Posts made in dezembro, 2015

Morrissey no Brasil- show catártico e manifesto político

“Vocês sabem que vocês têm mais poder do que vocês imaginam. Então, usem-no!”. Stephen Patrick Morrissey, o ex-frontman dos Smiths tinha uma mensagem específica para os moradores da capital do Brasil, em sua primeira visita a Brasília, no último domingo (29/11). Esta foi uma das poucas vezes no show do Net Live que o letrista- um dos maiores do pop rock anos 80, quiçá da história do rock- dirigiu a palavra ao público, sem estar cantando. A mensagem aos habitantes da capital do poder veio logo após “World Peace is None of Your Business”, a música título do último CD de Morrissey, bastante irregular, diga-se de passagem. Nada mais atual, nada mais em conjunção com a resistência à Terceira Guerra Mundial que se instalou de vez depois dos atentados de Paris.

O show lindo, que começou com “Suedehead”, a canção do primeiro disco solo de Moz, “Viva Hate”, que muitos fãs dos Smiths ainda confundem, achando que era da banda, continuou político. Teve “The Queen is Dead” e imagens da rainha-mãe Elizabeth I dando o dedo pro público (ou para os súditos?). Pra delírio da plateia ávida por ouvir os clássicos da banda dos anos oitenta que, apesar de só ter durado cinco anos, figura até hoje entre as grandes bandas de um rock pós-movimento punk inglês. Um rock feito a partir das letras ácidas e românticas ao extremo de Morrissey, inspirado em seus herois do Romantismo inglês capitaneados por Oscar Wilde, mas que incluíam Keats eYeats (Keats and Yates are on your side, while Wilde is on mine, diz uma letra famosa), e de seu companheiro Johnny Marr, muito mais que um bom guitarrista, o grande compositor das lindíssimas melodias dos Smiths. Banda que foi fruto também do que tinham a dizer os filhos da classe operária de Manchester (os pais vieram da Irlanda) que, muito mais do que gostar do Manchester City para o qual torcia a maioria dos meninos do seu meio, gostavam mesmo era de poesia (no caso de Morrissey) e do rock americano do New York Dolls e depois dos Ramones e cia, ou seja, do punk de Nova Iorque- no caso de todos os integrantes.

O início em Manchester
Além de Marr e Morrissey, o melhor amigo e colega de turma do guitarrista na rígida escola católica em que estudavam, Andy Rourke, completava o grupo junto com o baterista controverso. Mais que tocar, Mike Joyce gostava era de bater com força com suas baquetas. Morrissey não apreciava lá muito isso, mas pelo menos a atitude do jovem Joyce era punk, pensava. Aliás, como esmiúça o experiente Tony Fletcher na ótima biografia do grupo, “The Smiths, a Light that Never Goes Out”, Morrissey muitas vezes ignorava seja Joyce, seja Rourke. A difícil convivência com os colegas daquele que, apesar de entrar depois, logo se tornou o líder do grupo, aliada aos graves problemas de drogas de Rourke- viciado em heroína- foram o principal fator a levar ao fim precoce da banda, em 1987.

De costas pra Morrissey
Voltando ao show e ao espírito militante de nosso herói (ou pelo menos meu), o ápice da apresentação, em termos de política e violência, foi “Meat is Murder”. “For me, for you, for the environment, meat is shit!”, começou o letrista.

Tive que repetir o que o público paulistano havia feito dias antes, ao me deparar com imagens de bois sendo mortos em abatedouros e outras afins. Nem posso descrevê-las. Me virei de costas. Minha amiga vegetariana chorou. E passou o resto do show chorando. Show? Não, show de Morrissey não é só espetáculo para divertir, é, sim, o que uma obra de arte deve ser: algo que faça pensar.

Política à parte, foi um show para os fãs deste cantor tão expressivo e de tanta presença- não faltaram os trejeitos que sempre marcaram suas apresentações e que tanto influenciaram gente como Renato Russo. Não faltaram as rosas jogadas ao palco a la Roberto Carlos, que sempre foram ao encontro do (grande) ego do cantor que, sempre vaidoso, apesar de recluso e problemático antes do sucesso.

Na parte solo alguns pontos altos: a ótima e boa de cantar “First of the Gang to Die”; “Everyday is like Sunday”, um dos hits do início da carreira solo, que levantou o público nostálgico de cinquentões, quarentões e também trintões;  “The bullfighter dies”, em que Morrissey não faz menos que matar o toureiro que costuma ser o algoz dos animais que ele tanto defende.

E também teve aquela que diz “Kiss me a lot, all over my face”, em que ele se derrete todo pros fãs, e que é muito boa e com um toque de música espanhola. (Estaria Morrissey, o agora matador de toureiros querendo se redimir com os espanhois? Me pareceu.)

Muito simpático o tempo todo e com a voz rouca e ainda com grande alcance, Morrissey encantou tanto que ninguém se lembrou dos shows que ele cancelou ou mesmo do câncer de estômago que assustou seu público no início deste ano. O que ele transmitiu domingo foi a força e o carisma que marcaram toda a sua carreira. The “charming man” himself. Quanto à emoção transmitida no show, as imagens falam por si.

Smiths presentes
Um show para os fãs dos Smiths também porque teve a própria “This Charming Man” mais pro fim. Embora tenha deixado de cantar as esperadas “How soon is now” (mas au já vi o Johnny Marr cantar esta no Lollapaloosa do ano passado!!!) ou “The Boy with the Thorn in his Side”, que haviam sido ventiladas, o show de domingo fez subir ao céu quem nunca tinha visto o cantor dos Smiths cantar Smiths! Como eu!

Com meu marido e amigos queridos, curti meu ídolo como se ainda estivesse nos gloriosos anos 80. Um dos amigos era Ezio, meu maior companheiro de audições de Morrissey e Morrison! (Ler “Há 40 anos, morria Jim Morrisson e nascia um mito”, aqui no blog). Ezio é o maior conhecedor das letras de Smiths e Doors. Eu acho que venho em segundo lugar na turma.

“I travelled to many countries, many mountains, many forests to be here”, disse o poeta sendo poeta. “I’m very greatful!”. Nós também, Moz, nós também.

A esticada foi no Beirute da Asa Norte, a cara dos anos 80, aliás! Beirute que teve sua noite de Cervantes, aquele bar delicioso do Lido, em Copacabana, aonde a gente vai depois dos shows conversar sobre a noite musical comendo sanduíche de filé com abacaxi!

Delícia de noite!

 

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