Publicado por Mariana

O facebook, os amigos, os fascistas e as “feminazis”

Nunca agradeci suficientemente a Mark Zuckenberg e seu amigo brasileiro pelas amizades que fiz no facebook. Já tinha agradecido, via face mesmo, pelos amigos da vida real que este meio virtual me permitiu achar, até mesmo minha “família americana”, que me recebeu em Michigan em 1985 e com quem perdera o contato. Pois hoje posso dizer que fiz amigos por meio do face. Alguns continuam somente amigos virtuais, com quem falo quase todo dia ali; outros eu transportei do mundo virtual também para o mundo físico. E sou muuuito feliz com alguns desses amigos que fiz no face, inbox, outbox… São amizades verdadeiras, tenho certeza disso.

Mas há um lado nefasto nisso tudo. Na letra fria da linguagem escrita, as discussões ficam mais acirradas por causa da falta de filtro proporcionada pela distância entre os interlocutores. Talvez por isso mesmo são até mais reais: muitos se sentem mais livres para dizer o que pensam. Isso já virou até tese acadêmica. Os mais tímidos, em especial, ou os que têm mais dificuldade de expressar seus pontos de vista sobre temas controversos na base do cara a cara, encontram na rede um ótimo escudo. Escudo que também pode ser arma. Pela minha já vasta experiência de campo no face, eu diria até que este grupo é majoritário, infelizmente. Infelizmente porque esta separação entre os interlocutores- a providencial distância- faz com que aflorem os sentimentos que o ser humano mais tenta esconder nas relações interpessoais “normais”: raiva, ódio, inveja, ressentimento, vontade – e oportunidade- de se vingar.

Sim, infelizmente, tenho visto cada vez mais isso no face. Tudo isso me assusta porque sempre fui uma pessoa de falar muito. Sofro de excesso de sinceridade desde que me conheço por gente. Falo muito de política, religião, futebol… qualquer coisa que as pessoas costumam dizer que não se discute. Elogio muito, mas também critico. Enfim, sou virginiana. A amiga mais fiel, mas a crítica mais sincera. Ou seja, tenho este defeito já aqui fora. Portanto, pra mim, falar no face ou fora do face é praticamente a mesma coisa…

Tenho visto nas páginas do facebook amigos que começam a discutir a relação por escrito, vomitando coisas sobre o outro como se não houvesse amanhã… surpreendendo amigos que não tinham ideia de que ele, ou ela, pensasse daquele jeito. Tenho visto também o que todos os meus novos amigos da esquerda chamam de fascismo: um monte de pessoas que usam até defeitos físicos de políticos pra insultá-los, como se defeito físico fosse um insulto… (Na cabeça deles deve ser, né?) Tenho visto muuuita ironia descuidada, que, na palavra escrita, pode ser totalmente mal compreendida… Tenho visto ignorância, prepotência, direitismo explícito, fascismo mesmo. E tenho visto exageros totalmente inesperados do outro lado também, no que seria a Esquerda, no que deveria ser o lado onde se encontra tolerância.

Feministas e “Feminazis”
Explico-me melhor: já nasci feminista porque meu pai e minha mãe já eram feministas nos ano 60. Sociólogos, conheceram Simone de Beauvoir e Sartre quando eles visitaram Recife. Eu e minha irmã fomos criadas pra ser profissionais independentes a tal ponto que levei um susto quando fui pedida em casamento aos 21 anos. Imagine, antes disso, ainda tinha que namorar outras pessoas, fazer mestrado, doutorado, viajar o mundo… O fato é que quando surgiram nas redes sociais estes movimentos neofeministas estranhei muuuuito. A princípio, achei uma coisa anacrônica. “Pra quê feminismo a esta altura do campeonato? Faz quase 70 anos que começaram a queimar sutiãs….”, pensava. Fui percebendo, porém, que estava olhando apenas pro meu umbigo de filha da classe média intelectualizada. As causas hoje são outras: há mais visibilidade sobre a violência física contra a mulher; ainda há as diferenças de salários; há até o tal do manexplanning, aquela mania cultural dos homens de ignorar o que as mulheres dizem, especialmente no trabalho. Aprendi muito lendo os posts das neofeministas, a maioria delas mais jovens do que eu. E sempre achei machista quem usava o termo feminazi, se referindo às mais radicais.

