jeito punk que a gente pula nas festas da faculdade; seria bom, muito bom, gritar um pouco. Aquela coisa do grito primal da qual falam os Tears for Fears na bela “Shout”. Pra quem não sabe, é uma forma de terapia por meio do grito.

Como fiz no Lolla do ano passado, quando pirei quase tão em cima da hora quanto agora, e também paguei uma grana de avião pra não perder Johnny Marr cantando ele e Smiths, que eu nunca tinha visto (ver Johnny Fucking Marr canta Smiths). Como viajei de férias duas vezes, em dezembro e janeiro, uma delas pro próprio Rio, tinha desistido de ver o Foo Fighters. Mas seria a segunda vez seguida em que perderia; tinha ido só ao show do Rock in Rio, há 14 anos que, me lembro bem, também fora cartártico. Quando meu amigo Marcos Pinheiro, do programa Cult 22, companheiro antigo de shows, resolveu também ir de última hora, acendeu a primeira luzinha na minha mente. Aí Vera Magalhães, DJ de ótimas festas brasilienses e veterana viajante pra festivais brasileiros e gringos, como ela gosta de chamar, postou a provável setlist dos show no Brasil. Como ela diz, é um hit atrás do outro. Meu formigamento aumentou. Aí na sexta-feira, a “Ilustrada” da Folha publica uma matéria falando justamente do poder de incendiar hordas de fãs que tem Dave Grohl. Pronto, enquanto seguia de carro pra uma entrevista sobre canabidiol que faria, comecei a olhar passagens. Na volta à redação, comprei o ingresso pela internet com a ajuda do lovely estagiário Pedro. (Odeio comprar qualquer coisa pela internet!) Ainda tinha! Mas só nas cadeiras.

Cartão cancelado
Ainda teve o drama pra comprar as passagens porque o Banco do Brasil cancelou meu cartão na hora em que eu tava no site da TAM. Suspeita de fraude, me avisou meu celular. Brincadeira! Tive que correr para o banco e já eram 16 horas em ponto. A gerente bem que tentou, mas não conseguiu desbloquear o cartão. Tive que comprar com o cartão do meu marido!

No avião, dois dias depois, vi o Maracanã lá de cima. Já havia gente em parte da pista e das arquibancadas. Foi bem emocionante ver de cima o local em que eu estaria dali a uma hora. Durante o show, vi uns quatro aviões passando lá em cima e imaginei o contrário: as pessoas vendo o show lá embaixo. Sortudas!

Peguei um taxi que, vendo minha animação com o concerto, arredondou o valor pra três reais a mais do que marcava o taxímetro. Na pressa, deixei pra lá. Tô escolada com os malandros taxistas cariocas. São um mal necessário que um dia sucumbirão à esperada extensão do metrô. O fato é que eu precisava estar no Belmonte da Praça General Osório, onde fica o metrô mais próximo, em 15 minutos. Aliás, existe Belmonte em Ipanema? Nem sabia… Lá estavam reunidos Vera e amigos de Brasília e Rio pro esquenta. Pedi um Red Label com guaraná e dois pasteis de Brie. Pra aplacar a fome pré-show. Corremos pro metrô. Corremos mesmo, acho que o pessoal se lembrou que a Vera é corredora de maratonas. Com a pressa, nem deu tempo de sentir o clima da chegada ao Maraca, onde eu tinha ido pela última vez a um show uns 20 anos atrás, pra ver a primeira apresentação da Madonna no Brasil, aquela em que ela cantou “Like a Virgin” de uma maneira irreconhecível…

Kaiser Chiefs
Perdemos a primeira música do show de abertura do ótimo “Kaiser Chiefs”. Eu tava animadíssima pra ver esta banda inglesa, da qual tenho um disco bom do começo ao fim, e que parece demais com o Blur. Os caras fizeram de tudo pra ficar à altura da banda de Seatle, inclusive puxando um coro de “Foo Fighters”, o  que eu achei um mico. Só conseguiram empolgar o público em geral nos hits de rádio “Ruby, Ruby” e “Angry Mob”, com um refrão incendiário. Mas eu gostei e muito!

