“Aquárius”, a Resistência e o #ForaTemer

“Aquárius”, a Resistência e o #ForaTemer

“Aquárius” é sobre resistência. Resistência ao establishment, resistência à violência dos grandes grupos econômicos, resistência à modernidade a todo custo. Uma Sônia Braga em estado de graça- que como ela própria já disse, voltou ao cinema brasileira por meio do filme- faz dos próprios cabelos longuíssimos um verdadeiro personagem do filme do pernambucano Kléber Mendonça Filho. O cineasta é o mesmo do premiado “O Som ao Redor”, e o mesmo que levou “Aquárius” ao Festival de Cannes e terminou, junto com toda a equipe, vinculando-o à então nascente onda do #ForaTemer.

Os cabelos de Sônia, ou de sua personagem, a jornalista escritora e estudiosa de música Clara, são enrolados por quase um longo minuto a cada vez que a pernambucana fica agoniada. Viram coques, ficam soltos, se molham na praia de Boa Viagem…assistidos pelo bombeiro salva-vidas, interpretado por Irandhir Santos, o Bento da novela “Velho Chico”, irreconhecível sem barba e com cabelos curtos e um dos melhores atores do Brasil hoje. Pois bem, os cabelos de Clara viram personagem nas mãos de Sônia a cada vez que ela tem que respirar fundo pra continuar resistindo às investidas cínicas dos donos da empreiteira que querem fazê-la vender seu velho apartamento. O “Aquárius” do filme é um prédio baixinho e sem elevador da Avenida mais cara de Recife e uma das mais elitizadas do País.

Sobrinha de uma revolucionária feminista e ela mesma sobrevivente de um câncer nos anos 80, Clara não tem a mínima intenção de abrir mão da vida que construiu ao longo dos últimos quarenta anos naquele agradável e antigo apartamento em frente à praia. E é claro que também é um personagem o próprio Edifício Aquárius, inspirado em um prédio verdadeiro que ainda sobrevive em meio aos edifícios altíssimos do bairro que hoje abriga os “Coxinhas” de Recife. Pernambucana no sangue, de pai e mãe, já fui com meus tios Tereza Sales e João Emanoel jantar no restaurante francês instalado no térreo do prédio verdadeiro. O edifício baixinho fica no fim de Boa Viagem, quase no Pina, o que explica muito sobre a personalidade de Clara.

Assim como minha tia socióloga, de quem me lembrei o tempo todo pelas semelhanças com a personagem e também entre os apartamentos das duas, Clara gosta de tomar seu banho de mar sozinha todos os dias em frente ao prédio. Idosa, mas sem parecer, conta com a proteção e a amizade do bombeiro que faz as vezes de salva-vidas. Sai da elitizada Boa Viagem e caminha pelo Pina que, como ela mesmo compara, é uma espécie de Leme, grudado com Copacabana e com apartamentos menos caros. Assim como minha tia e madrinha querida, Clara vai a pé até Brasília Teimosa, aquela favela que Lula e o então prefeito petista João Paulo (que pode voltar neste ano) urbanizaram no início do primeiro mandato. No seu mundo, Clara convive com as diferentes classes sociais e são os mais “simples” que terminam ajudando a salvá-la da encrenca em que se mete.

“Aquárius” também é sobre as mulheres e a terceira idade. As cenas de Clara com suas amigas da classe média recifense são impagáveis. As mulheres maduras e o sexo é outro subtema que Kléber explora como poucas vezes no cinema. Coisa de cinema francês, de um François Ozon, de “Oito Mulheres” e “Swimming Pool”. E o ritmo lento do filme, quase anacrônico, acompanha a pernambucanice das personagens. Como conheço mães de amigos pernambucanas com aquele ritmo tranquilo, quase malemolente. Que delícia!!

Recife Antigo
E as imagens? Qualquer pernambucano, seja coxinha ou mortadela, cairá aos pés das imagens de arquivo de Boa Viagem, desde a época em que os prédios baixinhos dominavam a paisagem até quando os edifícios quase arranha céus tomaram o lugar deles de vez. A pracinha da Igreja, os carros dos anos 80 (aaai, que saudades das minhas prévias de Carnaval, em que fazíamos Pit Stop no Recife Palace pra fazer xixi!!!), a Fri-Sabor (um, quero um sorvete de queijo agora!!), as músicas tocadas em fitas K7 nas areias da praia (Cláudia Freire, Bruno, Toninho e Nando, tocou até Queen, como em nossas madrugadas no Janga!!).

O fim de “Aquárius”- calma, sem spoilers aqui- é uma catarse e fecha a trama com ares de Buñuel, misturado com Fellini e, vá lá, até Pasolini. Que filme, minha gente, que filme!

Fora Temer
O tema, a resistência, já seria suficiente pra levar aos cinemas os protagonistas do #ForaTemer que tomaram as ruas em massa ontem. O fato de o filme ter sido censurado pelo governo do agora presidente, só reforçou a ligação de “Aquárius” com o pessoal que lutou contra o que considera um Golpe. Vi o filme no Cine Brasília, a meca do Festival de Brasília, a mais importante competição de filmes nacionais do País, onde manifestações políticas sobre filmes são lugar comum. Ainda nos créditos iniciais, ouviu-se o primeiro “Fora Temer”, entoado por boa parte da plateia. Quando apareceu o nome da Globofilmes, uma das patrocinadoras, começou o “Globo Golpista”. E quando se percebeu a presença de um jornalista das Organizações Globo dentro do cinema, até ele virou alvo. Foram quatro “Fora Temer” e muitos aplausos no final. O que poderia ter sido apenas uma manifestação do conhecido público do Cine Brasília – que vaiou o então global Rodrigo Santoro antes da exibição de “Bicho de Sete Cabeças” para no fim aplaudí-lo- se repetiu em outras salas de cinema da capital, a princípio menos políticas, como o Itaú Casa Park.

Ficou a certeza de que “Aquárius” é o filme certo na hora certa. O filme pra ser assistido no momento em que 100 mil pessoas vão às ruas para protestar contra o presidente que consideram usurpador. E os expectadores podem gritar com segurança, fazendo coro com Clara: “Vive la Résistence!!”.

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