“Trama Fantasma”, “Corra”, “Me Chame pelo seu Nome”, “A Forma da Água” e os 700 novos membros da Academia

“Trama Fantasma”, “Corra”, “Me Chame pelo seu Nome”, “A Forma da Água” e os 700 novos membros da Academia

Atenção: Spoilers! Texto pra quem já viu os filmes


O Oscar já passou, alguns filmes já saíram de cartaz, muita gente já os viu, então, é hora de falarmos com mais detalhes sobre alguns deles e o que isso tem a ver com a renovação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, aquela que, há 90 anos, escolhe pra quem vão as cobiçadas estatuetas douradas.

Nos últimos anos, a Academia, que no ano 2000 tinha mais de 5 mil membros votantes, ganhou outros 2 mil e chegou a mais de 7 mil integrantes. Mais de 700 entraram só no último ano. Uma boa parte é composta de negros, outra boa parcela de mulheres. A Academia, criada nos anos 1920, resolveu se renovar pra fazer frente ao clamor de atrizes, roteiristas, integrantes negros e imigrantes por um Oscar, e uma indústria, mais inclusivos. O sucesso de “Pantera Negra”, blockbuster da Marvel protagonizado por personagens e atores afro-americanos e africanos, que bateu muitos outros filmes de herois nas bilheterias, também ajudou a abrir os olhos dos organizadores da maior festa da indústria americana. E nem é preciso falar do movimento Time’s Up, que tirou literalmente do cinema nomes como o mega produtor Harvey Weinstein e o ator Kevin Spacey, acusados por vários atores e atrizes de abuso sexual.

O Oscar se modernizou. Claro que não foi de repente. Mas esta edição mostrou que os tempos são outros. Na festa de anteontem, um afro-americano ganhou o primeiro prêmio por roteiro original (Jordan Peele, de Corra!); uma atriz transexual interpretou o filme que ganhou na categoria Melhor Filme Estrangeiro e apresentou um prêmio (Daniela Vega); três atrizes que acusaram Weinstein por abusá-las subiram ao palco para apresentar um vídeo de protesto; a vencedora de atriz principal (Frances McDormand) fez todas as indicadas na plateia se levantarem e pediu para que fossem ouvidas; e o prêmio de melhor diretor e filme foi para um mexicano (Guillermo Del Toro), de novo!!!

Medos
Os filmes concorrentes também dizem muito sobre esta edição de número 90 do Oscar. “A Forma da Água” não é só uma fantasia sobre o improvável amor entre uma moça muda e um monstro marinho, como muitos de seus detratores vêm dizendo. É uma representação do medo do desconhecido. Passado em plena Guerra Fria, é uma metáfora lindamente construída por um mexicano (que coisa, hein?!) sobre o medo que seus vizinhos americanos têm do que é diferente. O monstro marinho, aliás encontrado na nossa Amazônia, pode representar os comunistas, os afro-americanos lá nos anos 50, assim como hoje pode muito bem representar os imigrantes que o presidente Trump quer deportar pra lá do muro que começa a construir. É também uma história de amor e compaixão ao próximo. Será à tôa que quem ajuda a moça muda, abusada no passado, são justamente um homossexual e uma negra?

Mais medo
“Corra!” é revolucionário na forma como faz um filme que parecia apenas mais um suspense se transformar numa fortíssima denúncia contra o racismo. É um tapa na cara do espectador. Você começa achando apenas que algo está estranho e descobre que todas as pessoas brancas do filme são vilões de uma trama macabra que embranquece e anula todas as suas vítimas negras. Sensacional! Se ganhasse a estatueta principal não me surpreenderia. E seria uma zebra muito comemorada, pelo que vi nos comentários de jornalistas e atores, especialmente negros, no tapete vermelho.

“Me Chame pelo seu Nome” também inova ao conseguir fazer uma história de amor homossexual quase perder o caráter de protesto, de mostrar a preocupação dos personagens com a aprovação da relação entre duas pessoas do mesmo sexo. É tão natural, tão belo, envolto numa atmosfera de música, filosofia, flores… seria lindo mesmo que fosse uma história de amor entre um homem e uma mulher. A história do primeiro amor. Eu, que sou hétero, me lembrei de mim mesma. Me lembrei da minha adolescência. Das dores e delícias desta época difícil da vida. Mas sim, é também um filme sobre as dificuldades de um relacionamento entre dois homens, em 1983. Uma época de muito mais preconceito que a atual, mesmo antes do medo da Aids entrar na equação.

Sopros de Hitchcock
Finalmente chego ao fantástico “Trama Fantasma”, que, no Oscar, só ganhou Melhor Figurino. O filme, do diretor americano Paul Thomas Anderson, de “Boogie Nights”, “Magnólia” e outros, ainda é avançado demais pros acadêmicos, provavelmente. Tem toda a cara de uma produção europeia, com sua lentidão, seus planos fechados nos rostos dos personagens, especialmente do ator que se despede das telas, Daniel Day-Lewis, indicado a melhor ator de novo. Anderson partiu do nada pra construir a história do costureiro inglês cortejado pelas mulheres da alta sociedade e dono de uma rotina quase imutável. Como em vários filmes que já vimos, ele conhece Alma, uma moça do interior que vai mudar sua vida. Só que a personagem vivida por Vicky Krieps (fantástica e lamentavelmente esquecida pelos acadêmicos) não é igual às outras. Ela ama, ela cuida, mas ela não se submete aos caprichos do costureiro famoso. No começo, até que sim.

Mas o filme é longo o suficiente pra dar tempo desta relação ir mudando. Alma descobre que terá que tomar medidas drásticas para conseguir controlar de vez seu amor. E encontra nos cogumelos do bosque o veneno necessário para fazê-lo adoecer a ponto de precisar dela, só dela. Uma história onde o amor precisa da crueldade para acontecer de forma plena. Um desfecho genial! Vira o filme de cabeça pra baixo. Que venham outros filmes como estes! Que venham outros Oscars como este!

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241 Comentários

  1. Roberto José Fraga Moreira Jr |

    Comi um trecho.. “Muito embora o monstro marinho seja …”

  2. Roberto José Fraga Moreira Jr |

    Excelente artigo!

    Adorei, Mariana.

    Sou um fã das antigas de Del Toro. Ele possui um dom especial para tornar histórias bizarras atraentes. Achei A Forma da Água um filme sensacional, muito embora seja praticamente idêntico ao Abe Sapiens de outro filme dirigido por ele (Hellboy).

    • É. Ele é muito bom. O Labirinto é incrível!! Por isso, acharam este Holywoodianizado. É bem mais leve mesmo. Não me lembro do Abe Sapiens, embora tenha visto Hellboy. Mas todo mundo tá dizendo q são muito parecidos os monstros.

  3. Eliane. Breitenbach |

    Gostei muito da sua análise ! De muita sensibilidade !!

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