Joy: o Neofeminismo Chegou a Hollywood

Joy: o Neofeminismo Chegou a Hollywood

A onda neofeminista chegou a Hollywood. Pelo menos três longas metragens com temas feministas estão em cartaz e concorrendo a estatuetas do Oscar. Se “As sufragistas” traz o feminismo histórico, contando o episódio em que um grupo de mulheres foi às ruas pelo direito de votar na Inglaterra do início do século XX, “Carol” mostra a história de uma mulher casada que, infeliz com o marido, se apaixona por outra mulher e vai atrás de uma vida mais plena, ainda que escondida, com o amor do mesmo sexo (personagem da ótima Rooney Mara, que já foi indicada ao Oscar de Coadjuvante antes- pelo segundo filme da série inspirada na trilogia de livros suecos “Millenium”, e concorre de novo agora).

Cate Blanchet concorre a melhor atriz, mais uma vez, pelo papel principal. Há quem ache sua interpretação chata, cheia de mi mi mi, como o crítico de cinema e fundador do Canal Brasil, Wilson Cunha. Há quem pense, ao contrário, que ela interpreta magistralmente a mulher gay dos anos 1950 nos Estados Unidos. E Blanchet é inglesa, é sempre bom lembrar. De qualquer forma, é uma forte candidata à segunda estatueta de sua carreira.

Há muito tempo, a dedicada atriz cheia de nuances Cate Blanchet virou uma queridinha de Hollywood. Ganhou a última vez por um dos filmes mais ou menos de Woody Allen, “Blue Jasmine”. Levou pela primeira vez ao interpretar magistralmente a atriz Katharine Hepburn em “O Aviador”, de Martin Scorsese. É a sexta vez que Blanchet concorre ao Oscar e ela tem a vantagem de já ter ganhado o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Drama, uma categoria considerada mais séria do que a de Comédia ou Musical, em que o filme “Joy” caiu.

É justamente “Joy” quem corre por fora nesta lista de fitas feministas. Trata-se da história real da dona de casa americana (vivida pela já ganhadora do Oscar de Melhor Atriz Jennifer Lawrence) que, nos Estados Unidos dos anos 80 inventou um esfregão de limpar o chão totalmente diferente dos que existiam até então. Era o único que permitia que se limpasse o chão sem tocar nenhuma vez no próprio esfregão, evitando cortes e outros machucados, além da sujeira. O algodão do objeto podia ser lavado na máquina e reutilizado, de forma que a dona de casa nunca teria que comprar outro esfregão na vida, como garante a própria inventora quando finalmente consegue um contrato com uma televisão para comercializar sua criação.

Jennifer Lawrence, que já ganhou o Globo de Ouro de melhor atriz em Comédia ou Musical pelo papel, é dona mais uma vez de uma interpretação segura e comovente capaz de fazê-la repetir o feito de “O Lado Bom da Vida”. Só que vai ter que bater Cate Blanchet. A jovem Lawrence, de apenas 24 anos, pode ter perdido alguns pontos com os velhos acadêmicos quando caiu na bobagem de chamar a atenção de um jornalista que usava o celular (provavelmente para trabalhar), na entrevista que ela deu nos bastidores, após ganhar o Globo de Ouro.

Mundos de papel
O grande lance do filme é o caminho até que Joy, uma estudante nota A do ensino público dos Estados Unidos, largasse a difícil vida de mãe separada e filha de pais complicados e dependentes, para enfrentar o caminho que poderia leva-la ao sucesso empresarial. O diretor e roteirista é David O. Russell, o mesmo de “Trapaça” e “O Lado Bom da Vida”, que deu a Lawrence seu primeiro Oscar. Isso garante à produção um roteiro inventivo, uma edição cheia de gracinhas- muito bem vindas, neste caso- e uma narração feita pela avó de Joy, interpretada por uma Diane Ladd já velhinha, mas ainda em ótima forma. Merecia pelo menos uma indicação ao Oscar.

Diane Ladd, pra quem não se lembra, é a mãe de Laura Dern (de “Coração Selvagem” e “Parque dos Dinossauros”) e ex-mulher de Bruce Dern, aquele que foi reabilitado em Hollywood pelo diretor e roteirista Alexander Payne e ganhou o Oscar pelo papel do velhinho que garante ter ganhado na loteria do fantástico “Nebraska”. Família de bambas, eu diria.

De quebra, Lawrence volta a contracenar com Bradley Cooper, que aparece no meio da história pra garantir a volta da dobradinha do ótimo “O Lado Bom da Vida”. Mas em“Joy”, o ótimo Cooper não se sobressai como de costume.

O peso usado por O. Russell para retratar a bipolaridade em “O Lado Bom…, dá lugar, no novo filme, à leveza da comédia, no início, ou ao drama nada pesado, e sim bem ritmado, até o final. Robert de Niro e Isabella Rossellini reforçam vários momentos cômicos. E Virginia Madsen, melhor ainda que em “Sideways”, faz uma absolutamente impagável mãe presa na cama e dependente de Soap Operas das piores possíveis. Outra que bem poderia ter sido ao menos indicada ao Oscar de Coadjuvante.

Joy é uma personagem interessantíssima. Uma menina inventiva que cria mundos de papel, enquanto vai muito bem na escola, chegando a oradora da turma na High School. Num ambiente de pais beligerantes que não têm tempo nem vontade de incentivá-la a ser mais que uma dona de casa, é a avó visionária quem assume este papel. Há também a amiga de infância sempre a postos para ajuda-la, durante toda a vida.

Joy é sobre uma mulher emponderada pela inventividade vivendo num mundo de mediocridade. Um belo filme.

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13 Comentários

  1. Gosto muito da Cate. e adorei Blue Jasmine, a despeito do que vc cita “mais ou menos”. Gosto é gosto, rsrs. Ela é linda e talentosa.

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