A franja enganadora de Donald Trump

A franja enganadora de Donald Trump

“O senhor disse que a pré-candidata tal era muito feia e que por isso ninguém votaria nela. Confirme ou não se disse isso”, desafia o mediador do debate entre os mais de dez pré-candidatos do Partido Republicano ao governo dos Estados Unidos, se dirigindo ao bilionário Donald Trump. “Ela é muito linda”, responde Trump depois de uma olhada de uns 10 segundos para o rosto da bela concorrente. Num outro momento do debate, Trump, que é o mais bem colocado nas pesquisas entre os pré-candidatos do partido liberal, responde a uma crítica sobre seu cabelo dizendo que, na verdade, é careca. Trump e Jeb Bush, outro concorrente e irmão do ex-presidente George, se tratam pelo primeiro nome, mesmo quando jogam farpas um contra o outro. E assim segue o debate presidencial mais engraçado a que já assisti na vida. Me faz pensar que os embates entre candidatos aqui do Brasil bem que poderiam seguir este modelo livre, leve e solto. Seriam um programa muito mais interessante!

Nem sabia que haveria um debate ontem entre pré-candidatos até chegar na residência da Embaixadora dos Estados Unidos no Brasil, Liliana Ayalde. Fui parar lá para acompanhar meu marido a uma recepção para ex-participantes de um programa de visitas aos Estados Unidos destinado a mostrar realidades específicas do País. Como correspondente de uma rádio de São Paulo em Brasília, meu marido foi escolhido para integrar um grupo que visitou Washington, Michigan e Florida durante o pleito que elegeu George Bush para seu segundo mandato em 2004. Nos jardins da casa da simpática embaixadora, além do programa em si, o assunto era o debate.

“Quem você acha que vai ganhar as eleições?”, perguntei a um diplomata americano que se mudou para o Brasil há apenas dois meses. “Não posso dizer. Temos que apoiar qualquer um que ganhe”, respondeu o diplomata, sem negar a profissão. O nova-iorquino se aproximara de mim e meu marido perguntando a Mauro, num português ainda macarrônico, como fora sua participação no Programa. Cada convidado para a recepção ganhava na entrada um adesivo com o nome e o ano em que participou. A plaquinha, colada sem cerimônia nos ternos e vestidos exigidos pelo cerimonial, é comum em reuniões de americanos, me esclareceu meu marido. É a forma que eles encontram de se socializar neste tipo de encontro meio de trabalho, meio de lazer.

Quebrando o gelo
Outro diplomata, este do Texas, também se aproximara de nós uma hora antes, puxando conversa, assim, do nada. Olhou a plaquinha e foi se apresentando. Achei tudo aquilo hilário, mas disfarcei, em nome da diplomacia, claro. Então, pra se socializar, eles lançam mão de placas?

Me lembrei das festas a que ía em Nova Iorque, onde morei por um curto período em 1996. Elas são chamadas de “parties”, palavra que a gente traduz livremente como “festas”, mas que, na verdade, significa partes. Ou seja, encontro das partes. E é isso que elas são mesmo, encontros. A gente chega, a música tá tocando, a comida tá rolando, mas… ninguém dança. Fica todo mundo em pé, ouvindo a música, mas sem se mexer, só conversando. Nos shows, é a mesma coisa. Fica todo mundo em pé, mas sem dançar. Um show do Oasis a que fui numa praia chamada John’s Beach foi o mais chato a que fui em toda a minha vida. Ah, os choques culturais… Isso porque somos todos americanos, todos do Novo Mundo. Imagine como devem ser estes choques pra quem vai morar na Europa.

Outra coisa curiosa na “party” de ontem foi o fato de o diplomata texano ter falado por quase meia hora sobre o tempo em que morou no Chile. Falou sobre o trânsito em Santiago, as influências da cultura alemã sobre os chilenos, até Allende… Pra quando eu chegasse em casa, ter aquela notícia de que o terremoto de 8 graus na escala Hichter atingiu o país. Já dizia Jung e depois Sting que não existem coincidências, na tal Teoria da Sincronicidade, da qual passei a ser seguidora. E as notícias das mortes no Chile vinham me chegando em Breaking News a cada dez minutos de intervalos no debate dos republicanos. Ah, sim, o debate. Além de tornar meu fim de noite bastante divertido, o debate me deixou uma preocupação: Donald Trump é bem mais inteligente do que aquela franja loura dele nos faz acreditar. Um perigo na atual situação de baixa popularidade do governo do democrata Barack Obama.

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