4o BIFF: Filmes excelentes sobre as mazelas do mundo

4o BIFF: Filmes excelentes sobre as mazelas do mundo

Paris atacada como nunca antes na História da França; desastre ambiental sem precedentes no Rio Doce, em Minas Gerais, já comparado a Fukoshima por seu alto teor de rejeitos químicos (quantidade que caberia em 20 mil piscinas olímpicas!); protestos em todo o Brasil contra um projeto que acaba com um direito já garantido de as mulheres fazerem aborto quando são… estupradas, tudo em nome da religião; a terceira Guerra Mundial declarada pelo EI e respondida à altura por François Hollande… Quem diria, a terceira grande guerra não é a nuclear, é a retomada das Cruzadas, que acabaram no final da Idade Média, lá pelo século XIV. Só que as cruzadas se dão agora em nível mundial: Oriente contra Ocidente, Alá contra Jesus Cristo, tudo acompanhado pela mídia tradicional e pelo Facebook. Até mesmo a comoção se dá online. Cruzadas da Era Digital.

Enquanto isso, aqui do lado de casa, o lindo Cine Brasília e também o Cine Cultura Liberty Mall apresentavam no 4o BIFF, o Brasília International Film Festival (ou Festival Internacional de Cinema de Brasília), mais mazelas do mundo moderno em 14 produções inéditas, divididas entre ficções e documentários da Mostra Competitiva. Pela primeira vez foi o público quem decidiu quais seriam os grandes vencedores, dando votos de 1 a 10 em uma cédula na saída do cinema.

Um filme melhor que o outro neste festival que teve mais de 200 longa-metragens inscritos, mas selecionou só a nata. Uma mostra pequena, mas de altíssimo nível, que trouxe realizadores para Brasília, como Arpan Bhukhanwala, produtor de “O Silêncio”, de Mumbai, um dos fortes candidatos a levar o prêmio de melhor ficção, elogiado por 9 entre 10 mulheres que saíam das salas dos dois cinemas. “O Silêncio” conta a história de uma adolescente indiana do interior criada pelo pai e cuja mãe morrera em seu parto. Ela carrega esta culpa pela morte da mãe e se vê numa situação a princípio enriquecedora quando fica menstruada pela primeira vez e o pai, sem saber como lidar com aquilo, a envia para a casa do cunhado e da mulher dele. Encantada com os tios, a pequena Chini é vítima daquele que é chamado o crime silencioso: o abuso sexual dentro de casa. A tia- ela própria vítima da violência física e psíquica do marido que a acusa de ser infértil- opta pelo silêncio, tão comum em sociedades religiosas. Não, não estou falando só da Índia, a subnotificação dos crimes sexuais é enorme no Brasil. Ela é geral, mas ainda maior em países onde impera a vergonha causada pelo machismo. Chini cresce assim e, no futuro reencontrará a tia em outra situação. Achei o final do filme catártico para as mulheres. E conversei lá no Liberty Mall sobre isso e outros detalhes da produção com o produtor do filme, que eles tentarão lançar no Brasil.

 

Três perguntas para Arpan Bhukhanwala:

Escritos do Ócio- O senhor sabe que o Brasil está em um momento de revival do feminismo, neste momento (sexta-feira passada) as mulheres estão tomando as ruas para protestar contra um projeto de lei que proíbe abortos para mulheres que foram estupradas. Considera “O Silêncio” um filme feminista?

Arpan Bhukhanwala- Não tenho certeza. Feminismo é um mau nome, mas eu diria que sim. É muito orientado para as mulheres. O filme é sobre a violência contra as mulheres, que são tomadas como objetos. Nos Estados Unidos, por exemplo, as mulheres bebem em bares e são abusadas, é um problema muito comum. É universal.

EO- Aqui no Brasil, há muito abuso e também exploração sexual contra crianças e adolescentes e mulheres. Mas o problema é a subnotificação, o medo de se expor ao denunciar o crime às autoridades.