O Maracanã só se levantou mesmo quando, 40 minutos depois do show do Chiefs, subiram ao palco Dave e sua turma. Estávamos longe, muito longe do palco. Pela primeira vez, assisti a um show quase inteiro pelo telão. Não é a mesma coisa, mas valeu. E também é legal ter uma visão geral do espetáculo.

E aí começou a sequência de “besto of”: “The Pretender”, “Learn to Fly” (Emoção pura!!!), “Breakout” (idem!), “Arlandria”, “My Hero” (tô cantando esta até hoje!), “Monkey Wrench”, “Cold Day in the Sun”, “In the Clear”, “I’ll Stick Around”, “Congregation”, “Walk”, “Skin and Bones e Wheels”. Dave Grohl passeava pra lá e prá cá com a guitarra, e levantava os fãs mais próximos quando ía até a passarela montada no meio da Pista Premium. Deve ter sido demais ficar ali.

“How many of you have already been to a Foo Fighters concert?”, perguntou Grohl. “How many are here for the first time?”. “Well, you are not gonna regret having come. We’re gonna sing a lot of songs tonight”, continuou o bandleader, sempre animadíssimo, recebendo grandes feedbacks do público. E não precisa dizer que Dave, com aqueles cabelos pretos pra lá e pra cá, empolga especialmente as meninas, né?

Quando começaram os primeiros acordes de “Times Like These”, uma das minhas preferidas, eu tava em pé de cara pro palco. Depois vieram os covers de luxo, entre eles “Under Pressure”, do Queen e de  David Bowie, que animaram a galera que tava comigo, mas nem tanto a mim. Sou daquelas fãs do Queen que prefere “Save Me” e “Don’t stop me now”, mais melódicas e não tão rítmicas.

Altruísmo
Quando apresentou a banda, a maior parte dela na estrada com o grupo há muitos anos, Grohl fez uma de suas gracinhas. “Todos nós sabemos uma ou outra música inteiras (de outros grupos). Mas há um cara na banda que sabe todas.” E ficou esperando o público se manifestar. Aí apontou pra ele próprio com cara de interrogação. Não, era Taylor Hawkins, o baterista, aliás, tão explosivo quanto o próprio Grohl que, desta vez, pra minha infelicidade, não trocou a guitarra pela velha bateria. O mesmo Hawkins que, depois de todo o drama do suicídio de Curt Cobain, Dave havia acompanhado após uma overdose.  Depois daquilo, a mãe de Grohl chegou a dizer que o altruísmo era a qualidade de que ela mais se orgulhava no filho.

E não houve interrupção pra voltar pro bizz. Dave, o animadíssimo baterista, os dois guitarristas, o baixo e o tecladista emendaram a terceira parte do show com “All My Life”, “These Days”e “Outside. Aí veio outra que eu adoro:  “Best of You”, auge da minha catarse pessoal.  E o show terminou depois de nada menos que “Everlong”, versão original, rápida.

E, claro, dancei punk, cantei, gritei. A missão tava mais que cumprida!

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O Recife sem miséria

Nunca morei em Recife, embora meus pais sejam ambos pernambucanos, mas visito a cidade anualmente desde os 10 meses de idade. Nestes mais de 45 anos, cheguei a me acostumar- infelizmente- com o grande número de meninos e meninas pedindo dinheiro nos sinais da cidade. Uma imagem emblemática é a das crianças e adolescentes pobres dos sinais da Avenida Agamenon Magalhães- a grande via que liga Recife a Olinda- jogando água e sabão nos para-brisas dos carros, sem pedir licença, pra conseguir um trocado na marra. Era chato ver que a situação dessa população não melhorava, e também era chato- não vou negar- ver o vidro do seu carro ficar mais sujo do que era antes e não poder fazer nada. Não poder fazer nada pra que eles não nos impusessem aquele serviço indesejado e não poder fazer nada contra aquela situação social. A não ser, claro, tentar votar bem.

