Catarse no show do Foo Fighters ou No mundo de Dave Grohl

Catarse no show do Foo Fighters ou No mundo de Dave Grohl

Olhando pro Dave Grohl gritando os refrões de “Times Like These” ou “Breakout”, ou fazendo graça ao conversar com a plateia do show do Foo Fighters no enorme Maracanã, é difícil imaginar que há 24 anos, quando era baterista do Nirvana, ele era um cara inseguro. Foi o que contou à Rolling Stone deste mês Krist Novoselic, o co-criador da banda que ajudou a reerguer o rock junto com Kurt Cobain, naquele cenário de Seattle que terminou por virar um “movimento”, o Grunge. Dave foi o sexto baterista da banda e se via ouvindo Krist comentar, por vezes, que ele estava por um fio no grupo. À revista, Grohl contou que não era bem assim: depois daquele primeiro momento, ele ainda teve bons momentos com Cobain, antes que este desse um tiro na cabeça, dando fim ao mítico Nirvana em 1992.

Inseguro ou não naquele passado já remoto, o Dave Grohl que sobe a palcos cada vez maiores hoje em dia transborda autoestima, alegria, animação. Sem drogas, movido apenas ao vinho que ele adora. É um nerd declarado, é só olhar pro jeito com que ele dança no palco, segurando sua guitarra, com passinhos de um lado pro outro. “Eu sou nerd mesmo, sou sincero no que faço”, disse na entrevista publicada na edição brasileira da revista, no mês em que faz shows em quatro capitais do País, onde já incendiou plateias outras duas vezes, no Rock in Rio de 2001 e no Lollapaloosa de 2013.

Catarse total
O guitarrista, baterista, cantor, compositor e até cineasta é, não só o criador do grupo que sucedeu o Nirvana com enorme sucesso, mas também seu grande motor. Assistir a um show do Foo Fighters é participar de uma verdadeira catarse coletiva. Coletiva e individual. Foi por isso que, há dois dias, peguei um avião de última hora pro Rio de Janeiro (pagando por causa disso R$ 1500), aterrissando duas horas antes do início do concerto que encheu (mas não lotou) o Maracanã. A turnê é a primeira da banda em solo brasileiro fora de um festival. O show dura duas horas e 45 minutos, surpreendentemente sem bizz.

Senti que precisava desta catarse, depois de um ano de 2014 cheio de tensões na internet por causa das polarizadas eleições em que eu termino me envolvendo mais do que deveria, brigando com amigos próximos inclusive. Minha primeira catarse pós-eleições foi apenas cerebral, assistindo a “Relatos Selvagens” (ver Post Relatos Selvagens…). O filme veio bem a calhar. Mas era necessário cantar bons refrões em alto e bom som, era preciso dançar pulando daquele jeito punk que a gente pula nas festas da faculdade; seria bom, muito bom, gritar um pouco. Aquela coisa do grito primal da qual falam os Tears for Fears na bela “Shout”. Pra quem não sabe, é uma forma de terapia por meio do grito.

Como fiz no Lolla do ano passado, quando pirei quase tão em cima da hora quanto agora, e também paguei uma grana de avião pra não perder Johnny Marr cantando ele e Smiths, que eu nunca tinha visto (ver Johnny Fucking Marr canta Smiths). Como viajei de férias duas vezes, em dezembro e janeiro, uma delas pro próprio Rio, tinha desistido de ver o Foo Fighters. Mas seria a segunda vez seguida em que perderia; tinha ido só ao show do Rock in Rio, há 14 anos que, me lembro bem, também fora cartártico. Quando meu amigo Marcos Pinheiro, do programa Cult 22, companheiro antigo de shows, resolveu também ir de última hora, acendeu a primeira luzinha na minha mente. Aí Vera Magalhães, DJ de ótimas festas brasilienses e veterana viajante pra festivais brasileiros e gringos, como ela gosta de chamar, postou a provável setlist dos show no Brasil. Como ela diz, é um hit atrás do outro. Meu formigamento aumentou. Aí na sexta-feira, a “Ilustrada” da Folha publica uma matéria falando justamente do poder de incendiar hordas de fãs que tem Dave Grohl. Pronto, enquanto seguia de carro pra uma entrevista sobre canabidiol que faria, comecei a olhar passagens. Na volta à redação, comprei o ingresso pela internet com a ajuda do lovely estagiário Pedro. (Odeio comprar qualquer coisa pela internet!) Ainda tinha! Mas só nas cadeiras.

Cartão cancelado
Ainda teve o drama pra comprar as passagens porque o Banco do Brasil cancelou meu cartão na hora em que eu tava no site da TAM. Suspeita de fraude, me avisou meu celular. Brincadeira! Tive que correr para o banco e já eram 16 horas em ponto. A gerente bem que tentou, mas não conseguiu desbloquear o cartão. Tive que comprar com o cartão do meu marido!

