Almodóvar e o Melodrama

Almodóvar e o Melodrama

Fazia uns 10 anos que eu não assistia a um filme de Pedro Almodóvar. Parei depois de “Fale com Ela”. Não, não me deixei levar pelo apelo de que foi o estupro que fez com que a moça em coma voltasse à vida. Muitas amigas e amigos, e parte da crítica também- adoraram o filme por causa dessa sutiliza. Tá bom, Almodóvar conseguiu recorrer a uma sutiliza, vá lá, dou-lhe esta- para justificar aquele estupro a uma pessoa que estava indefesa, em estado vegetativo. Pois eu tô fora. Nada justifica um estupro. E muito menos, nada torna bela uma relação sexual forçada, nem que ela tenha sido perpetrada por amor (amor de mão única?).

Pois bem, odiei “Fale com Ela”. Foi o auge da fase em que Almodóvar passou a recorrer ao Melodrama puro para criar seus filmes. Recorrer a situações limites da vida humana: o estado de coma- como ele o adora!!-; os sentimentos de culpa de pais que abandonaram os filhos; o sentimento de abandono desses filhos; a dor profunda do adulto que foi abusado pelo pai quando criança… Bem este último é autorreferente, o próprio cineasta já disse que passou por este drama na infância.

Quase não há relações “normais” nas tramas de Almodóvar, encontradas no dia a dia da maior parte de nós: sofrimentos que nos afetam por causa das relações de trabalho, das relações comuns em nossas casas, de amizades que se tornam problemáticas… coisas que afetam à maioria das pessoas e não somente a uma parcela pequena de nós. E aí é que mora um dos principais atrativos de sua obra: é fácil gostar do dramalhão. Quem não quer sair um pouco do dia a dia? Quem não é facilmente atraído pelas situações limítrofes, que podem ser o alimento do melodrama?

Julieta
Pois bem, “Julieta”, seu último filme, em cartaz nos cinemas brasileiros, tem muitas destas situações limites. A morte repentina de um ente querido- ela de novo-; o coma de outro personagem; a filha que se separa da mãe por razões desconhecidas; a mãe que resolve tomar medidas drásticas; um pouco de relação amorosa entre pessoas do mesmo sexo… e por aí vai. Os personagens e os diálogos, por outro lado, sofrem de uma simplicidade quase estridente. Desta vez, o diretor/roteirista/produtor faz referências a Patricia Highsmith e até a Sydney Sheldon. Assim, fica bem fácil acompanhar a trama.

Não sou maniqueísta de deixar de enxergar os aspectos estéticos da obra de Almodóvar. Aliás, pra mim, é por eles que o diretor é um dos grandes. Atores de alto nível, muito bem dirigidos por ele, um uso das cores único e muito característico (veja que lindo o vermelho, que volta com força em “Julieta”!!), uma utilização da música quase como personagem… No novo filme, Hitchcock quase emprestou seu Bernard Hermann (o compositor premiado de suas trilhas) ao “colega” espanhol. A trilha do início do filme nos remete aos longa-metragens da fase americana do mestre inglês. A cidade pequena do meio da história, o trem onde acontecem fatos importantes pra trama, o suspense, toda a ambientação, por vezes, fazem parecer que estamos num dos clássicos de Hitch ou numa daquelas adaptações de Agatha Christie para o cinema. O ar retrô, aliás, é uma das melhores coisas de “Julieta”.

Vale assistir a “Julieta”, concluímos. É divertido. Mas é como assistir a um folhetim. Foi o tempo em que nos divertíamos com as comédias do diretor espanhol que criou pérolas como “Ata-me” e “Kika”, meu preferido. Que continham referências metalinguísticas- este último-, ou exaltações à força e à independência da mulher. Minha impressão é de que, quando percebeu que já tinha um público fiel, Almodóvar resolveu dar sua guinada final: aderiu ao estilo que sempre quis pra si e antes não tinha coragem de assumir: o melodrama típico das novelas mexicanas. Novela modernizada, empacotada em um lindo embrulho estético, mas novela.

Então, não seria o caso de assumirmos também? Nós gostamos de uma novela de vez em quando. Eu pelo menos gosto.

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