No centro da cidade- mesmo depois da revitalização que deixou o feio e cinzento Recife antigo lindo e colorido- a miséria continuava a dar as caras. Quantos relógios minha avó e minha mãe viram roubados naquele centro, que não é o chamado Recife antigo, é o centro comercial, que tem na Avenida Conde da Boa Vista seu ponto nevrálgico. Meninos de 8, 10 anos, perguntavam alguma coisa e, quando vc estava se preparando pra responder, flapt, eles colocavam a mão sobre o seu antebraço e puxavam o relógio. Uma vez, eu e vovó távamos subindo no ônibus e, vapt, senti um puxão forte no pulso. Pronto, levaram meu Swatch colorido de borracha… Era comum.

Passeio de infância
Eu adorava andar no centro com vovó Otávia, minha avó materna. Íamos sempre de ônibus, saindo de Casa Forte, onde ela morava primeiro, e depois de Olinda, nos últimos 20 anos de sua vida. Era uma delícia andar pelas lojinhas do centro, de roupas, fantasias de carnaval e, principalmente, tecidos, que escolhíamos juntas pra que ela fizesse nossos lindos vestidos em sua velha máquina de costura, que ela sabia usar tão bem! Eram passeios mágicos por aquelas lojinhas simples, mas tão coloridas e variadas. Dali levávamos pra casa também umbus, pitombas ou siriguelas, invariavelmente. Quando minha mãe estava junto, íamos eu, minha irmã Joanna e a amiga de Brasília ou São Paulo que estivesse passando aquelas férias conosco assistir a algum filme no histórico cinema São Luís. Normalmente, o último dos Trapalhões. Mas as sessões de cinema recifenses são outra história, dariam um post à parte.

O fato é que eu nem ligava pro fato de as ruas serem sujas e meio fedorentas e os prédios malconservados. Anos mais tarde, era também ali, especificamente na Rua Sete de Setembro, que íamos à ótima livraria Livro Sete e à fantástica Disco Sete, onde comprei meu primeiro disco do Talking Heads, algo impossível naquela época em Brasília. O centro de Recife had it all, como se diz!

Mas havia uma coisa que eu evitava fazer porque era chocante demais: passar pela Ponte da Boa Vista, uma ponte de 1870 toda feita de ferro produzido na oficina de Eiffel, em Paris, e com duas pequenas vias pra pedestres, era uma tortura. Ali ficavam os mendigos mais mendigos: os “aleijados”; um deles não tinha as pernas. Ele praticamente morava ali e estava sempre pedindo na ponte. Doía a minha alma de criança.

Choque do bem
Pois bem, acabo de voltar de Recife. E desta vez reservei dois fins de semana pra ficar na cidade, visitar os familiares e amigos (os poucos com que tenho contato atualmente) e também passear pelo centro. Fiquei chocada com o que vi. Na ida para a cidade, já percebera que não havia mais um menino pedindo nos sinais da Agamenon. “Como assim?”, pensei. “É, eles não pedem mais aqui, e nem estão na escola nesta época”, dissera minha mãe, que passa quase a metade no ano na casa que temos em Olinda. “Mas nenhum, nenhum?”, perguntei sem acreditar. “Não”, disse ela com ar de contentamento.

Quando chegamos à Conde da Boa Vista percebi logo que o tratamento vip dado à região do Marco Zero, o chamado Recife antigo, não havia nem se aproximado desta parte que também é antiga, pra cá das pontes que cortam o Capibaribe. Os prédios, muitos deles mais recentes, dos anos 50 até os 80, estão cada vez mais velhos, sujos e descuidados. As ruas continuam imundas, mas também fervilhando de adultos e crianças em busca de material escolar barato e também do melhor item de fantasia para o carnaval que, em Olinda e no Marco Zero, já começaram. Comprei peruca vermelha pra mim e máscara do Panico pro meu filho.

Mas e os meninos ladrões? Não vi nenhum; não vi crianças andando sozinhas no centro. Nada parecido com antigamente. Hesitei um pouco, hesitei mais uma vez, antes de resolver tirar a câmera fotográfica da mochila do meu marido (que estava na frente do peito, por conselho meu, claro) pra tirar esta foto. Claro que eu não tinha levado bolsa.

