Posts made in julho, 2016

Almodóvar e o Melodrama

Fazia uns 10 anos que eu não assistia a um filme de Pedro Almodóvar. Parei depois de “Fale com Ela”. Não, não me deixei levar pelo apelo de que foi o estupro que fez com que a moça em coma voltasse à vida. Muitas amigas e amigos, e parte da crítica também- adoraram o filme por causa dessa sutiliza. Tá bom, Almodóvar conseguiu recorrer a uma sutiliza, vá lá, dou-lhe esta- para justificar aquele estupro a uma pessoa que estava indefesa, em estado vegetativo. Pois eu tô fora. Nada justifica um estupro. E muito menos, nada torna bela uma relação sexual forçada, nem que ela tenha sido perpetrada por amor (amor de mão única?).

Pois bem, odiei “Fale com Ela”. Foi o auge da fase em que Almodóvar passou a recorrer ao Melodrama puro para criar seus filmes. Recorrer a situações limites da vida humana: o estado de coma- como ele o adora!!-; os sentimentos de culpa de pais que abandonaram os filhos; o sentimento de abandono desses filhos; a dor profunda do adulto que foi abusado pelo pai quando criança… Bem este último é autorreferente, o próprio cineasta já disse que passou por este drama na infância.

Quase não há relações “normais” nas tramas de Almodóvar, encontradas no dia a dia da maior parte de nós: sofrimentos que nos afetam por causa das relações de trabalho, das relações comuns em nossas casas, de amizades que se tornam problemáticas… coisas que afetam à maioria das pessoas e não somente a uma parcela pequena de nós. E aí é que mora um dos principais atrativos de sua obra: é fácil gostar do dramalhão. Quem não quer sair um pouco do dia a dia? Quem não é facilmente atraído pelas situações limítrofes, que podem ser o alimento do melodrama?

Julieta
Pois bem, “Julieta”, seu último filme, em cartaz nos cinemas brasileiros, tem muitas destas situações limites. A morte repentina de um ente querido- ela de novo-; o coma de outro personagem; a filha que se separa da mãe por razões desconhecidas; a mãe que resolve tomar medidas drásticas; um pouco de relação amorosa entre pessoas do mesmo sexo… e por aí vai. Os personagens e os diálogos, por outro lado, sofrem de uma simplicidade quase estridente. Desta vez, o diretor/roteirista/produtor faz referências a Patricia Highsmith e até a Sydney Sheldon. Assim, fica bem fácil acompanhar a trama.

Não sou maniqueísta de deixar de enxergar os aspectos estéticos da obra de Almodóvar. Aliás, pra mim, é por eles que o diretor é um dos grandes. Atores de alto nível, muito bem dirigidos por ele, um uso das cores único e muito característico (veja que lindo o vermelho, que volta com força em “Julieta”!!), uma utilização da música quase como personagem… No novo filme, Hitchcock quase emprestou seu Bernard Hermann (o compositor premiado de suas trilhas) ao “colega” espanhol. A trilha do início do filme nos remete aos longa-metragens da fase americana do mestre inglês. A cidade pequena do meio da história, o trem onde acontecem fatos importantes pra trama, o suspense, toda a ambientação, por vezes, fazem parecer que estamos num dos clássicos de Hitch ou numa daquelas adaptações de Agatha Christie para o cinema. O ar retrô, aliás, é uma das melhores coisas de “Julieta”.

Vale assistir a “Julieta”, concluímos. É divertido. Mas é como assistir a um folhetim. Foi o tempo em que nos divertíamos com as comédias do diretor espanhol que criou pérolas como “Ata-me” e “Kika”, meu preferido. Que continham referências metalinguísticas- este último-, ou exaltações à força e à independência da mulher. Minha impressão é de que, quando percebeu que já tinha um público fiel, Almodóvar resolveu dar sua guinada final: aderiu ao estilo que sempre quis pra si e antes não tinha coragem de assumir: o melodrama típico das novelas mexicanas. Novela modernizada, empacotada em um lindo embrulho estético, mas novela.

