Posts made in novembro, 2016

O medo pós-Snowden

Quem sai do cinema depois de assistir a “Snowden”, sai com medo. Não é terror, mas é assustador. Saem vampiros e zumbis e entra a realidade. O filme transmite a verdadeira dimensão da espionagem perpetrada pelo governo dos Estados Unidos, a maior potência econômica do mundo, em outros governos, como o do Brasil, na vida pessoal de cidadãos como você e eu. O expectador vê como seus e-mails, suas mensagens no facebook, seus telefonemas, todas as formas de comunicação modernas, podem ser, e são, rackeadas pela CIA, pela NSA, a Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos e por outros braços da Inteligência americana.

O filme começa mostrando como o jovem Edward Snowden é nacionalista, dedicado ao trabalho e tem o sonho de servir seu país. Primeiro ele entra no Exército e, depois de um acidente, resolve tentar entrar na CIA. Lá dentro, logo sua incrível capacidade de criar programas de computador é reconhecida e é um pulo até que ele alcance uma posição importante nos serviços de Inteligência.

Não demora tanto para Snowden descobrir que o Sistema não era regido pelos altos princípios em que ele sempre acreditou. Aos poucos, ele mesmo é levado a espionar, raquear, usar programas sigilosos… Enfim, vê que o objetivo do governo americano vai muito além de caçar terroristas. O interesse, mesmo na Era Obama, é econômico. Estão no filme a Petrobras, a então presidente Dilma, isso pra falar só do Brasil.

“Snowden” é contado em flash back. Na primeira sequência, o ex-agente secreto americano já aparece em Hong Kong, pronto para conhecer os jornalistas Glenn Greenwald, na época do jornal The Guardian, da Inglaterra, e Laura Poitras, que depois dirigiria o filme “Citizenfour”, que terminou ganhando o Oscar de melhor Documentário. Os dois iriam mostrar ao mundo todas as revelações de Snowden e os bastidores do encontro entre eles.

Os jornalistas costumam associar Oliver Stone a “Nascido em 4 de Julho”, mas dois outros filmes dele foram mais marcantes pra mim. O primeiro foi “Platoon”, o filme que retratou com maior realismo até então os horrores da Guerra do Vietnã. Mostrava o sofrimento dos soldados, a dificuldade com que eles enfrentaram o esquema de túneis criado pelos vietnamitas, e de quebra revelou Johnny Depp. O segundo é a cinebiografia dos Doors, a banda californiana que tinha Jim Morrison como cantor e letrista. Stone conseguiu “transformar” o feioso Val Kilmer no lindo Jim Morrison, mudando seus trejeitos e mostrou a importância de Ray Manzarek, o tecladista que inventou a banda. Ali, Oliver Stone se forjou como biógrafo, o que ele faz de novo agora com “Snowden”. Na foto abaixo, ele aparece com Joseph Gordon Levitt, que está muito bem no papel de Snowden; e Shailene Woodley, que faz sua namorada. O elenco também conta com Melissa Leo, que já ganhou um Oscar, e Nicholas Cage faz uma participação especial interessante.

Jornalismo
Pra quem é jornalista ou gosta de jornalismo, o filme tem um plus: mostrar o trabalho de Gleen Greenwald, que terminou ganhando o Pulitzer e também o prêmio Esso no Brasil. Depois, Greenwald sairia do Guardian para co-criar o site The Intercept, que tem versões em português e em inglês e que ele produz daqui do Brasil, onde mora com o marido há 12 anos.

Agora no início de dezembro, a TV Câmara, vai mostrar uma entrevista que eu fiz com Greenwald para o programa Ponto de Vista. Ele me deu alguns detalhes de como aconteceu o contato de Snowden com ele, como ele custou a acreditar em toda aquela história de espionagem internacional feita pelos Estados Unidos. O filme resume este contato. Mas mostra o esforço de Glenn pra “vender” a matéria pro próprio jornal, pra convencer a editora-chefe da importância de publicar logo, antes que a CIA interferisse.

Inimigo
Claro que o filme também mostra a história pessoal do Snowden, com sua namorada de muito tempo e os conflitos causados pelo fato de ele não poder revelar quase nada sobre seu trabalho. É um thriller, porque há o suspense em torno de como ele vai conseguir levar aquelas informações pra fora dos Estados Unidos e de como ele vai viver a partir das revelações, sendo considerado por muitos americanos um inimigo de seu próprio País. Aliás, no Brasil o filme ganhou o nome de “Snowden, herói ou traidor”.
Uma coisa é certa: ao assistir a “Snowden”, você nunca mais vai acessar o facebook do mesmo jeito…

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“Cícero Dias- o compadre de Picasso”, Vladimir e o tempo

Vladimir Carvalho não é um mestre do Documentário à toa. Uma das características que marcam uma parte da sua obra é a paciência de esperar para montar e lançar um filme. Talvez uma característica adquirida nas décadas de 80 e 90, quando não havia dinheiro suficiente para finalizar os filmes. Pois bem, “Cícero Dias- o compadre de Picasso”, que entra em cartaz nesta semana em Brasília e em outras capitais do País, é fruto justamente desta paciência.

O famoso pintor pernambucano Cícero Dias começou fazendo quadros oníricos inspirados em Chagall, quando ainda morava em Recife. Fez seu nome na conservadora capital pernambucana dos anos 30 com estes quadros figurativos. Quando se mudou para Paris, sob o impacto de modernistas como Braque e Picasso, foi aos poucos migrando para a abstração. Picasso se tornou um de seus melhores amigos.

De volta a Recife, viu sua obra ser severamente criticada pelos jornalistas locais.

Sempre com a fotografia do irmão, Walter Carvalho, um dos maiores diretores de fotografia do Brasil e reconhecido mundo afora, Vladimir Carvalho mostra imagens lindas das três cidades em que Cícero Dias viveu e trabalhou: Recife, Rio e Paris. Mescla filmagens mais novas com imagens de arquivo de Paris, Recife e Rio, da primeira metade do século XX, como fotos de Cícero convivendo com os pintores europeus. Há entrevistas que o cineasta fez com Cícero, gravações com pintores que já morreram, entrevistas mais recentes, como a feita com a viúva do pintor… Muita coisa gravada ao longo de décadas e que foi sendo guardada para um dia virar o sonhado filme.

Intervalos
Vladimir Carvalho foi meu professor de Cinema Brasileiro no fim dos anos 80 na Universidade de Brasília. Era uma época em que víamos trechos dos filmes que ele já tinha feito antes, como “O País de São Saruê”. Mas ficávamos sempre pensando o que ele estaria filmando naquela época. Talvez nada. Talvez estivesse justamente num destes intervalos que também ajudam a dar perspectiva temporal às histórias que conta.

Lembra-se de “Rock Brasília”, que estreou em 2011? Havia ali entrevistas feitas com Renato Russo e Herbert Viana ainda nos anos 80. Imagens de shows também gravadas naquela época. Outras entrevistas foram feitas muito tempo depois. Estes gaps de tempo enriquecem um documentário porque mostram visões sobre um tema que vão se modificando com o passar dos anos, das décadas.

No último Festival de Brasília, em setembro passado, Vladimir ganhou o Troféu Câmara Legislativa de Melhor Diretor e de Melhor Roteiro pelo lindo “Cícero Dias- o compadre de Picasso”. E quando entrar em cartaz, no dia 10 de novembro, quinta-feira da semana que vem, se transformará num programa imperdível.

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