Fomos andando em direção à tal ponte secular. Ela, sim, fora repintada, estava amarela, verde e azul, nova em folha. E não havia nenhum, nenhum mendigo pedindo dinheiro ou deitado no chão da ponte. Pela primeira vez pude olhar com calma pra beleza daquela ponte. Pela primeira vez passei por ali sem pena, sem constrangimento. Pela primeira vez em 40 anos, tirei foto de um lado…

…e do outro do Rio a partir da ponte.

A sensação foi indescritível! Naquele momento, ao constatar in loco que a miséria deixara o Recife, não pude parar de pensar que valeu cada palavra de incentivo e campanha que fiz ao longo da vida para que fosse eleito um governo que se preocupasse com o bem estar dos pobres, com a distribuição de renda. Tenho certeza que não foi só o governo federal o responsável por esta revolução. Há que se dar crédito aos governos de esquerda dos últimos anos em Pernambuco e em Recife e Olinda. Claro que existem favelas e rincões urbanos de pobreza no Grande Recife. Mas o centro é um espelho dos avanços, que têm cara de revolução nesta seara. Eu vi e senti de perto. E ver o meu Recife sem miséria não tem preço!

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Buzios e as Ilhas Gregas

O feeling de Buzios em dezembro e janeiro tem muito a ver com o feeling das ilhas Cyclades, na Grécia, em agosto, setembro. Desde os anos 90 quando conheci, primeiro a Grécia- meu grande sonho de adolescência- depois Buzios- trazida pelos amigos cariocas- as semelhanças entre os dois chiques balneários insistiram em se mostrar. Agora, que voltei a Buzios após 10 anos sem ter vindo, parece que as semelhanças se avolumaram.

Ontem, apareceram gaivotas na tarde de praia em plena Geribá. Pensava que gaivotas fossem aves das praias dos países de clima temperado. Lembro-me bem de tê-las visto quando, aos 16 anos, visitei Cocoa Beach, aquela praia perto do Cabo Canaveral, na Florida, em que é ambientada a série “Jeannie é um Gênio”. Pois aqui em Geribá, duas pararam a uns 7 metros de mim, sem demonstrar medo algum.

A ave das ilhas gregas era o pelicano. Era impressionante ver aquele bicho enorme, com um bico gigante, andando tranquilamente entre os turistas pelas ruelas de Mikonos, perto da praia e dos moinhos de vento. Ele se sentia o rei do pedaço, o próprio morador, de tão à vontade.

De que o mar de Buzios é lindo ninguém ousaria duvidar.

Claro que o verde predomina sobre o azul que, mesmo assim, aparece mais lá no fundo.

No barco que nos leva do continente grego a Ios, a primeira ilha que visitei, dentre as famosas e milenares Cyclades- o azul vai se tornando mais escuro à medida que avançamos para o alto mar. Quando nos aproximamos da ilha, vai saindo o lindíssimo azul cobalto (que eu só havia visto dois anos antes em Fernando de Noronha, em pleno Oceano Atlântico) para o azul piscina translúcido, de um tom que só viria ver de novo em Cancun. Em Cancun apenas, não em Tulum, não em Punta Cana, na República Dominicana, onde o azul se mistura ao verde esmeralda. O azul das Cyclades é o azul absoluto, o azul perfeito.

Então, a cor é diferente, mas a beleza é muito próxima. Afora Fernando de Noronha e provavelmente Angra dos Reis, não há verde-azulado como o de Buzios por este litoral brasileiro. E, sim, eu conheço a belíssima Praia do Espelho, no sul da Bahia, já considerada a quinta mais bonita do Brasil, atrás apenas de 4 do arquipélago pernambucano. É deslumbrante, por outras razões, como a diversidade e os encontros de rio com mar, mas a cor da água é diferente. É, eu tenho mesmo uma mania de comparar a cor do mar, sempre à procura do azul ou, no caso do Brasil, do verde mais transparente. Por isso, o Caribe, aqui tão perto, é, pra mim, um verdadeiro paraíso que apenas comecei a explorar (ver post http://escritosdoocio.com.br/2014/05/mar-turquesa-e-areia-branca-na-primeira-ilha-das-americas/).

