“Brooklyn” é sobre pertencer a um novo lugar

“Brooklyn” é sobre pertencer a um novo lugar

Há vinte anos, eu e minha amiga Daniela Mendes, ex-colega de faculdade, desembarcávamos em Nova com um visto de turista e uma mala grande na mão, ainda daquelas de carregar. Vestíamos a roupa mais arrumadinha que encontramos e um lenço de seda no pescoço. Tentávamos aparentar confiança, mas lá dentro era enorme o nosso medo de, solteiras e jovens, não passarmos na imigração. Nossa ideia era morar um ano em Manhattan e, pra isso, tínhamos pedido demissão do jornal e da revista em que trabalhávamos, respectivamente, vendido nossos carros, entregado nossos apartamentos e deixado amores esperando. Ao assistir ao filme “Brooklyn” no cinema, que concorre aos Oscars de Melhor Filme, Melhor Atriz, e Roteiro Adaptado, eu sabia, portanto, muito do que a irlandesa interpretada pela ótima Saoirse Ronan estava sentindo.

É muito bom chegar a um lugar com o qual sonhamos, é fantástico estar na capital do mundo, mas é muito ruim se sentir um extraterrestre em um lugar em que as pessoas e os hábitos são tão diferentes. Ao assistir às aventuras da irlandesa tímida que vai morar em uma pensão para moças muito diferentes dela, eu me lembrava também de quando, aos 16 anos, deixei minha família pra trás e fui morar na casa da uma família em Michigan, EUA, que eu nunca tinha visto antes.

“Brooklyn” é sobre isso mesmo: se sentir fora do seu habitat natural. Ter que se adaptar a ele necessariamente. E quando, meses depois, finalmente aquele lugar que parecia Marte vira a sua casa, é hora de partir novamente praquele outro que já não parece tão familiar assim. E sobre como o estranho vira o próximo. O sentido de pertencimento a um lugar pode mudar em pouco tempo.

O filme não é uma simples história de amor como se parece até um certo ponto da trama. A história de Eilis é o pano de fundo quase. “Brooklyn” é muito mais. É daqueles filmes que você descobre no fim. Quase na última cena. E aí, nos créditos, você vê que o roteiro é do Nick Hornby e vê como o escritor de “Alta Fidelidade” também amadureceu.

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