Última chance- Paulista radicado em Berlim, Alex Flemming mostra colagens de astronautas e torsos

Última chance- Paulista radicado em Berlim, Alex Flemming mostra colagens de astronautas e torsos

Há 17 anos, quando cobria cultura pela TV Bandeirantes do Rio, conheci o artista plástico paulistano radicado em Berlim Alex Flemming. Aos 40 e poucos anos, ele estava expondo no 2º andar do CCBB de lá, um espaço nobre, naquele prédio histórico, suas poltronas e sofás cobertos de plástico colorido e cheias de letrinhas e desenhos por cima. Fiquei encantada: afinal, era arte funcional em um espaço totalmente dedicado à chamada High Art, as manifestações artísticas puras, que não são voltadas para o uso do dia a dia, como a arquitetura e a moda. Era arte funcional sim, porque se pode sentar nas obras, mas também era arte pura. E era bonito, dava vontade de ter uma daquelas cadeiras muito loucas em casa.

Entrevistei Flemming, que me deu uma ótima impressão: além de simpático, tinha uma aura de contemporaneidade, aquela coisa do artista plástico que mora há tempos na Europa e convive com todas as vanguardas de lá (e bebe na fonte).

Na época, não fiquei sabendo que Alex morava- e ainda mora- no lado oriental de Berlim. Não imaginei nunca. Pois bem, noutro dia, eu estava tomando sorvete com meu filho na Sorbê, na 405 norte, aqui em Brasília, e, de repente, levei até um pequeno susto ao reconhecer os traços daquele artista que não havia visto mais desde aquela época, 1997, mas que me marcara bastante. Perguntei ao dono da galeria Almeida Prado se era mesmo um trabalho de Flemming. E pra minha surpresa maior ainda, ele me disse que, não só aquela, mas umas 20 obras, eram do artista paulista, e faziam parte de uma exposição que ele estava montando e que seria aberta em uma vernissage às 19 horas do dia seguinte, 6 de novembro. Descrente, embora animada com a exposição em si, perguntei: “Mas ele não estará presente não, né?”. “Sim, estará”, me disse Fábio Almeida Prado, pra meu espanto total. “Então Brasília está entrando de vez na rota das artes plásticas para além das grandes exposições, com a participação das galerias. Que fantástico!”, pensei.

Louis Armstrong
No dia seguinte, no mesmo batlocal, cheguei à abertura pra reencontrar Alex e ver com mais atenção suas novas obras. Eram (são, porque ainda estão lá) colagens de revistas, jornais e outras fotografias sobrepostas por desenhos feitos pelo artista, letrinhas coloridas ou objetos pessoais do artista. O tema principal é a aviação e as viagens espaciais. Me encantei muito pela foto em primeiro plano de Louis Armstrong, em que ele está muito parecido com Sting quando jovem. Esta que aparece à direita de Alex (acompanhado por uma convidada), na foto abaixo. Quase a levei pra estampar uma de minhas paredes. Teria se não tivesse adquirido há muito pouco tempo um quadro caro de um pintor brasileiro . As fotos a seguir são de Lula Lopes.

“Te entrevistei em 97 no CCBB do Rio, na época das poltronas”, disse a Alex, depois que ele terminou de conversar com um diplomata (foto abaixo, com o diplomata, o dono da galeria, Fabio Almeida Prado; e o curador da mostra, Claudio Pereira) interessado em uma de suas obras. “Que bom, nossa faz tempo!”, ele respondeu, sempre muito simpático e disponível. Concordou em me dar uma pequena entrevista quando tudo estivesse mais calmo. Me contou, então, que seu trabalho mudou muito nestes 17 anos. “Claro, está sempre mudando, evoluindo”, me disse. “Mas não perde a essência, as raízes”.

Uma dos pontos marcantes no trabalho de Flemming é seu caráter pessoal. Pessoal mesmo: todas as obras têm como assinatura um carimbo com seu nome, além da rubrica. Uma das fotos de torsos masculinos que aparecem em profusão na Exposição da Almeida Prado tem seu cartão de crédito pessoal em cima. Como se ele pudesse comprar aquele torso, talvez? Em “Colagem sobre sacola de compras”, de 2013, a rubrica está bem no abdome sarado do modelo.

“Sim, uso mesmo esta autoreferência na minha obras. Muitos artistas usam”, me disse Alex, que se disse encantado com Brasília há muitos anos. “Se eu voltasse para o Brasil, pensaria em morar aqui. Aqui ou em São Paulo. Brasília é muito arborizada”, elogiou.

Noutra obra, uma foto de um lutador de luta livre mexicana, o carimbo de Alex é estampado seis vezes em torno da cabeça do modelo. E, ao lado, está o recibo de uma encomenda com seu nome. Além de seu cartão de visita, que é, em si, uma pequena obra com carimbo, data e email. Tudo isso na mesma colagem.

Anatomia
Outra referência de Alex é a própria arte. Se os torsos nus têm um caráter claramente erótico, outra parte da mostra deixa claro, que são também uma ligação com a importância do estudo da anatomia na história da arte. Desenhos dos aparelhos como o circulatório e o excretor lembram que os renascentistas como Michelangelo e Da Vinci buscaram a perfeição dos corpos estudando corpos de defuntos. Como na obra abaixo, que foi vendida no dia da abertura da exposição.

Bichos empalhados
O curador da exposição, Claudio Pereira, conta que Alex teve sua origem ligada ao cinema, sendo autor de vários curtas em Super-8. Em sua primeira exposição em 1978, Flemming apresentou uma série de nove fotogravuras de conteúdo violento e dramático, com figuras amputadas  e torturadas. Depois, apresentou a série “Alturas”, em que utilizava animais empalhados e os primeiros móveis pintados. Foi ali que começou a incluir letras e textos diversos de notícias de jornais, assinaturas e poemas, dentre os quais de Haroldo de Campos e Torquato Neto. Para Pereira, Alex Flemming “atua como um oráculo, contribuindo para escrever a história das artes visuais no mundo contemporâneo”.

A abertura foi um sucesso, não só porque algumas obras foram vendidas no ato, mas também por ter atraído além de pessoas do mundo das artes plásticas da cidade, personalidades interessadas em arte contemporânea.

Esta é a última chance de ver de perto “Alex Flemming, colagens e desenhos”. A exposição fica em cartaz até o dia 15 de janeiro, quinta-feira da semana que vem.

Serviço- Exposição “Alex Flemming, colagens e desenhos”

Galeria Almeida Prado- CLN 405, bloco C, loja 45

Telefone: (61) 8145-1545

www.galeriaalmeidaprado.com

E-mail- galeriaalmeidaprado@gmail.com

 

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