Aqui em Buzios, assim como em Ios ou em Mikonos, a proximidade das praias faz tão parte do cotidiano dos visitantes que os taxis marítimos se tornam muito mais importantes que os taxis terrestres. Para se visitar duas, três praias num mesmo dia, aluga-se uma espécie de jangada de fibra de vidro (fabricada em Pernambuco, mas esta é outra história que faz parte da minha infância e que um dia eu vou contar) por R$ 7,50 que te leva das minhas queridas e plácidas Azeda e Azedinha até o centro ou até a bela praia da Tartaruga.

Em Mikonos, por um preço igualmente módico, se vai rapidamente do centro a Paradise e a Superparadise, usando um veículo muito parecido. Em Paradise e Superparadise, praias cheias de idílicos guarda-sóis de palha, se pode fazer topless. Na lindíssima Superparadise, mais gay, o nudismo é a prática mais comum, mas só faz quem quer, sem constrangimentos.

 

E não é que em Buzios, em pleno Rio de Janeiro, Brasil conservador (sim, o Rio é conservador), também há uma praia em que se permite o topless?

Hoje, entre o centro e a Praia dos Ossos, passei por uma linda casa colonial branca, com janelas brancas.

Já no clima das semelhanças, me lembrei das casinhas brancas com cúpulas redondas tão características das ilhas Cyclades. E que tal este montinho de casas?

Alguma semelhança com as tradicionais fachadas da mesma cor da orla de Mikonos?

Civilizações Matriarcais
As Cyclades, para quem não as separa das demais ilhas da Grécia, são as ilhas menores e mais próximas do Continente, onde viviam, 10 mil anos atrás, civilizações matriarcais, cujos símbolos estátuas de mulheres com várias tetas, que simbolizavam a fertilidade, estão espalhadas pelos museus de Atenas e pelos museus de Antropologia do mundo, como aquele importantíssimo da Cidade do México.

Civilizações que vieram antes da Civilização Minoica, por exemplo, do Rei Minos, aquele que serviu de base para a lenda do Minotauro, que data de cerca de 3 mil antes de Cristo. A Minoica tinha Creta por base, a grande ilha onde ficam as ruínas do Palácio de Knossos, nos subterrâneos do qual ficaria o famoso labirinto do Minotauro. Creta, justamente, não é uma das Cyclades.

Claro que, pra uma brasileira, as lojinhas de Ios e Mikonos, e provavelmente as de Santorini também, são muito mais interessantes que as de Buzios. Mas, como em todo balneário de cidade pequena, o artesanato local é bem local mesmo, muito próprio. Adorei os ímãs de geladeira de gesso das Cyclades. Tenho o meu até hoje na minha.

Tanto Buzios quanto Mikonos são ótimos lugares para se jantar ou almoçar. Em Mikonos ou se fica de frente para o mar ou se vai para o centro da cidade, onde a noite ao ar livre é uma delícia!

Em Buzios, vale a pena conferir tanto o Pátio Havana…

… quanto um francezinho já tradicional, que é o melhor da cidade.

E a noite ferve nos balneários! Aliás, em Ios não era só a noite; a praia ficava cheia de europeus desvairados que subiam nas mesas de tão bêbados. Pegamos justamente a semana pós-formatura dos americanos. Eles lotaram a jovem Ios, em que a música tema era “Bye, bye miss American pie, took my chevy to the levy, but the levy was dry”, de Don McClean, antes de Madonna gravá-la. A noite, claro, também fervia e aí o som preferido pelos suecos e irlandeses, maioria nos bares fechados, era U2! Buzios não é tão louca, mas bem que junta o pessoal nos bares da rua das Pedras e na pracinha do fim da rua, com as bandas cover de grupos ingleses. Há uns 15 anos, havia um inspirado no Roger Waters que era engraçadíssimo! Ah, os balneários verdes e azuis!

