Ettore Scola me introduziu no mundo do cinema italiano

Ettore Scola me introduziu no mundo do cinema italiano

Nunca vou me esquecer do impacto que “O Baile” teve em mim, aquela jovem estudante de Comunicação de uns 19 anos, lá pelo fim dos anos 80. Entrei no curso de jornalismo porque queria ser crítica de cinema ou de rock. Uma saga toda passada em um salão de baile. 50 anos na vida de alguns casais que dançam dos anos 1930 a 1980. Nem uma palavra. Só olhares, gestos. Comunicação por meio do movimento. Coisa de gênio.

Este gênio era o italiano Ettore Scola, que morreu ontem, do coração, aos 84 anos. Morreu ainda na ativa. Seu último filme, “Que estranho chamar-se Federico”, em homenagem ao amigo Fellini, é de dois anos e meio atrás, 2013. “O Baile”, sua produção mais premiada, que ganhou além de alguns Césars (o Oscar francês), o Urso de Ouro no Festival de Berlim, eu vi na Cultura Inglesa, como de resto, todos os outros filmes dele feitos até 1987, 88.

Por uns 20 anos, o cinema da escola de inglês britânico foi o mais importante que existia em Brasília. Naquela salinha pequena, em que uma vez encontrei um rato, nós cinéfilos, nos formávamos na arte de gostar e apreciar o cinema dos grandes diretores. O programador era o Roberto da Matta, a quem só tenho agradecimentos a fazer. Ali, eu e meus amigos dos cursos de jornalismo, publicidade, rádio e TV e cinema, do qual foi aluna até fecharem o curso por alguns anos, assistíamos a pérolas da História recente do cinema, em especial o europeu.

Eram mostras com o que se conseguisse reunir da obra de um determinado cineasta. Lembro-me perfeitamente da mostra de Fassbinder, quando fui apresentada ao forte “Querrelle”, e a “Lolla”, “Lulu Marlene” e outras histórias que mostravam pra gente o submundo da Alemanha. Lembro-me mais ainda da Mostra dos filmes do grande Buñuel, o surrealista máximo do cinema espanhol e europeu. Nunca vou me esquecer de “Este Obscuro Objeto do Desejo” e de toda a sua ambiguidade. Um roteiro absolutamente desconcertante em sua originalidade! Ou da crítica mordaz de “O discreto charme da burguesia”.

Houve também a mostra de Carlos Saura, com as loucuras de “Mamãe faz 100 anos” e a ode à Dança Flamenca de “Bodas de Sangue”. Saura era mesmo um seguidor de Buñuel, no quesito esquisitices.

Truffaut
Houve ainda Truffaut, minha mostra preferida, meu cineasta predileto da juventude. “Jules e Jim”, “O último metrô”, os curtas com o personagem Antoine Doinel, alterego do diretor, vividos por Jean Pierre Léau. Léau e Doinel eram onipresentes na cinematografia de Truffaut, vinha desde adolescente, no liceu de “Os incompreendidos”. Léau ainda está vivo, ainda bem!!

Como era fantástica aquela época! Éramos muito felizes na Cultura Inglesa e não sabíamos. Ou sabíamos, mas não imaginávamos que era coisa de uma geração, que depois aquela sala mágica desapareceria como cinema.

A outra mostra de que me lembro foi justamente a de Ettore Scola. Além de “O Baile”, me lembro demais daqueles filmes todos passados dentro de casarões italianos e quase sempre protagonizados por Marcello Mastroianni  e Sophia Loren…

e também estrelados por Vittorio Gassman. Eram dramas familiares como “Nós que nos amávamos tanto” e “A família”.

Muita conversa entre os personagens de uma mesma família, muita briga. Tudo muito gritado, tudo bem italiano. Mas também silêncios, os silêncios de Scola. E aquela fotografia que, mesmo colorida, tinha um quê de Preto e Branco. As casas eram escuras.

O último filme de Scola que vi foi “Concorrência Desleal”, já sem Cultura Inglesa”, em um dos festivais de cinema, o do Rio ou o FICC Brasília. Socialista que era, Ettore Scola resolveu criticar uma das maiores chagas do capitalismo e da sociedade de consumo: a deslealdade que costuma caracterizar a concorrência. Mais um filmaço, já feito em sua idade madura.

É, pensando em retrospecto, posso dizer que quem me apresentou ao grande cinema italiano foi Ettore Scola. Antes de Fellini, antes do meu amado Antonionni. E eu só tenho a agradecer a Scola por isso. Queria que ele vivesse mais! Quero ver todos os filmes que não vi naquela época e mais tarde na televisão. Meu luto por ele é maior do que por David Bowie, que fui aprendendo a amar ao longo do tempo. É maior porque amei Scola antes. Naquelas tardes no pequeno auditório da escola de inglês que só frequentei pra ir ao cinema. Obrigada, Ettore Scola! Você me deu muito! RIP!

Compartilhe:
  • Print
  • Digg
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Google Bookmarks
  • LinkedIn
  • Live
  • MySpace
  • RSS
  • Twitter

Deixe um comentário