AB- Nos Estados Unidos de 9 a 10 % das mulheres sofrem violência sexual; na Índia são 23%, é muito alto. Mesmo assim, não muitas pessoas denunciam. Por causa da vergonha também, mas por uma característica social: por exemplo, se a mulher é casada e violentada, o ato não é considerado um estupro. O filme é uma ficção, mas é muito baseado em coisas que ocorreram de verdade. O ator que interpretou o pai da menina é muito conhecido na Índia. Durante as filmagens, ele não conseguia dormir, ele estava sentindo o que estava interpretando.

(Atenção para o spoiler) EO- Eu senti que “O Silêncio” como um filme catártico para as mulheres, aquele final…

AB- É bom que você o tenha considerado catártico! Mas uma moça indo à polícia dizer o que aconteceu é mais importante do que a outra matando o homem.

EO- Como o filme foi recebido na Índia?

AB- Ele ainda não foi lançado na Índia. Estamos na fase dos festivais (“O Silêncio” competiu em festivais como o de Praga, o do Sttutgard, na Alemanha e três na Índia). Esperamos poder lançá-lo no Brasil também.

EO- Como é fazer cinema fora desta que é uma das maiores indústrias cinematográficas do mundo, Bollywood (maior ainda que Hollywood, em número de filmes produzidos)?

AB- 1500 filmes são feitos por ano na Índia. 700 são de Bollywood, então quase a metade é feita fora da indústria. O cinema fora de Bollywood recebe subsídios do governo. Temos 26 línguas originais. Nosso filme foi filmado em marathi, uma língua em que o público é mais aberto a experimentações.

EO- Menos religioso?

AB- Sim, menos religioso e mais aberto mesmo para coisas novas.

Alemão vencedor
“O Silêncio” perdeu para o alemão “Labirinto de Mentiras”, sobre um jovem procurador que, em 1958, na Alemanha, está determinado a revelar todas as atrocidades cometidas por seus compatriotas durante a 2a Guerra Mundial. Olha a Guerra aí, da qual falamos lá no início do texto! Não vi este ainda, mas ele passa hoje de novo no Cine Brasília, às 17 horas, por ter sido o grande vencedor na categoria ficção. “É um filme sobre crimes de guerra, imaginei que poderia ganhar”, me disse resignado meu entrevistado indiano, ontem, na cerimônia de encerramento. O diretor de “Labirinto…”, Giulio Ricciarelli, subiu ao palco e agradeceu ao público pelo prêmio em português.

 

Documentários: Brasil venceu
Assisti a um excelente filme no meio da semana que achei que tinha munição pra ganhar o BIFF de melhor documentário. É o italiano “Um guia para famílias curiosas”. Uma família de classe média deixa a zona de conforto e vai se aventurar, com cerca de 600 Euros no bolso, por seis meses, em uma série de acampamentos alternativos, onde a vida é comunitária e até a escola é substituída pela educação “familiar”. Nos acampamentos, mãe, pai e filha pequena encontram gente como eles, como a senhora que diz: “Estávamos cansados de Veneza”!! Outra, de origem oriental, afirma que já esteve em diversas comunidades e responde que não tem para onde voltar. “Mas eu tenho para quem voltar”, esclarece. Tal qual nas comunidades hippies dos anos 60/70, quem tem dinheiro contribui com todo mundo, quem não tem contribui “com o seu talento”.

A menininha da família de protagonistas adora a nova vida, mas tem a liberdade de falar com os amigos da cidade pelo Skype. Mas a orientação geral é aprender a desaprender. Desapegar. Enquanto a família viaja pelo interior da Itália, sendo recebida por 35 “famílias” alternativas, seu apartamento na cidade é alugado por outras 70 famílias. Dei 9 pra este filme. O ponto que tirei foi por achar seu ritmo frenético demais. Desnecessariamente frenético.

Demolição à moda modernista
Como carioca e jornalista cultural no Rio durante seis anos, nunca entendi por que demoliram o Palácio Monroe, a antiga sede do Senado Federal na então capital da República, que ficava bem ali na Cinelândia, no coração da Guanabara. “Crônica de uma Demolição”, portanto, caiu como uma luva pra mim. Assisti ao filme dirigido pelo também produtor Eduardo Ades, ontem à tarde. À noite, ele ganhou o prêmio de melhor documentário!