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Última chance- Paulista radicado em Berlim, Alex Flemming mostra colagens de astronautas e torsos

Há 17 anos, quando cobria cultura pela TV Bandeirantes do Rio, conheci o artista plástico paulistano radicado em Berlim Alex Flemming. Aos 40 e poucos anos, ele estava expondo no 2º andar do CCBB de lá, um espaço nobre, naquele prédio histórico, suas poltronas e sofás cobertos de plástico colorido e cheias de letrinhas e desenhos por cima. Fiquei encantada: afinal, era arte funcional em um espaço totalmente dedicado à chamada High Art, as manifestações artísticas puras, que não são voltadas para o uso do dia a dia, como a arquitetura e a moda. Era arte funcional sim, porque se pode sentar nas obras, mas também era arte pura. E era bonito, dava vontade de ter uma daquelas cadeiras muito loucas em casa.

Entrevistei Flemming, que me deu uma ótima impressão: além de simpático, tinha uma aura de contemporaneidade, aquela coisa do artista plástico que mora há tempos na Europa e convive com todas as vanguardas de lá (e bebe na fonte).

Na época, não fiquei sabendo que Alex morava- e ainda mora- no lado oriental de Berlim. Não imaginei nunca. Pois bem, noutro dia, eu estava tomando sorvete com meu filho na Sorbê, na 405 norte, aqui em Brasília, e, de repente, levei até um pequeno susto ao reconhecer os traços daquele artista que não havia visto mais desde aquela época, 1997, mas que me marcara bastante. Perguntei ao dono da galeria Almeida Prado se era mesmo um trabalho de Flemming. E pra minha surpresa maior ainda, ele me disse que, não só aquela, mas umas 20 obras, eram do artista paulista, e faziam parte de uma exposição que ele estava montando e que seria aberta em uma vernissage às 19 horas do dia seguinte, 6 de novembro. Descrente, embora animada com a exposição em si, perguntei: “Mas ele não estará presente não, né?”. “Sim, estará”, me disse Fábio Almeida Prado, pra meu espanto total. “Então Brasília está entrando de vez na rota das artes plásticas para além das grandes exposições, com a participação das galerias. Que fantástico!”, pensei.

Louis Armstrong
No dia seguinte, no mesmo batlocal, cheguei à abertura pra reencontrar Alex e ver com mais atenção suas novas obras. Eram (são, porque ainda estão lá) colagens de revistas, jornais e outras fotografias sobrepostas por desenhos feitos pelo artista, letrinhas coloridas ou objetos pessoais do artista. O tema principal é a aviação e as viagens espaciais. Me encantei muito pela foto em primeiro plano de Louis Armstrong, em que ele está muito parecido com Sting quando jovem. Esta que aparece à direita de Alex (acompanhado por uma convidada), na foto abaixo. Quase a levei pra estampar uma de minhas paredes. Teria se não tivesse adquirido há muito pouco tempo um quadro caro de um pintor brasileiro . As fotos a seguir são de Lula Lopes.

“Te entrevistei em 97 no CCBB do Rio, na época das poltronas”, disse a Alex, depois que ele terminou de conversar com um diplomata (foto abaixo, com o diplomata, o dono da galeria, Fabio Almeida Prado; e o curador da mostra, Claudio Pereira) interessado em uma de suas obras. “Que bom, nossa faz tempo!”, ele respondeu, sempre muito simpático e disponível. Concordou em me dar uma pequena entrevista quando tudo estivesse mais calmo. Me contou, então, que seu trabalho mudou muito nestes 17 anos. “Claro, está sempre mudando, evoluindo”, me disse. “Mas não perde a essência, as raízes”.

Uma dos pontos marcantes no trabalho de Flemming é seu caráter pessoal. Pessoal mesmo: todas as obras têm como assinatura um carimbo com seu nome, além da rubrica. Uma das fotos de torsos masculinos que aparecem em profusão na Exposição da Almeida Prado tem seu cartão de crédito pessoal em cima. Como se ele pudesse comprar aquele torso, talvez? Em “Colagem sobre sacola de compras”, de 2013, a rubrica está bem no abdome sarado do modelo.

“Sim, uso mesmo esta autoreferência na minha obras. Muitos artistas usam”, me disse Alex, que se disse encantado com Brasília há muitos anos. “Se eu voltasse para o Brasil, pensaria em morar aqui. Aqui ou em São Paulo. Brasília é muito arborizada”, elogiou.