Só que, ultimamente, no facebook, tenho me deparado com tantas situações de radicalismo entre as feministas que estou começando a entender o que querem dizer com o termo feminazi. Feminazi deve ser quem odeia os homens, quem acha que eles não podem ser bons pais, quem hostiliza uma mulher que entra em suas Timelines pra falar da sua experiência positiva com seu parceiro que é um bom pai. E que pode chegar a dizer coisas como: “Volte para a sua família perfeita porque aqui é só pra quem não tem uma assim”. Feminazi também pode ser quem não consegue achar normal um casal terminar um relacionamento e conseguir construir uma boa relação de amizade e carinho (lembrou do texto do Gregório Duvivier sobre a ex-mulher na Folha? Tô falando dele mesmo). No fundo, desconfia sempre do amor.

Feminazi deve ser também- aprendi no face- quem acha que quase todo mundo é misógino, mesmo quem não o é. Que só as mulheres feministas prestam e todo o resto do mundo está errado sobre este tema “restrito a especialistas”. Deve ser quem não é tolerante com as ideias diferentes das suas. Quem segrega. Quem pensa que está segregando em nome do feminismo, mas, na verdade, está apenas segregando. E segregando junto com os machistas um monte de gente boa, que tá ali tentando entender a causa, tentando até se integrar a ela. Ser feminazi, acho que deve ser achar que só o radicalismo salva, quando, na verdade, é impossível crescer sem o mínimo de diálogo com a sociedade em que se vive. E é isso que tenho visto por aqui. E é isso que tem me chocado e entristecido. Mais, até mais que o radicalismo de Direita, porque este eu conheço desde a minha infância, filha de preso político que sou. Cresci ouvindo tudo sobre o mal que advém do Capitalismo Selvagem e das Ditaduras de Direita. Nada disso é novo pra mim, apesar de agora mostrado com dose extra de ódio na internet.


Isso não vale só pra algumas neofeministas. Vale também pra outros grupos de pessoas que resolvem que é necessário se segregar pra defender seus valores.

Sim, isso aqui é um desabafo. Mas espero que não seja encarado como as palavras de uma hater, pra usar mais um termo facebookiano. Sou cheia de opinião formada sobre tudo, I’ll give you that, como dizem os americanos. Mas ouço o outro lado. Gosto da discussão saudável, em alto nível, o mais alto que conseguirmos; não é nada fácil quando estamos com raiva. Espero, então, que estas palavras sirvam pra que discutamos mais e mais. Mas sempre nos lembrando que um dos traços do fascismo é justamente a falta de tolerância com o que nos parece estranho.

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“Aquárius”, a Resistência e o #ForaTemer

“Aquárius” é sobre resistência. Resistência ao establishment, resistência à violência dos grandes grupos econômicos, resistência à modernidade a todo custo. Uma Sônia Braga em estado de graça- que como ela própria já disse, voltou ao cinema brasileira por meio do filme- faz dos próprios cabelos longuíssimos um verdadeiro personagem do filme do pernambucano Kléber Mendonça Filho. O cineasta é o mesmo do premiado “O Som ao Redor”, e o mesmo que levou “Aquárius” ao Festival de Cannes e terminou, junto com toda a equipe, vinculando-o à então nascente onda do #ForaTemer.

Os cabelos de Sônia, ou de sua personagem, a jornalista escritora e estudiosa de música Clara, são enrolados por quase um longo minuto a cada vez que a pernambucana fica agoniada. Viram coques, ficam soltos, se molham na praia de Boa Viagem…assistidos pelo bombeiro salva-vidas, interpretado por Irandhir Santos, o Bento da novela “Velho Chico”, irreconhecível sem barba e com cabelos curtos e um dos melhores atores do Brasil hoje. Pois bem, os cabelos de Clara viram personagem nas mãos de Sônia a cada vez que ela tem que respirar fundo pra continuar resistindo às investidas cínicas dos donos da empreiteira que querem fazê-la vender seu velho apartamento. O “Aquárius” do filme é um prédio baixinho e sem elevador da Avenida mais cara de Recife e uma das mais elitizadas do País.

Sobrinha de uma revolucionária feminista e ela mesma sobrevivente de um câncer nos anos 80, Clara não tem a mínima intenção de abrir mão da vida que construiu ao longo dos últimos quarenta anos naquele agradável e antigo apartamento em frente à praia. E é claro que também é um personagem o próprio Edifício Aquárius, inspirado em um prédio verdadeiro que ainda sobrevive em meio aos edifícios altíssimos do bairro que hoje abriga os “Coxinhas” de Recife. Pernambucana no sangue, de pai e mãe, já fui com meus tios Tereza Sales e João Emanoel jantar no restaurante francês instalado no térreo do prédio verdadeiro. O edifício baixinho fica no fim de Boa Viagem, quase no Pina, o que explica muito sobre a personalidade de Clara.

