Posts made in março, 2015

A Excursão

por Zé Antonio Sales (Engenheiro sanitarista, tio de Mariana Monteiro)

Finalmente consegui convencer meu pai a aceitar minha participação na excursão de trem que iria de Garanhuns (PE) para Maceió. Participariam os alunos do último ano do curso ginasial dos três maiores colégios de Garanhuns: o Diocesano, colégio católico masculino, onde eu estudava, dirigido por um padre da diocese local, conhecido por ajudar os alunos mais necessitados – vários estudantes pobres estudavam de graça –, mas também, por seus métodos autoritários e intransigentes; o Santa Sofia, colégio feminino, dirigido por freiras católicas de uma ordem belga; e o 15 de Novembro, único colégio misto, dirigido por uma ordem presbiteriana dos Estados Unidos, com métodos mais avançados e modernos para a época. Todos tinham internato e externato, porém, a excursão seria para os alunos externos, uma vez que seria nas férias do final do ano.

Quanto mais se aproximava o dia das férias, mais os participantes da excursão ficavam excitados, sobretudo os alunos do Diocesano, que era quase uma escola correcional. Dirigido pela mão de ferro do tão temido Padre, como era conhecido o seu diretor (chegava a bater em alunos), o colégio não oferecia muitas alternativas para a prática de esportes e recreações. A possibilidade de férias em companhia das garotas do Santa Sofia e Quinze, nos deixava bastante ansiosos pela chegada do grande dia.

Me lembro quando cheguei na estação com meu pai e como meu coração disparou quando avistei os primeiros colegas já se instalando no trem. Me lembro também das recomendações do meu pai: eu deveria ir no segundo vagão, segundo ele, o mais seguro; em hipótese nenhuma passar de um vagão para outro com o trem em movimento, os casos de acidentes eram inúmeros; cuidado para não perder o dinheiro; mais cuidado ainda quando estivesse na praia, em Maceió, nunca nadar para o fundo; e mais uns tantos cuidados completamente impossíveis para um adolescente hiperativo. Tantas recomendações para serem totalmente esquecidas na primeira curva do trem. Assim que tive certeza de não estar mais sendo observado, a primeira coisa que fiz foi sugerir ao meu colega ao lado, o Bonifácio, para irmos para o ultimo vagão, pois lá é que ficavam o restaurante e o bar. Sugestão aceita, atravessamos todos os vagões, obviamente, com o trem em movimento, pois não poderia ser de outra forma, o trem só pararia em Maceió.

O carro do restaurante e do bar estava praticamente vazio, sentamos em uma mesa e ficamos conversando enquanto tomávamos umas cervejinhas. O tempo passou rápido sem que notássemos. Já estávamos em Alagoas quando resolvemos voltar para nossos lugares. O trem seguia por entre o canavial de uma usina de açúcar que se estendia a perder de vista, com seus pendões prateados se movimentando ao sabor do vento, seguindo as ondulações montanhosas do terreno, como um imenso mar verde.

De cara com a terra
Paramos na plataforma entre o último e o penúltimo vagão, observando a paisagem. Como as conexões entre os carros do trem eram abertas, resolvemos descer até o primeiro degrau de acesso ao vagão e ficamos, eu de um lado e ele do outro, dependurados com o corpo para fora sentindo o vento forte em nossos corpos. “O trem está correndo demais” – falei para meu amigo – “vou ver se este troço aqui é mesmo o freio” – e, com total aprovação do meu companheiro, comecei a girar uma roda presa a um varão de ferro que ia até embaixo do trem.

Subitamente, senti uma freada brusca que me jogou contra a divisória do vagão, ao mesmo tempo em que garrafas e copos lançados do restaurante, pela súbita desaceleração do trem, se espatifavam na divisória, chegando a me molhar e causar um pequeno corte em meu braço, que só viria a perceber mais tarde.