Noutra obra, uma foto de um lutador de luta livre mexicana, o carimbo de Alex é estampado seis vezes em torno da cabeça do modelo. E, ao lado, está o recibo de uma encomenda com seu nome. Além de seu cartão de visita, que é, em si, uma pequena obra com carimbo, data e email. Tudo isso na mesma colagem.

Anatomia
Outra referência de Alex é a própria arte. Se os torsos nus têm um caráter claramente erótico, outra parte da mostra deixa claro, que são também uma ligação com a importância do estudo da anatomia na história da arte. Desenhos dos aparelhos como o circulatório e o excretor lembram que os renascentistas como Michelangelo e Da Vinci buscaram a perfeição dos corpos estudando corpos de defuntos. Como na obra abaixo, que foi vendida no dia da abertura da exposição.

Bichos empalhados
O curador da exposição, Claudio Pereira, conta que Alex teve sua origem ligada ao cinema, sendo autor de vários curtas em Super-8. Em sua primeira exposição em 1978, Flemming apresentou uma série de nove fotogravuras de conteúdo violento e dramático, com figuras amputadas  e torturadas. Depois, apresentou a série “Alturas”, em que utilizava animais empalhados e os primeiros móveis pintados. Foi ali que começou a incluir letras e textos diversos de notícias de jornais, assinaturas e poemas, dentre os quais de Haroldo de Campos e Torquato Neto. Para Pereira, Alex Flemming “atua como um oráculo, contribuindo para escrever a história das artes visuais no mundo contemporâneo”.

A abertura foi um sucesso, não só porque algumas obras foram vendidas no ato, mas também por ter atraído além de pessoas do mundo das artes plásticas da cidade, personalidades interessadas em arte contemporânea.

Esta é a última chance de ver de perto “Alex Flemming, colagens e desenhos”. A exposição fica em cartaz até o dia 15 de janeiro, quinta-feira da semana que vem.

Serviço- Exposição “Alex Flemming, colagens e desenhos”

Galeria Almeida Prado- CLN 405, bloco C, loja 45

Telefone: (61) 8145-1545

www.galeriaalmeidaprado.com

E-mail- galeriaalmeidaprado@gmail.com

 

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Tiradas de um menino de 4 anos

As constatações de um menino de dois anos e, depois, as conclusões de um garoto de três anos, estão entre os posts mais lidos daqui do blog. Como as pessoas gostam mesmo de conhecer o pensamento desses meninos espertos do mundo de hoje, posto aqui, neste início de ano, as tiradas de João, aos quatro anos. Ele já está com seis, mas, mesmo não tendo postado antes as falas dele aos quatro, guardei-as a sete chaves em meu caderninho de anotações. E agora, aqui estão elas.

“Sabia que eles deram pássaros e a gente pintou? Eram do Athos Bulcão”. 15-05-2012, mostrando os conhecimentos adquiridos sobre nosso artista de Brasília.

“O que é política?” “Há os governantes que representam a gente, o povo”, começa a responder a mãe. “Mas o povo é só este que tem isso aqui”, aponta João para os tentáculos de um polvo. “Este é o polvo. Nós somos o povo”, diz a mãe. “O povo é a gente”, conclui o menino.

“E quando a gente compra alguma coisa, o nosso coração faz assim (faz o barulho do coração batendo rápido)”. Em 19-05-2012, depois de os pais explicarem que quando dormimos o cérebro e o coração não param e provando que a novidade (no caso, o novo objeto comprado) causa sempre comoção no ser humano.

“Qual é esse carro? Qual é esse carro velho?”, olhando para um Uno Mille pela primeira vez (abaixo, se divertindo entre as colunas contemporâneas em frente ao Palais Royal, em Paris).

“E se a gente tentar pegar uma nuvem?” “Se a gente estiver lá no alto, a gente consegue”, responde a mãe. “A nuvem escapa”. Em 23-05-12. (Abaixo, conhecendo as obras do L”Orangerie, em Paris)

“Minha surpresa pra você é a febre”, brincando com o pai quando estava realmente com febre. 22-06-12.

