“Cícero Dias- o compadre de Picasso”, Vladimir e o tempo

“Cícero Dias- o compadre de Picasso”, Vladimir e o tempo

Vladimir Carvalho não é um mestre do Documentário à toa. Uma das características que marcam uma parte da sua obra é a paciência de esperar para montar e lançar um filme. Talvez uma característica adquirida nas décadas de 80 e 90, quando não havia dinheiro suficiente para finalizar os filmes. Pois bem, “Cícero Dias- o compadre de Picasso”, que entra em cartaz nesta semana em Brasília e em outras capitais do País, é fruto justamente desta paciência.

O famoso pintor pernambucano Cícero Dias começou fazendo quadros oníricos inspirados em Chagall, quando ainda morava em Recife. Fez seu nome na conservadora capital pernambucana dos anos 30 com estes quadros figurativos. Quando se mudou para Paris, sob o impacto de modernistas como Braque e Picasso, foi aos poucos migrando para a abstração. Picasso se tornou um de seus melhores amigos.

De volta a Recife, viu sua obra ser severamente criticada pelos jornalistas locais.

Sempre com a fotografia do irmão, Walter Carvalho, um dos maiores diretores de fotografia do Brasil e reconhecido mundo afora, Vladimir Carvalho mostra imagens lindas das três cidades em que Cícero Dias viveu e trabalhou: Recife, Rio e Paris. Mescla filmagens mais novas com imagens de arquivo de Paris, Recife e Rio, da primeira metade do século XX, como fotos de Cícero convivendo com os pintores europeus. Há entrevistas que o cineasta fez com Cícero, gravações com pintores que já morreram, entrevistas mais recentes, como a feita com a viúva do pintor… Muita coisa gravada ao longo de décadas e que foi sendo guardada para um dia virar o sonhado filme.

Intervalos
Vladimir Carvalho foi meu professor de Cinema Brasileiro no fim dos anos 80 na Universidade de Brasília. Era uma época em que víamos trechos dos filmes que ele já tinha feito antes, como “O País de São Saruê”. Mas ficávamos sempre pensando o que ele estaria filmando naquela época. Talvez nada. Talvez estivesse justamente num destes intervalos que também ajudam a dar perspectiva temporal às histórias que conta.

Lembra-se de “Rock Brasília”, que estreou em 2011? Havia ali entrevistas feitas com Renato Russo e Herbert Viana ainda nos anos 80. Imagens de shows também gravadas naquela época. Outras entrevistas foram feitas muito tempo depois. Estes gaps de tempo enriquecem um documentário porque mostram visões sobre um tema que vão se modificando com o passar dos anos, das décadas.

No último Festival de Brasília, em setembro passado, Vladimir ganhou o Troféu Câmara Legislativa de Melhor Diretor e de Melhor Roteiro pelo lindo “Cícero Dias- o compadre de Picasso”. E quando entrar em cartaz, no dia 10 de novembro, quinta-feira da semana que vem, se transformará num programa imperdível.

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