Peter Greenaway e a estética barroca

Peter Greenaway e a estética barroca

Quem era cinéfilo nos anos 80 se lembra bem dos filmes do cineasta inglês Peter Greenaway. Como esquecer “O Cozinheiro, o Ladrão, sua mulher e o amante”? Ou “Afogando em números”? Ou até “8 mulheres e meia”? Se eu fosse definir a obra de Greenaway em uma palavra ela seria Exuberância. E por que? Porque este inglês que cresceu em Essex decidiu aos três anos de idade que queria ser pintor quando crescesse. Na juventude, então, passou três anos estudando para ser muralista. Terminou virando cineasta, mas nunca deixou de lado o amor pelo apuro estético.

Os filmes de Peter Greenaway têm sempre elementos estéticos do Renascimento e/ou do Barroco. Cada ambiente se parece com um quadro. Móveis, roupas, talheres, tudo é detalhadamente escolhido para transportar o expectador a uma outra época. Greenaway também usa a luz natural para suas verdadeiras pinturas em movimento. “O Cozinheiro, o Ladrão, sua mulher e o amante”, que é o filme mais conhecido de Greenaway, é um símbolo deste cuidado com os detalhes. Foi o filme que o levou a virar um queridinho dos amantes do cinema no final dos anos 80.

Quem viu vai poder rever, quem não viu vai poder ver a grande maioria dos filmes de Peter Greenaway na Mostra do Centro Cultural Banco do Brasil, o CCBB, em Brasília, no Rio e em São Paulo. Em Brasília, a mostra vai de 26 de outubro, esta quarta-feira, até 21 de novembro. A mostra se concentra nos longa-metragens, infelizmente, pra gente como eu que já viu a maior parte deles. Sim, porque Greenaway começou a carreira no Central Office of Cinema, da Inglaterra, onde, ainda nos anos 60, foi editor e diretor de uma série de filmes experimentais.

Cores fortes e surrealismo
Em “O Cozinheiro…” Greenaway usa cores bem definidas para demarcar cada ambiente do filme. A parte externa do restaurante é azul, a cozinha é verde, o salão é vermelho e os banheiros brancos. O figurino – e os cigarros – dos personagens principais, vividos por Helen Mirren e Michael Gambon, mudam de acordo com o local em que eles estão.

Na história, a mulher de um criminoso se envolve com um dos clientes do restaurante do marido. É um filme bem surrealista, como a maior parte das produções do Greenaway. O exagero do roteiro é intensificado pela loucura dos figurinos e dos cenários que parecem mesmo com quadros de pintores barrocos.

“O Cozinheiro…” é de 1989. Um ano antes, Greenaway tinha lançado “Afogando em Números”, em que uma mulher afoga o próprio marido numa piscina.

Aqui no Brasil, a gente foi vendo os filmes anteriores ao Cozinheiro depois que este fez sucesso. Outro deles, de 87, é o interessante “A Barriga do Arquiteto”. Um arquiteto americano chega à Itália para supervisionar a exposição de um arquiteto francês que é famoso pelas suas estruturas arredondadas. Ele começa, então, a ficar obcecado pela própria barriga, tem dor de estômago, perde a mulher e um monte de outras coisas ao longo da história, marcadamente surreal.

São vários os filmes interessantes do Greenaway, impossível citar todos. Mas o último a que eu assisti foi “Que viva Eisenstein- 10 dias que abalaram o México”. Esta é uma produção bem recente, de 2015, e é a visão do diretor inglês sobre o tempo em que o grande cineasta russo Sergei Eisenstein, de “Outubro” e “O Encouraçado Potemkin”, passou no México.

O filme mistura as referências de história do cinema com detalhes da vida pessoal do diretor russo, que era homossexual. Há várias cenas eróticas. Peter Greenaway está preparando uma continuação deste filme que vai se chamar “Eisenstein em Hollywood”.

Ver ou rever os já clássicos filmes de Peter Greenaway é um programa imperdível pra qualquer pessoa que goste de cinema.

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