Posts made in setembro, 2016

Homenagem argentina a Janela Indiscreta

O filme argentino “No fim do Túnel” é uma homenagem a “Janela Indiscreta”, de Hitchcock. Joaquín está sentado em uma cadeira de rodas e no início do filme você não sabe o que o levou a ficar paralítico. Ele sobe e desce do porão da grande casa em que mora com seu cachorro velhinho, que também não anda. O personagem passa o tempo no porão, pra onde desce na cadeira por um elevador individual, escutando o que acontece do outro lado da parede. Um estetoscópio o ajuda a descobrir que algo muito errado está realmente para acontecer.

No meio disso tudo, chegam a sua casa uma mãe e sua filha de 6 anos, que alugam o quarto de cima. A jovem e bela mãe, Berta, que é dançarina em um clube noturno, pretende mudar pra melhor a rotina de Joaquín. A menina ficou muda há alguns anos e ninguém sabe direito por que. O ambiente sombrio e a música de suspense reforçam a impressão de que estamos mesmo num thriller. Num passeio de Berta pelo jardim abandonado do casarão, ela e o espectador descobrem a origem da debilidade física do protagonista. Seu passado está ali, deixado propositalmente pra trás.

Segredos sobre as duas inquilinas também serão revelados ao longo da trama. O diretor Rodrigo Grande consegue manter a tensão ao longo de todo o filme, não só com a revelação gradual dos segredos dos personagens, mas por meio de ação. Sim, “No fim do Túnel” é um thriller, mas é também um filme de ação. Um daqueles em que você consegue encontrar algo de original. É ação, mas não é Hollywood. É filme de personagem, mas é suspense.

O personagem principal é interpretado pelo ótimo ator argentino Leonardo Sbaraglia, que viveu o motorista raivoso do primeiro episódio de “Relatos Selvagens”. Ele já estava em cartaz no filme brasileiro “O Silêncio do Céu”, em que contracena com Carolina Dickman.
A atriz que faz Berta, Clara Lago, eu já tinha visto no intrigante filme espanhol “Fim dos Tempos”, como a namorada do personagem principal. Sbaraglia é daqueles atores que falam com os olhos e o diretor Rodrigo Grande soube explorar bem esta capacidade dele, com muitos planos fechados, que contribuem para os momentos de suspense.

Com várias idas e vindas, “No fim do túnel” é um filme pra quem gosta de thrillers inteligentes. Um suspense com um tempero de chimichurri, bem argentino. Ele entra em cartaz na quinta-feira que vem (6/10) nas principais capitais do País.

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O facebook, os amigos, os fascistas e as “feminazis”

Nunca agradeci suficientemente a Mark Zuckenberg e seu amigo brasileiro pelas amizades que fiz no facebook. Já tinha agradecido, via face mesmo, pelos amigos da vida real que este meio virtual me permitiu achar, até mesmo minha “família americana”, que me recebeu em Michigan em 1985 e com quem perdera o contato. Pois hoje posso dizer que fiz amigos por meio do face. Alguns continuam somente amigos virtuais, com quem falo quase todo dia ali; outros eu transportei do mundo virtual também para o mundo físico. E sou muuuito feliz com alguns desses amigos que fiz no face, inbox, outbox… São amizades verdadeiras, tenho certeza disso.

Mas há um lado nefasto nisso tudo. Na letra fria da linguagem escrita, as discussões ficam mais acirradas por causa da falta de filtro proporcionada pela distância entre os interlocutores. Talvez por isso mesmo são até mais reais: muitos se sentem mais livres para dizer o que pensam. Isso já virou até tese acadêmica. Os mais tímidos, em especial, ou os que têm mais dificuldade de expressar seus pontos de vista sobre temas controversos na base do cara a cara, encontram na rede um ótimo escudo. Escudo que também pode ser arma. Pela minha já vasta experiência de campo no face, eu diria até que este grupo é majoritário, infelizmente. Infelizmente porque esta separação entre os interlocutores- a providencial distância- faz com que aflorem os sentimentos que o ser humano mais tenta esconder nas relações interpessoais “normais”: raiva, ódio, inveja, ressentimento, vontade – e oportunidade- de se vingar.

