As crianças e esses seres “estranhos e nojentos”

As crianças e esses seres “estranhos e nojentos”

É como se você estivesse assistindo a um daqueles já clássicos filmes do canadense David Cronnemberg: “A Mosca”; “Gêmeos, Mórbida Semelhança”; “Scanners, sua Mente Pode Destruir”. Cheios de seres estranhos, junções de duas espécies, bichos e pessoas modificados geneticamente, outros com diferenças anatômicas que nos parecem extremamente escatológicas. A exposição “Comciência”, da australiana Patricia Piccinini, em cartaz desde o fim de semana no Centro Cultural Branco do Brasil (CCBB) de Brasília, tem um pouco de tudo isso e muito mais.

Por causa disso, a exposição formou, em seu primeiro fim de semana em cartaz, filas maiores do que qualquer outra mostra que habitou os três espaços do CCBB de Brasília. Em São Paulo, por onde já passou, as filas foram maiores do que as da exposição de Picasso! A estranheza atrai as pessoas. A diferença é novidade e o novo sempre desperta a curiosidade no ser humano. Como ensinava meu professor de Políticas Culturais Luiz Humberto em suas aulas do curso de Comunicação da Universidade de Brasília, nos anos 80.

Sim, Patricia quer despertar a curiosidade e ela apela para as anormalidades. Grandes anormalidades. Seres que têm filhos pelas costas…

… Meninas peludas…

… Meninos com cara de macaco…

Base Científica
Mas o mundo da artista plástica australiana tem uma base científica. Imagine que, no futuro, cientistas humanos criam, em laboratório, seres geneticamente modificados. O objetivo é que eles ajudem os humanos nas tarefas do dia a dia. Veja esta macaca ama de leite. Ela está amamentando um bebê humano.

E ele não é uma macaca comum. Olhe por onde saem os seus filhotes. Nojento? Tudo o que é diferente, é nojento.

Um outro aspecto da proposta de Patricia, é o oposto: a humanização de seres inanimados. Olhe estas motocicletas. Não parecem pessoas ou bichos?

Já as flores do belo jardim do subsolo lembram mais ainda “Gêmeos, Mórbida Semelhança”, com suas formas se parecendo com órgãos humanos.

Ou esta flor não parece um útero com ovários aumentados?

Mas se o estranho e o escatológico nos parece meio intragável em uma primeira olhada, aos poucos vamos percebendo que há, ali, um objetivo maior: perceber que o diferente está longe de ser agressivo, muito longe de ser o inimigo. Esses seres gorduchos e peludos, com caras ambíguas e que têm filhos que nascem de nojentos buracos em suas costas, são amigos das crianças humanas.

O que se percebe na relação entre seres geneticamente modificados e crianças humanas é afeto. De parte a parte.

A estranheza que estes seres nos causam não é de alguma forma parecida com a que pessoas com deficiências físicas também podem nos causar? Principalmente às crianças, menos acostumadas às deformidades? Pois é, a ideia de Patricia Piccinini, no fim das contas, é mostrar que nós humanos e, principalmente, as crianças humanas terminam tendo uma relação de afeto com o ser “estranho”, diferente. Uma exposição pela diversidade. Pela convivência. Viva!!!

 

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12 Comentários

  1. A namorada queria ir nessa expo, mas eu declinei. Não curti muito a ideia nao….

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