As qualidades da novela do canal do Bispo

As qualidades da novela do canal do Bispo

“As pessoas estão deixando de ver a TV Globo por causa da politização do noticiário”. “Novelas da Globo perdem audiência para novela bíblica”. “Os Dez Mandamentos passam A Regra do Jogo em audiência pela primeira vez”.  As manchetes sobre a queda de audiência da Globo e o aumento dos ratings da Record têm sido muitas nos últimos dias. O episódio de “Os Dez Mandamentos” do dia 17 de setembro conseguiu ultrapassar a audiência de “A Regra do Jogo” e marcou algo inédito na TV brasileira: pela primeira vez uma novela da Record supera a novela da Globo no Ibope. A audiência da novela bíblica foi de 20,9 pontos de média entre 21h40 e 21h53, período onde a novela da Globo foi de 19,7 pontos. A média do horário também deu vantagens para a Record, conseguiu 20 pontos, audiência superior ao registrado pelos programas “Jornal Nacional” e a “A Regra do Jogo” que são exibidos durante o horário de “Os Dez Mandamentos”.

Algumas das análises são mais corretas, mas outras demonstram um claro preconceito com as novelas que não são produzidas pela TV Globo, ou por pura falta de costume ou pelo fato de a novela ser religiosa. Este preconceito é mais do que esperado, mais do que normal. Eu mesma o tinha. “Assistir a novela do canal do Bispo (Edir Macedo)? Aquele que há uns 20 anos foi notícia em toda a imprensa por estar roubando seus fieis da Igreja Universal? Nem pensar”, poderia ter dito eu mesma.

Até que um dia, entediada com a chatice do Jornal Nacional, já sabendo que iria encarar as maldades sem fim das duas (!!) vilãs vividas pelas ótimas Adriana Esteves e Gloria Pires , e- muito importante- influenciada pela minha empregada-, resolvi assistir a um capítulo de “Os Dez Mandamentos”. Confesso que fui totalmente surpreendida: os atores eram velhos conhecidos da própria Globo (Denise del Vecchio, Sérgio Marone, Juliana Didone, Paulo Figueiredo) e da Manchete (Paulo Gorgulho, ótimo como o pai de Moisés); ou caras pra mim novas como a do próprio Moisés, interpretado pelo belo Guilherme Winter, um bom ator. Os cenários são bem feitinhos e, as cenas do Rio Nilo e do Deserto do Saara parecem bem realistas. Soube depois que foram filmadas no Deserto do Atacama, no Chile.

Bons diálogos
A maioria dos diálogos é muito bem escrita, a não ser por algumas modernizações de vocabulário que não caem bem em personagens milenares como os da trama. Há diálogos religiosos que chegam a ser filosóficos. O que mais me chateia é que, sendo uma novela feita por um canal evangélico, Os Dez Mandamentos mostra o Egito e sua rica religião politeísta sob aquele manto de intolerância que a considera pagã. Um ranço antigo que poderia ter sido expurgado, filtrado por uma visão mais moderna. Mas também aí seria pedir demais.

Mesmo assim, os autores, capitaneados por Vivian de Oliveira, conseguiram ser informativos ao tratar dos deuses egípcios. Os personagens da realeza de Ramsés aparecem adorando suas deidades que representam a água, o sol, enfim, elementos da natureza. Na fase das Pragas do Egito mandadas pelo Deus hebreu, a adoração dos egípcios pelos animais fica bem clara. Nos próximos capítulos, o Faraó, que é também o Orus Vivo na Terra, vai sofrer com a perda do seu cavalo e de diversos animais considerados sagrados.

Made in Hollywood
Ah, os efeitos especiais, sobre os quais já li críticas em alguns jornais, são muito bons para os padrões da TV brasileira. Os sapos saindo do Nilo me deram um nojo danado, as moscas vindo como um enxame também pareciam verdadeiras, o sangue que tomou as águas do rio estava bem espalhado (principalmente na cena da rainha tomando banho), o cajado virando cobra foi perfeito…

 

E famosa cena da abertura do Mar Vermelho foi gravada em Hollywood, com efeitos especiais importados da mais importante indústria do cinema do mundo!

Isso sem falar dos figurinos e do resto da caracterização dos personagens. Teve até atriz que optou por raspar a cabeça, como faziam as egípcias da época para evitar piolhos, para dar mais veracidade a seus personagens.

Pois bem: de dois meses pra cá não consegui mais parar de assistir a “Os Dez Mandamentos”. Claro que eu tenho minhas razões bem pessoais: filha de pai ateu e mãe agnóstica, não fiz catecismo, nem fui a missas durante a minha infância. Então, desenvolvi uma curiosidade pelas histórias da Bíblia. Tenho, sim, certeza que a maldade sem fim das últimas novelas da Globo me fizeram querer ver algo um pouco menos venenoso. Afinal, novelas servem pra relaxar no fim do dia, desopilar, deixar de lado as maldades a que quem trabalha no Congresso Nacional como eu já é obrigada a ver todos os dias.

Nunca pensei que defenderia uma novela do canal do Bispo. Mas termino esse texto na torcida para que possam ir diminuindo as manchetes que atribuem o aumento dos índices de audiência da Record somente à baixa qualidade das novelas da Globo e do Jornal Nacional. Sim, a Globo tá pior mesmo. Mas há que se assistir ao que é produzido no outro canal para, deixando de lado o preconceito, aprender também a valorizar o que melhorou.

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3 Comentários

  1. Sim, melhorou e muito. A novela é muito boa e ótimos atores. Adoro qdo Deus conversa com Moisés. Acho o Marone fraco mas dá pro gasto. A Camila está otima. Adoro as maquiagens tbm. Enfim, otima historia. Assistir a Globo tá brabo, só maldade. E concordo com vc: novela é pra relaxar. Maldade demais. A vida real já está bem dura de aguentar. Queremos coisas mais leves.
    Quero ver a última praga como será. Curioso pra ver se o filho do Faraó morrerá mesmo. Não li a Biblia, então pra mim é tudo novo. Sei apenas algumas coisas.
    Bjs

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