Sim, infelizmente, tenho visto cada vez mais isso no face. Tudo isso me assusta porque sempre fui uma pessoa de falar muito. Sofro de excesso de sinceridade desde que me conheço por gente. Falo muito de política, religião, futebol… qualquer coisa que as pessoas costumam dizer que não se discute. Elogio muito, mas também critico. Enfim, sou virginiana. A amiga mais fiel, mas a crítica mais sincera. Ou seja, tenho este defeito já aqui fora. Portanto, pra mim, falar no face ou fora do face é praticamente a mesma coisa…

Tenho visto nas páginas do facebook amigos que começam a discutir a relação por escrito, vomitando coisas sobre o outro como se não houvesse amanhã… surpreendendo amigos que não tinham ideia de que ele, ou ela, pensasse daquele jeito. Tenho visto também o que todos os meus novos amigos da esquerda chamam de fascismo: um monte de pessoas que usam até defeitos físicos de políticos pra insultá-los, como se defeito físico fosse um insulto… (Na cabeça deles deve ser, né?) Tenho visto muuuita ironia descuidada, que, na palavra escrita, pode ser totalmente mal compreendida… Tenho visto ignorância, prepotência, direitismo explícito, fascismo mesmo. E tenho visto exageros totalmente inesperados do outro lado também, no que seria a Esquerda, no que deveria ser o lado onde se encontra tolerância.

Feministas e “Feminazis”
Explico-me melhor: já nasci feminista porque meu pai e minha mãe já eram feministas nos ano 60. Sociólogos, conheceram Simone de Beauvoir e Sartre quando eles visitaram Recife. Eu e minha irmã fomos criadas pra ser profissionais independentes a tal ponto que levei um susto quando fui pedida em casamento aos 21 anos. Imagine, antes disso, ainda tinha que namorar outras pessoas, fazer mestrado, doutorado, viajar o mundo… O fato é que quando surgiram nas redes sociais estes movimentos neofeministas estranhei muuuuito. A princípio, achei uma coisa anacrônica. “Pra quê feminismo a esta altura do campeonato? Faz quase 70 anos que começaram a queimar sutiãs….”, pensava. Fui percebendo, porém, que estava olhando apenas pro meu umbigo de filha da classe média intelectualizada. As causas hoje são outras: há mais visibilidade sobre a violência física contra a mulher; ainda há as diferenças de salários; há até o tal do manexplanning, aquela mania cultural dos homens de ignorar o que as mulheres dizem, especialmente no trabalho. Aprendi muito lendo os posts das neofeministas, a maioria delas mais jovens do que eu. E sempre achei machista quem usava o termo feminazi, se referindo às mais radicais.

Só que, ultimamente, no facebook, tenho me deparado com tantas situações de radicalismo entre as feministas que estou começando a entender o que querem dizer com o termo feminazi. Feminazi deve ser quem odeia os homens, quem acha que eles não podem ser bons pais, quem hostiliza uma mulher que entra em suas Timelines pra falar da sua experiência positiva com seu parceiro que é um bom pai. E que pode chegar a dizer coisas como: “Volte para a sua família perfeita porque aqui é só pra quem não tem uma assim”. Feminazi também pode ser quem não consegue achar normal um casal terminar um relacionamento e conseguir construir uma boa relação de amizade e carinho (lembrou do texto do Gregório Duvivier sobre a ex-mulher na Folha? Tô falando dele mesmo). No fundo, desconfia sempre do amor.