“Essa é a cidade que o lobo mau soprou toda. Só que o Superman conseguiu levantar todos os prédios”. Em 17-07-12, aos 4 anos e dois meses.

“Se você derrubar (a torre de petróleo), o petróleo vai sair e os carros não vão ter mais gasolina”, referindo-se à torre de lego que ele construiu. Em 19-07-12

“O pliossauro é carnívoro porque ele come peixe”. 02-10-12

“E a noite chega, a moto se arrasta. Tudo desaparecerá. E a lua se pondo, não fica nada”, narrando uma história inventada por ele, na pele de um dinossauro. Em 5-10-12.

“É o rabo de peixe. Esse carro tem várias rodas, você não conhece. Esse carro existia na época de 69”. Em 26-10-12.

“Qual o seu nome, florzinhas?” “Meu nome é Torre Eiffel” “E o meu nome é Giverny”, conversando com as flores de plástico poucos dias depois de voltar da viagem a Paris (f0t0 abaixo, no Jardin de Tulleries, com a torre atrás) , que incluiu um dia nos jardins de Giverny (foto seguinte), onde ficava a casa de Claude Monet. Em 28-10-12

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Filho, mamãe tá falando com você, responde”, diz a mãe. “Eu tô brincando. Eu tô ocupado, minha mãe”. Em 13-11-12

“Eles quase deram uma batida. Sabe o quê que é quase? Eles não deram uma batida. Quase”, se referindo a dois aviões dele que quase se chocaram. Em 13-11-12.

“A gente tava falando a e a gente interrompeu a conversa”, inaugurando o uso da palavra “interrompeu”. Em 21-11-12

“Olha o meu diário, está escrito minotauro. A gente tem que contar em quadrinhos também a minha história, que ela é muito grande”, combinando a edição de seu livro, se inspirando nos Diários de Pilar, uma série de livros infantis de uma autora brasileira em que uma menina viaja pelo mundo.

“Olha quem tá aqui: a Pilar na Grécia. E o Hércules tá matando aquele leão. Tem aquela montanha e o cavalo alado. Tem também, eu você e o meu pai. Tem também o Giraldo e o Superman. Olha aqui aquela que tem um monte de cobras na cabeça. Quando você olha pra ela, a gente vira pedra. Ei, olha a Hidra. É outro monstro. Acabou a história”. Recontando as lendas gregas que aparecem em um dos livros da Pilar. Em 22-11-12

“Tá escrito aqui no final: ‘em quadrinhos’. A Pilar deu pra mim”.

“Sabe por que a espada gira assim? Porque ela é poderosa igual ao Sol, a Marte, à Terra e a Plutão, o planeta mais pequeno, que, na verdade, não é um planeta.” 3-12-12, aos 4 anos e 7 meses (abaixo, na Esfera de La Villete e, em seguida, pensando nos jardins do Palais Royal, Paris).

“Eu até não consigo fazer meu trabalho com essa tosse”, distribuindo sorvetes de bolas coloridas, na pele do sorveteiro, um de seus personagens. Em 5-12-12

“É de chuchu, assim verde?”, pergunta a mãe sobre um dos sorvetes. “Não, é de mamanga, uma fruta que eu inventei”. Idem

“Mas não pode arranhar o olho porque a gente sabe que ele é sensível”, alertando seu cachorro Tubarão. Em 17-01-13

“E se a gente falar na língua do cachorro?”. Idem

“A água também pode dizer: ‘obrigada pela comida, João’. Porque eu entreguei os germes para a água”. Saindo do banho, em 6-02-13

“É chato tirar sangue. Não podia ter nenhuma agulhinha no mundo”. Em 12-03-13

“Não, os dinossauros não viraram petróleo porque o paleontólogo foi lá e pegou os ossos dele e montou o esqueleto”. Em 21-02-13, discutindo a origem do petróleo.

“Eu sei, é abstrato!”, sobre uma “obra” dele, depois da mãe perguntar o que era. Em 31-03-13 (abaixo, desenhando no Café de Flore, Paris)

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