“O amor da sua vida”

“O amor da sua vida”

Noutro dia, comecei a ler um texto no facebook achando que era uma coisa e era outra. Era menos interessante do que eu achava que seria, talvez porque a conclusão da autora sobre o tema- o amor da nossa vida- fosse tão diferente da minha. A premissa foi, de cara, totalmente refutada pelo meu cérebro. Como assim o amor da minha vida? Como assim uma pessoa com uma vida que leve, vá lá, uns 60, mesmo 40 anos, pode ter apenas um grande amor na vida? Me senti um ET. Tive vários, tá bom, alguns grandes amores na minha vida. Sempre digo que amo demais porque fui muito amada na minha infância pelos meus pais. Aí, acho que amar é normal, tenho (ou tive) amores desmedidos, sem me impor limites, sofro, pareço o próprio Werther de Goethe com seu amor impossível por Clarisse. Claro que na juventude era muito pior. Bom, sobre essas reminiscências já escrevi antes aqui no blog (“O mundo se vinga por você ou Para o João ler quando tiver 16 anos”)

Mas voltando ao texto, continuei lendo mesmo quando as expectativas não se cumpriram. A autora, que li traduzida, tirava conclusões otimistas, apesar de começar dizendo que você poderia passar a vida toda sem ter a felicidade de viver o tal grande amor da sua vida. Concluía que, devido a incompatibilidades, como o gosto aventureiro dele, em oposição a sua aversão por viagens a lugares longínquos, o casal ou provável casal, poderia não continuar junto ou mesmo jamais ser um casal. Mas que o amor que você nutre teria valido a pena assim mesmo porque você, afinal, o sentiu, teve esta experiência. Mesmo que tivesse que deixa-lo livre para seguir com uma vida separada da sua, o que seria, de qualquer forma, um jeito de amá-lo.

Bem, eu mesma não acredito neste tipo de desprendimento. Pelo menos não no contexto do amor. Não que não creia que amor só é amor se for vivido, no sentido carnal, por assim dizer. Amor Platônico existe e os textos produzidos pelo Romantismo são grandes, belas e tristes provas disso. Minha própria vida pregressa, modestamente, é outra prova.

Pensei que a autora de nome inglês, desconhecido pra mim, fosse falar de como “o amor da sua vida” pode acontecer das formas mais diversas, em momentos diferentes da sua vida. Como ele pode ser mais intenso quando é platônico porque, afinal, aí você só conhece as qualidades do outro, e ignora os defeitos, que só aparecem com a convivência. De como você pode se apaixonar por alguém que tem gostos muito parecidos com os seus, mas não conseguir conviver porque um dos dois não abre mão de detalhes do dia a dia que parecem tão importantes- e na verdade podem não ser. De como quando você, já mais maduro, descobre que o amor pode durar muito tempo se um dos dois tem a capacidade de passar por cima das exigências toscas do outro. E vice-versa. De como o amor duradouro demanda esforço pra que continue amor. De como, no meio da plenitude de um amor tranquilo, você pode ser pego de surpresa por outro. Outro amor, uma paixão. Assim, do nada. Já ouvi alguns casos assim, e quem não ouviu? Que pode ter começado com uma conversa sobre, sei lá… política? Música? Cinema? Vinhos? Filhos? A situação mundial? E que te chamou a atenção porque as posições e os gostos eram tão parecidos com os seus… Ou porque o objeto do amor, ou da paixão, tinha elementos que não faziam parte da sua vida naquele momento e que- você descobriu- lhe faziam falta. E de como os amores às vezes podem ir pra frente ou não e isso pode ser decidido pelo destino (se é que isso existe), por você mesmo, pela outra pessoa. E de como aquele amor, no início paixão, pode passar a ser O amor.

Enfim, eu achei que aquele texto fosse tomar caminhos muito mais complexos, variados… realistas. Caminhos muito mais curiosos e instigantes. Mas não.

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