Feminazi deve ser também- aprendi no face- quem acha que quase todo mundo é misógino, mesmo quem não o é. Que só as mulheres feministas prestam e todo o resto do mundo está errado sobre este tema “restrito a especialistas”. Deve ser quem não é tolerante com as ideias diferentes das suas. Quem segrega. Quem pensa que está segregando em nome do feminismo, mas, na verdade, está apenas segregando. E segregando junto com os machistas um monte de gente boa, que tá ali tentando entender a causa, tentando até se integrar a ela. Ser feminazi, acho que deve ser achar que só o radicalismo salva, quando, na verdade, é impossível crescer sem o mínimo de diálogo com a sociedade em que se vive. E é isso que tenho visto por aqui. E é isso que tem me chocado e entristecido. Mais, até mais que o radicalismo de Direita, porque este eu conheço desde a minha infância, filha de preso político que sou. Cresci ouvindo tudo sobre o mal que advém do Capitalismo Selvagem e das Ditaduras de Direita. Nada disso é novo pra mim, apesar de agora mostrado com dose extra de ódio na internet.


Isso não vale só pra algumas neofeministas. Vale também pra outros grupos de pessoas que resolvem que é necessário se segregar pra defender seus valores.

Sim, isso aqui é um desabafo. Mas espero que não seja encarado como as palavras de uma hater, pra usar mais um termo facebookiano. Sou cheia de opinião formada sobre tudo, I’ll give you that, como dizem os americanos. Mas ouço o outro lado. Gosto da discussão saudável, em alto nível, o mais alto que conseguirmos; não é nada fácil quando estamos com raiva. Espero, então, que estas palavras sirvam pra que discutamos mais e mais. Mas sempre nos lembrando que um dos traços do fascismo é justamente a falta de tolerância com o que nos parece estranho.

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“Aquárius”, a Resistência e o #ForaTemer

“Aquárius” é sobre resistência. Resistência ao establishment, resistência à violência dos grandes grupos econômicos, resistência à modernidade a todo custo. Uma Sônia Braga em estado de graça- que como ela própria já disse, voltou ao cinema brasileira por meio do filme- faz dos próprios cabelos longuíssimos um verdadeiro personagem do filme do pernambucano Kléber Mendonça Filho. O cineasta é o mesmo do premiado “O Som ao Redor”, e o mesmo que levou “Aquárius” ao Festival de Cannes e terminou, junto com toda a equipe, vinculando-o à então nascente onda do #ForaTemer.

Os cabelos de Sônia, ou de sua personagem, a jornalista escritora e estudiosa de música Clara, são enrolados por quase um longo minuto a cada vez que a pernambucana fica agoniada. Viram coques, ficam soltos, se molham na praia de Boa Viagem…assistidos pelo bombeiro salva-vidas, interpretado por Irandhir Santos, o Bento da novela “Velho Chico”, irreconhecível sem barba e com cabelos curtos e um dos melhores atores do Brasil hoje. Pois bem, os cabelos de Clara viram personagem nas mãos de Sônia a cada vez que ela tem que respirar fundo pra continuar resistindo às investidas cínicas dos donos da empreiteira que querem fazê-la vender seu velho apartamento. O “Aquárius” do filme é um prédio baixinho e sem elevador da Avenida mais cara de Recife e uma das mais elitizadas do País.

Sobrinha de uma revolucionária feminista e ela mesma sobrevivente de um câncer nos anos 80, Clara não tem a mínima intenção de abrir mão da vida que construiu ao longo dos últimos quarenta anos naquele agradável e antigo apartamento em frente à praia. E é claro que também é um personagem o próprio Edifício Aquárius, inspirado em um prédio verdadeiro que ainda sobrevive em meio aos edifícios altíssimos do bairro que hoje abriga os “Coxinhas” de Recife. Pernambucana no sangue, de pai e mãe, já fui com meus tios Tereza Sales e João Emanoel jantar no restaurante francês instalado no térreo do prédio verdadeiro. O edifício baixinho fica no fim de Boa Viagem, quase no Pina, o que explica muito sobre a personalidade de Clara.

