A Brasília real está na moda

A Brasília real está na moda

Faz uns dois anos que a Brasília real começou a entrar na moda. Tudo começou com os dois filmes baseados na vida e na obra de Renato Russo, que entraram em cartaz em 2012: “Somos tão jovens”, uma ficção baseada na juventude do cantor/letrista/compositor; e “Faroeste Caboclo”, inspirado na canção de mesmo nome e dirigido pelo cineasta da capital René Sampaio. O Brasil todo assistiu e pôde se encantar com lindas imagens da incomum Universidade de Brasília; das nossas arborizadas superquadras; das largas avenidas com nome de letra; das fachadas dos blocos, como são chamados os prédios residenciais da capital; das mansões modernistas do Lago Sul, o bairro da elite brasiliense; das cidades satélites e dos demais arredores do Plano Piloto, como o local onde aconteceu a famosa Roconha, que aparece nos dois longas-metragens. Agora, está em cartaz “Cássia”, sobre Cassia Eller, documentário do diretor Paulo Fontenelle, que conheço do Canal Brasil. Nada de Congresso Nacional, nada de Palácio do Planalto, nada de Supremo Tribunal Federal nestes três filmes.

Diretor de obras com bela fotografia como “Cidade de Deus”, o paulista Fernando Meirelles, é arquiteto de formação. A trama da minissérie “Felizes para sempre?”, em exibição até o fim desta semana pela TV Globo,  fora escrita originalmente por Euclydes Marinho para se passar em Niteroi (RJ). Com certeza, Meirelles foi determinante na mudança da ambientação da série para a moderna capital forjada por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer.

A fotografia da série é de cinema. Não é à toa que o personagem principal vivido pelo ótimo ator e diretor teatral Enrique Diaz (Claudio Drummond) rema de manhã no Lago Paranoá. As imagens do nosso Lago são majestosas! Não é à toa que a personagem de Adriana Esteves, a cirurgiã plástica Tânia, participa do atropelamento de uma mulher no Eixo Monumental; as imagens noturnas da larga via também são belas, não é à toa que outra personagem mora nas 700, a linda zona de casas de classe média da cidade, que, aliás, me abrigou e a minha família, quando aqui chegamos em nos anos 70. E, claro, Meirelles e o diretor de fotografia aproveitam cada detalhe arquitetônico da nossa capital modernista: os anfiteatros da UnB, com sua característica bem específica de descer do térreo ao subsolo do chamado Minhocão; a linda mansão do casal principal da trama, com suas linhas retas e sua cor cinza; os pilotis de mármore preto e branco dos blocos…

; e, finalmente, os tão característicos cobogós.

Os cobogós (veja o do meu prédio na foto abaixo) são tão valorizados pelos diretores que uma das personagens entra e sai de seu apartamento na Asa Sul pela entrada de serviço, só pra que eles apareçam a cada vez.

Dá até vontade de usar mais o corredor de serviço lá do meu prédio, que também tem cobogó de fora a fora!

Arquitetura supervalorizada
A ode à beleza arquitetônica de Brasília gera, é claro, situações na trama inusitadas por sua inverossimilhança. Como quando a cirurgiã Tânia, desesperada ao ver que sua sociedade com um médico bã bã bã não irá pra frente, fica vagando em frente à Catedral à noite (veja a real, de dia, na foto abaixo). Qualquer brasiliense sabe que ninguém fica de bobeira entre os nossos cartões postais, muito menos à noite (veja a catedral de dia, em foto tirada hoje).

O escritório do engenheiro Claudio é muito maior do que o de qualquer grande empresário de Brasília, é padrão São Paulo.

Mas há muita verossimilhança também. O apartamento de Tânia e seu marido, vivido pelo ótimo ator de cinema João Miguel, é fiel à arquitetura modernista dos primeiros blocos do Plano Piloto, alguns deles projetados pelo próprio Niemeyer. Os diretores tiveram o cuidado de deixar as janelas sem cortinas pra mostrar as grandes janelas e também as árvores das quadras. Compare com este apartamento da vida real, também na Asa Sul.

Bons personagens e diálogos
Brasília parece estar viva na tela porque os personagens, também, poderiam ser reais. Estão ali a professora da UnB, o policial federal, a cirurgiã plástica antiética, o cara alternativo que mora na roça (a cara de Brasília!!!), a prostituta de luxo (ela tinha que escolher o hotel em que passei minha noite de núpcias?)…

Claro que há também o empreiteiro corrupto que até poderia ser clichê, mas de tão bem interpretado por Enrique Dias, e de tão bons que são os diálogos, se torna prá lá de verossímel. Moro em Brasília desde 1977, com alguns anos de interrupção, e conheço pelo menos um de cada um destes personagens. A única dissonância é a personagem vivida por Maria Fernanda Cândido: apesar de serem comuns as mulheres desprezadas pelos maridos ocupados e infiéis, a profissão de restauradora de obras de arte é mais rara na capital. Mas ela não foi escolhida à tôa: servirá a uma causa importante na trama.

Os atores, diga-se de passagem, foram treinados pela coach Fátima Toledo, uma das preparadoras de atores mais capacitadas do Brasil. Tive a chance de entrevista-la uma vez, quando trabalhava no Telecine, e ela estava treinando a menina índia que interpretou Tainá no primeiro filme, nos anos 90. A menina estava hospedada na casa de Fátima.

A Globo, pelo jeito, finalmente, e não sem grande atraso, percebeu que o telespectador tem a curiosidade de ver como é a vida em outras paragens que não o eixo Rio- São Paulo ou, vá lá, as praias virgens do Nordeste. E tenho certeza, porque é óbvio, que o público prefere sempre ver o novo.  E de preferência, longe de clichês como o de que todo brasiliense vive em torno da política.

Então, o escritório da série é mais luxuoso que na vida real, a Chapada dos Veadeiros tem lugares mais inusitados pra nadar (aqui ninguém reconheceu aquele spot com lugar pra nadar no meio do lindo Vale da Lua)

, os brasilienses gostam mais de arte contemporânea que na capital real… Enfim, a Brasília de “Felizes para Sempre?” consegue ser ainda mais bonita que a de verdade na trama de Fernando Meirelles. E o que poderia ser melhor? Nós, brasilienses adoramos nos ver na tela. Quem venham os filmes “Eduardo e Mônica”, de novo de René Sampaio, e “3X4″,o primeiro longa metragem de Adriana Vasconcelos, de “Fragmentos”, sobre três gerações de mulheres de uma família da periferia de Brasília.

 

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7 Comentários

  1. Concordo com vc, Mari!!! Nossa cidade ficou realmente linda na minissérie!!!Bjs

  2. Só de ler seu post me deu uma vontade imensa de voltar a Brasília para uma visita! Quantas memórias boas da UnB, da vida em meio ao verde das entrequadras. De espaço. Beijos, Mariana!

  3. Muito bom Mari!!!

  4. Boas observações! Estou curtindo a minissérie também! abs.

  5. wanderer dorothy |

    adorei : ) vou passar adiante

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