No avião, dois dias depois, vi o Maracanã lá de cima. Já havia gente em parte da pista e das arquibancadas. Foi bem emocionante ver de cima o local em que eu estaria dali a uma hora. Durante o show, vi uns quatro aviões passando lá em cima e imaginei o contrário: as pessoas vendo o show lá embaixo. Sortudas!

Peguei um taxi que, vendo minha animação com o concerto, arredondou o valor pra três reais a mais do que marcava o taxímetro. Na pressa, deixei pra lá. Tô escolada com os malandros taxistas cariocas. São um mal necessário que um dia sucumbirão à esperada extensão do metrô. O fato é que eu precisava estar no Belmonte da Praça General Osório, onde fica o metrô mais próximo, em 15 minutos. Aliás, existe Belmonte em Ipanema? Nem sabia… Lá estavam reunidos Vera e amigos de Brasília e Rio pro esquenta. Pedi um Red Label com guaraná e dois pasteis de Brie. Pra aplacar a fome pré-show. Corremos pro metrô. Corremos mesmo, acho que o pessoal se lembrou que a Vera é corredora de maratonas. Com a pressa, nem deu tempo de sentir o clima da chegada ao Maraca, onde eu tinha ido pela última vez a um show uns 20 anos atrás, pra ver a primeira apresentação da Madonna no Brasil, aquela em que ela cantou “Like a Virgin” de uma maneira irreconhecível…

Kaiser Chiefs
Perdemos a primeira música do show de abertura do ótimo “Kaiser Chiefs”. Eu tava animadíssima pra ver esta banda inglesa, da qual tenho um disco bom do começo ao fim, e que parece demais com o Blur. Os caras fizeram de tudo pra ficar à altura da banda de Seatle, inclusive puxando um coro de “Foo Fighters”, o  que eu achei um mico. Só conseguiram empolgar o público em geral nos hits de rádio “Ruby, Ruby” e “Angry Mob”, com um refrão incendiário. Mas eu gostei e muito!

O Maracanã só se levantou mesmo quando, 40 minutos depois do show do Chiefs, subiram ao palco Dave e sua turma. Estávamos longe, muito longe do palco. Pela primeira vez, assisti a um show quase inteiro pelo telão. Não é a mesma coisa, mas valeu. E também é legal ter uma visão geral do espetáculo.

E aí começou a sequência de “besto of”: “The Pretender”, “Learn to Fly” (Emoção pura!!!), “Breakout” (idem!), “Arlandria”, “My Hero” (tô cantando esta até hoje!), “Monkey Wrench”, “Cold Day in the Sun”, “In the Clear”, “I’ll Stick Around”, “Congregation”, “Walk”, “Skin and Bones e Wheels”. Dave Grohl passeava pra lá e prá cá com a guitarra, e levantava os fãs mais próximos quando ía até a passarela montada no meio da Pista Premium. Deve ter sido demais ficar ali.

“How many of you have already been to a Foo Fighters concert?”, perguntou Grohl. “How many are here for the first time?”. “Well, you are not gonna regret having come. We’re gonna sing a lot of songs tonight”, continuou o bandleader, sempre animadíssimo, recebendo grandes feedbacks do público. E não precisa dizer que Dave, com aqueles cabelos pretos pra lá e pra cá, empolga especialmente as meninas, né?

Quando começaram os primeiros acordes de “Times Like These”, uma das minhas preferidas, eu tava em pé de cara pro palco. Depois vieram os covers de luxo, entre eles “Under Pressure”, do Queen e de  David Bowie, que animaram a galera que tava comigo, mas nem tanto a mim. Sou daquelas fãs do Queen que prefere “Save Me” e “Don’t stop me now”, mais melódicas e não tão rítmicas.

Altruísmo
Quando apresentou a banda, a maior parte dela na estrada com o grupo há muitos anos, Grohl fez uma de suas gracinhas. “Todos nós sabemos uma ou outra música inteiras (de outros grupos). Mas há um cara na banda que sabe todas.” E ficou esperando o público se manifestar. Aí apontou pra ele próprio com cara de interrogação. Não, era Taylor Hawkins, o baterista, aliás, tão explosivo quanto o próprio Grohl que, desta vez, pra minha infelicidade, não trocou a guitarra pela velha bateria. O mesmo Hawkins que, depois de todo o drama do suicídio de Curt Cobain, Dave havia acompanhado após uma overdose.  Depois daquilo, a mãe de Grohl chegou a dizer que o altruísmo era a qualidade de que ela mais se orgulhava no filho.

E não houve interrupção pra voltar pro bizz. Dave, o animadíssimo baterista, os dois guitarristas, o baixo e o tecladista emendaram a terceira parte do show com “All My Life”, “These Days”e “Outside. Aí veio outra que eu adoro:  “Best of You”, auge da minha catarse pessoal.  E o show terminou depois de nada menos que “Everlong”, versão original, rápida.

E, claro, dancei punk, cantei, gritei. A missão tava mais que cumprida!

Compartilhe:
  • Print
  • Digg
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Google Bookmarks
  • LinkedIn
  • Live
  • MySpace
  • RSS
  • Twitter

Deixe um comentário