Pânico e Morte
Era um barulho infernal de ferro contra ferro. O vagão se inclinou para o lado em que eu estava dependurado e, me lembro, vi a terra se aproximar do meu rosto. Segurei firme nas alças de apoio e, para o meu alívio, de repente, tudo parou. Por alguns segundos, senti apenas um silencio assustador. Em seguida, vi pessoas correndo em pânico, sem direção, subindo o morro através do canavial, se afastando de qualquer maneira do local do acidente. Pulei do degrau onde eu estava e logo em seguida vi o corpo de um homem seminu e decapitado. Tempos depois, soube que um colega na correria pelo canavial, tinha tropeçado na cabeça.

Meio confuso, apavorado, sem entender direito a dimensão do que estava acontecendo, corri como as outras pessoas pelo canavial acima. Mais ou menos na metade da subida, talvez pelo cansaço, fomos parando todos e, de lá, tivemos a visão geral do que tinha acontecido. O primeiro vagão, o da máquina, descarrilou e estava virado fora dos trilhos juntamente com o primeiro vagão de passageiros. O segundo vagão, onde eu deveria estar, rolou por sobre duas barreiras, uma em cada lado da linha, fazendo uma espécie de ponte que dava para se passar andando por baixo. Foi aí onde morreram mais pessoas. Todos os demais carros da composição estavam ou descarrilados e virados, ou apenas inclinado, como o que eu estava no momento do acidente. O cenário visto lá de cima era horrível e assustador. Existe um ditado popular que diz: é mais feio que um trem virado; só quem já viu sabe como é horroroso.

Depois de compreendermos o que tinha acontecido, fomos voltando para o local do acidente; algumas pessoas preferiram ficar lá em cima com medo de voltar. Aos poucos fomos nos encontrando e conversando sobre o ocorrido. Nessas horas todos somos amigos e solidários. Eu e alguns colegas entramos em alguns vagões para ajudar as pessoas que estavam presas pelas cadeiras arrancadas e bagagens que se misturavam, geralmente pessoas mais velhas. Muita gente chorando, gritando e gemendo.

Assisti a um velhinho suplicando por ajuda com a voz cada vez mais fraca até morrer e não pude fazer nada. Um colega, não sei como, ficou com a perna presa debaixo de um dos vagões, que se inclinava para o seu lado, dando a impressão de que a qualquer momento poderia virar por cima dele e gritava feito um louco. Pessoas tentavam levantar o vagão apenas por desencargo de consciência. Soube depois que o rapaz conseguiu sair sem perder a perna. Mais tarde, a coordenadora de nossa escola me chamou e, por eu ser filho de médico, me pediu para aplicar uma injeção em uma garota do Santa Sofia que estava muito mal. Não tive como negar, apliquei minha primeira e última injeção. No meio da confusão, achei minha mala. Estávamos perto da sede da Usina Serra Branca, acho que era o nome. Andei com um colega para tentar passar um rádio de lá para Garanhuns ou Maceió, dando a notícias do acidente e pedindo socorro, mas o aparelho estava com defeito e não conseguimos.

Mais tarde fomos todos acomodados na casa grande da Usina, onde, atenciosamente, fomos servidos com suco e sanduíche. Só aí encontrei meu amigo Bonifácio, que tinha pulado para o outro lado do trem. Os feridos foram levados para a enfermaria da usina. As coisas estavam mais calmas, quando vi meu pai chegar. Olhou para mim, passou a mão na minha cabeça, perguntou se tudo estava bem comigo e seguiu com sua maleta de médico para a enfermaria, onde foi tratar dos feridos. Ficou lá um bom tempo. Quando voltou, apenas eu estava esperando, todos já tinham ido embora em ônibus contratados. Voltamos para Garanhuns, meu pai e o motorista na frente e eu atrás, em silêncio. Fomos pelo mesmo caminho alternativo em que ele veio, por dentro do canavial. Meu pai percebeu que eu não queria conversar e foi sensível o suficiente para não fazer uma pergunta sequer. Quando chegamos em casa, todos estavam me esperando. Minha mãe me abraçou chorando com muitos beijos. Depois eu soube que a notícia que chegou para ela era que eu estava entre os mortos. A maldade das pessoas não tem tamanho. Ao todo, morreram dez pessoas, sendo duas da nossa excursão, um rapaz do colégio Quinze e uma garota do Santa Sofia, a mesma que eu apliquei a injeção.