Então, não seria o caso de assumirmos também? Nós gostamos de uma novela de vez em quando. Eu pelo menos gosto.

Leia mais

“O amor da sua vida”

Noutro dia, comecei a ler um texto no facebook achando que era uma coisa e era outra. Era menos interessante do que eu achava que seria, talvez porque a conclusão da autora sobre o tema- o amor da nossa vida- fosse tão diferente da minha. A premissa foi, de cara, totalmente refutada pelo meu cérebro. Como assim o amor da minha vida? Como assim uma pessoa com uma vida que leve, vá lá, uns 60, mesmo 40 anos, pode ter apenas um grande amor na vida? Me senti um ET. Tive vários, tá bom, alguns grandes amores na minha vida. Sempre digo que amo demais porque fui muito amada na minha infância pelos meus pais. Aí, acho que amar é normal, tenho (ou tive) amores desmedidos, sem me impor limites, sofro, pareço o próprio Werther de Goethe com seu amor impossível por Clarisse. Claro que na juventude era muito pior. Bom, sobre essas reminiscências já escrevi antes aqui no blog (“O mundo se vinga por você ou Para o João ler quando tiver 16 anos”)

Mas voltando ao texto, continuei lendo mesmo quando as expectativas não se cumpriram. A autora, que li traduzida, tirava conclusões otimistas, apesar de começar dizendo que você poderia passar a vida toda sem ter a felicidade de viver o tal grande amor da sua vida. Concluía que, devido a incompatibilidades, como o gosto aventureiro dele, em oposição a sua aversão por viagens a lugares longínquos, o casal ou provável casal, poderia não continuar junto ou mesmo jamais ser um casal. Mas que o amor que você nutre teria valido a pena assim mesmo porque você, afinal, o sentiu, teve esta experiência. Mesmo que tivesse que deixa-lo livre para seguir com uma vida separada da sua, o que seria, de qualquer forma, um jeito de amá-lo.

Bem, eu mesma não acredito neste tipo de desprendimento. Pelo menos não no contexto do amor. Não que não creia que amor só é amor se for vivido, no sentido carnal, por assim dizer. Amor Platônico existe e os textos produzidos pelo Romantismo são grandes, belas e tristes provas disso. Minha própria vida pregressa, modestamente, é outra prova.

Pensei que a autora de nome inglês, desconhecido pra mim, fosse falar de como “o amor da sua vida” pode acontecer das formas mais diversas, em momentos diferentes da sua vida. Como ele pode ser mais intenso quando é platônico porque, afinal, aí você só conhece as qualidades do outro, e ignora os defeitos, que só aparecem com a convivência. De como você pode se apaixonar por alguém que tem gostos muito parecidos com os seus, mas não conseguir conviver porque um dos dois não abre mão de detalhes do dia a dia que parecem tão importantes- e na verdade podem não ser. De como quando você, já mais maduro, descobre que o amor pode durar muito tempo se um dos dois tem a capacidade de passar por cima das exigências toscas do outro. E vice-versa. De como o amor duradouro demanda esforço pra que continue amor. De como, no meio da plenitude de um amor tranquilo, você pode ser pego de surpresa por outro. Outro amor, uma paixão. Assim, do nada. Já ouvi alguns casos assim, e quem não ouviu? Que pode ter começado com uma conversa sobre, sei lá… política? Música? Cinema? Vinhos? Filhos? A situação mundial? E que te chamou a atenção porque as posições e os gostos eram tão parecidos com os seus… Ou porque o objeto do amor, ou da paixão, tinha elementos que não faziam parte da sua vida naquele momento e que- você descobriu- lhe faziam falta. E de como os amores às vezes podem ir pra frente ou não e isso pode ser decidido pelo destino (se é que isso existe), por você mesmo, pela outra pessoa. E de como aquele amor, no início paixão, pode passar a ser O amor.

Enfim, eu achei que aquele texto fosse tomar caminhos muito mais complexos, variados… realistas. Caminhos muito mais curiosos e instigantes. Mas não.

Leia mais