Assim como minha tia socióloga, de quem me lembrei o tempo todo pelas semelhanças com a personagem e também entre os apartamentos das duas, Clara gosta de tomar seu banho de mar sozinha todos os dias em frente ao prédio. Idosa, mas sem parecer, conta com a proteção e a amizade do bombeiro que faz as vezes de salva-vidas. Sai da elitizada Boa Viagem e caminha pelo Pina que, como ela mesmo compara, é uma espécie de Leme, grudado com Copacabana e com apartamentos menos caros. Assim como minha tia e madrinha querida, Clara vai a pé até Brasília Teimosa, aquela favela que Lula e o então prefeito petista João Paulo (que pode voltar neste ano) urbanizaram no início do primeiro mandato. No seu mundo, Clara convive com as diferentes classes sociais e são os mais “simples” que terminam ajudando a salvá-la da encrenca em que se mete.

“Aquárius” também é sobre as mulheres e a terceira idade. As cenas de Clara com suas amigas da classe média recifense são impagáveis. As mulheres maduras e o sexo é outro subtema que Kléber explora como poucas vezes no cinema. Coisa de cinema francês, de um François Ozon, de “Oito Mulheres” e “Swimming Pool”. E o ritmo lento do filme, quase anacrônico, acompanha a pernambucanice das personagens. Como conheço mães de amigos pernambucanas com aquele ritmo tranquilo, quase malemolente. Que delícia!!

Recife Antigo
E as imagens? Qualquer pernambucano, seja coxinha ou mortadela, cairá aos pés das imagens de arquivo de Boa Viagem, desde a época em que os prédios baixinhos dominavam a paisagem até quando os edifícios quase arranha céus tomaram o lugar deles de vez. A pracinha da Igreja, os carros dos anos 80 (aaai, que saudades das minhas prévias de Carnaval, em que fazíamos Pit Stop no Recife Palace pra fazer xixi!!!), a Fri-Sabor (um, quero um sorvete de queijo agora!!), as músicas tocadas em fitas K7 nas areias da praia (Cláudia Freire, Bruno, Toninho e Nando, tocou até Queen, como em nossas madrugadas no Janga!!).

O fim de “Aquárius”- calma, sem spoilers aqui- é uma catarse e fecha a trama com ares de Buñuel, misturado com Fellini e, vá lá, até Pasolini. Que filme, minha gente, que filme!

Fora Temer
O tema, a resistência, já seria suficiente pra levar aos cinemas os protagonistas do #ForaTemer que tomaram as ruas em massa ontem. O fato de o filme ter sido censurado pelo governo do agora presidente, só reforçou a ligação de “Aquárius” com o pessoal que lutou contra o que considera um Golpe. Vi o filme no Cine Brasília, a meca do Festival de Brasília, a mais importante competição de filmes nacionais do País, onde manifestações políticas sobre filmes são lugar comum. Ainda nos créditos iniciais, ouviu-se o primeiro “Fora Temer”, entoado por boa parte da plateia. Quando apareceu o nome da Globofilmes, uma das patrocinadoras, começou o “Globo Golpista”. E quando se percebeu a presença de um jornalista das Organizações Globo dentro do cinema, até ele virou alvo. Foram quatro “Fora Temer” e muitos aplausos no final. O que poderia ter sido apenas uma manifestação do conhecido público do Cine Brasília – que vaiou o então global Rodrigo Santoro antes da exibição de “Bicho de Sete Cabeças” para no fim aplaudí-lo- se repetiu em outras salas de cinema da capital, a princípio menos políticas, como o Itaú Casa Park.

Ficou a certeza de que “Aquárius” é o filme certo na hora certa. O filme pra ser assistido no momento em que 100 mil pessoas vão às ruas para protestar contra o presidente que consideram usurpador. E os expectadores podem gritar com segurança, fazendo coro com Clara: “Vive la Résistence!!”.

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