Culpa
Por mais que insistissem nunca falei sobre esse acidente, nem para as pessoas da minha casa nem para ninguém. Com o tempo, as pessoas pararam de fazer perguntas e o assunto acidente foi sendo esquecido. Menos por mim. Essa foi uma das grandes culpas que carreguei por muito tempo. Me sentir culpado, não era novidade para mim. Hoje eu sei que sempre tive Distúrbio do Déficit de Atenção com Hiperatividade, DDA-H e um pouco de dislexia, troco letras e números quando leio ou escrevo. Crianças desse tipo têm um nível de atividade acima do normal e, frequentemente, agem por impulsividade. Têm dificuldades de se concentrar em salas de aula, são contestadoras e, consequentemente, têm dificuldades de aprendizagem pelos métodos normais. Vivem no mundo da lua, porém são bastante criativas e inteligentes. Agora está tudo muito claro para mim, mas quando criança e adolescente era taxado de baderneiro, preguiçoso para os estudos, irresponsável, levado da breca e outros adjetivos de teor equivalente. Esse era um dos motivos para eu estar sempre assumindo culpas, às vezes, mesmo quando não as tinha.

O fato é que eu, talvez pelo hábito, me senti totalmente culpado pelo acidente com o trem. Não era o fato de ter desobedecido e saído do meu lugar para ir tomar uma cervejinha no último vagão. Se eu fosse cumprir tudo que meu pai determinava, terminaria sendo padre! Inclusive, o fato de estar no último vagão, talvez tenha salvado minha vida. O problema era que eu achava que, de fato, eu tinha mesmo virado o trem. Sabe aquela coincidência de causa e efeito? Você aperta o interruptor para acender uma luz e ao mesmo tempo explode uma bomba em outro lugar, dando a impressão de que o ato de imprimir o interruptor é que foi a causa do estrondo. No caso, aquela geringonça que eu estava girando, no exato momento em que aconteceu o acidente, eu achava que era mesmo o freio (nuca procurei saber com certeza).

Contudo, se aquilo era, de fato, o freio, deveria estar travado, ou desligado, ou de alguma forma impossibilitado de frear. Se não fosse assim, qualquer pessoa, não somente eu, teria o poder de parar o trem, ou de causar um acidente. Nesse caso, a culpa seria da companhia ferroviária por total falta de segurança com seus trens e, consequentemente, com os passageiros. Mesmo assim, ainda que aquele suposto freio funcionasse, seu efeito se daria primeiro no último vagão, onde eu estava e seria gradativo, jamais descarrilaria a máquina e os vagões da frente. Em outras palavras, o efeito se sentiria de traz para frente e não da frente para traz, como aconteceu.

Essas deduções lógicas eu sequer me permitia fazer. Me sentia culpado pela morte de dez pessoas, uns tantos feridos e outros prejuízos mais e pronto. Isso, sem falar na morte da garota que eu apliquei a injeção. Quanto ao amigo Bonifácio, sempre que conversávamos, esse assunto nunca era mencionando, embora eu achasse que ele também sentia lá sua culpa pelo fatídico desastre. Depois, perdemos o contato, fui estudar em Recife e morei por muito tempo fora do estado e do país.

Há poucos anos, no entanto, precisei tirar uns documentos em um cartório no centro do Recife e, para minha surpresa, lá estava o Bonifácio, com a cabeça baixa trabalhando em uma das mesas. Sem que ele percebesse, me aproximei e perguntei firme: foi você quem virou o trem? Sua reação imediata foi de sobressalto e um olhar assustado em minha direção. Tinha culpa sim!

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