Numa mostra com produções de alto nível, Ades tem o que comemorar. Mas o prêmio foi muito merecido. A quantidade de footage, material de arquivo, conseguida por ele, entre documentários antigos e fotografias me impressionou. O filme consegue mostrar o momento exato em que o Palácio é demolido, em que as marretadas são dadas, com planos de detalhe!

E o mais importante: responde de maneira surpreendente, pelo menos para leigos, à pergunta que os visitantes mais atentos fazem sempre. O Palácio Monroe, pérola da arquitetura eclética para alguns e uma construção ultrapassada e fora de um estilo definido para outros, foi demolido, em última instância, por isso mesmo. Ou pelo menos sob este argumento. Foram os militares, mais precisamente o presidente e general Ernesto Geisel que resolveram demoli-lo. A razão alegada era que a construção do metrô poderia mexer nos alicerces do prédio, àquela altura abandonado pela transferência do Senado aqui para Brasília. Mas o que é mais incrível: foi Lúcio Costa, sim o nosso urbanista, quem deu o parecer que embasou a decisão de Geisel. Para o modernista, e para grandes arquitetos das linhas retas como o francês Le Corbusier, o Palácio era desprezível do ponto de vista arquitetônico, além de ultrapassado.

E estão no filme todos os argumentos de um lado e de outro, detalhados ponto a ponto. Imagens lindíssimas da Avenida Rio Branco, desde ainda Avenida Central, tão lindas que dão dor no coração por mostrarem um Rio que não existe mais e poderia rivalizar com uma… Paris. Também estão ali, logo no início, imagens belíssimas dos prédios modernistas, aqueles que quem é brasiliense conhece muito bem, mas que, no Rio, eram os arranha-céus da época, a modernidade que tinha força para substituir os “velhos” prédios neoclássicos. Não que eu seja fã do neoclássico, muitas vezes um pastiche da arquitetura absolutamente inovadora de Grécia e Roma. Mas quando bem feita, ela tem o seu lugar.

Por estas e outras razões, “Crônica de uma Demolição” é um filme pra ser visto por quem gosta de história, de política, de urbanismo e de arquitetura. Passa hoje às 17 horas no Cine Brasília, daqui a pouco. E ainda não tem data pra estrear.

Oscar
O festival não foi feito só de novidades, mas também de clássicos das cinematografias cubana e argentina. “Cuba, Cinema e Revolução” falou bem aos ouvidos e olhos de quem está ligado na polarização política do Brasil pós-eleições de 2010, ou seja, muita gente. Pude assistir ao contemplatório “Memórias do Subdesenvolvimento”, de Tomas Gutierrez Alea, o mesmo de “Morango e Chocolate”, que também estava na mostra pra alegria dos mais jovens. Memórias é um filme intimista que se passa justamente depois da Revolução. Muito curioso.

Mas minha grande emoção foi ter podido ver os filmes do argentino que é uma lenda do cinema Latino-Americano, Luís Puenzo. Assisti a “Gringo Velho” na sexta e fiquei encantada. Um faroeste passado no México da Revolução que começou em 1810. Pra ficar melhor ainda tinha como atores que viviam os protagonistas Jane Fonda e Gregory Peck… Jimmy Smitts, no auge da beleza latina, fazia o revolucionário com tintas de vingador e completava o quase triângulo amoroso. Que filme!

No encerramento, poder assistir ao clássico “A História Oficial” na telona, com a presença de Puenzo, foi um presente. O filme sempre me perseguiu, desde que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1985. Eu nunca o assistira. Era sobre ditadura, meu pai foi preso político. Ganhara o primeiro prêmio da Academia conquistado por uma produção Latino-Americana. Fato que só foi repetido há pouco tempo com outro argentino, o maravilhoso “O Segredo de seus Olhos”.

“A História Oficial” é especial porque consta História, mas partindo de personagens: desaparecidos e o destino que tinham seus filhos na ditadura. Uma faca no estômago. Até hoje.

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