Assim como minha tia socióloga, de quem me lembrei o tempo todo pelas semelhanças com a personagem e também entre os apartamentos das duas, Clara gosta de tomar seu banho de mar sozinha todos os dias em frente ao prédio. Idosa, mas sem parecer, conta com a proteção e a amizade do bombeiro que faz as vezes de salva-vidas. Sai da elitizada Boa Viagem e caminha pelo Pina que, como ela mesmo compara, é uma espécie de Leme, grudado com Copacabana e com apartamentos menos caros. Assim como minha tia e madrinha querida, Clara vai a pé até Brasília Teimosa, aquela favela que Lula e o então prefeito petista João Paulo (que pode voltar neste ano) urbanizaram no início do primeiro mandato. No seu mundo, Clara convive com as diferentes classes sociais e são os mais “simples” que terminam ajudando a salvá-la da encrenca em que se mete.

“Aquárius” também é sobre as mulheres e a terceira idade. As cenas de Clara com suas amigas da classe média recifense são impagáveis. As mulheres maduras e o sexo é outro subtema que Kléber explora como poucas vezes no cinema. Coisa de cinema francês, de um François Ozon, de “Oito Mulheres” e “Swimming Pool”. E o ritmo lento do filme, quase anacrônico, acompanha a pernambucanice das personagens. Como conheço mães de amigos pernambucanas com aquele ritmo tranquilo, quase malemolente. Que delícia!!

Recife Antigo
E as imagens? Qualquer pernambucano, seja coxinha ou mortadela, cairá aos pés das imagens de arquivo de Boa Viagem, desde a época em que os prédios baixinhos dominavam a paisagem até quando os edifícios quase arranha céus tomaram o lugar deles de vez. A pracinha da Igreja, os carros dos anos 80 (aaai, que saudades das minhas prévias de Carnaval, em que fazíamos Pit Stop no Recife Palace pra fazer xixi!!!), a Fri-Sabor (um, quero um sorvete de queijo agora!!), as músicas tocadas em fitas K7 nas areias da praia (Cláudia Freire, Bruno, Toninho e Nando, tocou até Queen, como em nossas madrugadas no Janga!!).

O fim de “Aquárius”- calma, sem spoilers aqui- é uma catarse e fecha a trama com ares de Buñuel, misturado com Fellini e, vá lá, até Pasolini. Que filme, minha gente, que filme!

Fora Temer
O tema, a resistência, já seria suficiente pra levar aos cinemas os protagonistas do #ForaTemer que tomaram as ruas em massa ontem. O fato de o filme ter sido censurado pelo governo do agora presidente, só reforçou a ligação de “Aquárius” com o pessoal que lutou contra o que considera um Golpe. Vi o filme no Cine Brasília, a meca do Festival de Brasília, a mais importante competição de filmes nacionais do País, onde manifestações políticas sobre filmes são lugar comum. Ainda nos créditos iniciais, ouviu-se o primeiro “Fora Temer”, entoado por boa parte da plateia. Quando apareceu o nome da Globofilmes, uma das patrocinadoras, começou o “Globo Golpista”. E quando se percebeu a presença de um jornalista das Organizações Globo dentro do cinema, até ele virou alvo. Foram quatro “Fora Temer” e muitos aplausos no final. O que poderia ter sido apenas uma manifestação do conhecido público do Cine Brasília – que vaiou o então global Rodrigo Santoro antes da exibição de “Bicho de Sete Cabeças” para no fim aplaudí-lo- se repetiu em outras salas de cinema da capital, a princípio menos políticas, como o Itaú Casa Park.

Ficou a certeza de que “Aquárius” é o filme certo na hora certa. O filme pra ser assistido no momento em que 100 mil pessoas vão às ruas para protestar contra o presidente que consideram usurpador. E os expectadores podem gritar com segurança, fazendo coro com Clara: “Vive la Résistence!!”.

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Sônia Pinto e o guarda-roupa que não é pra qualquer uma

Conheci as roupas de Sônia Pinto quando minha amiga Mayla di Martino, não por acaso mineira, me apresentou a elas na loja multimarcas Dona Coisa, no Jardim Botânico, Rio. A Dona Coisa não é uma multimarcas qualquer, só entram lá designers brasileiros superlegais, muito criativos, que produzem roupas normalmente bem diferentes do que se encontra nas lojas por aí. E assim é Sônia Pinto. “Ela é mineira, mas vende mais pra paulistas que pra cariocas”, me disse Mayla, ela mesma fã da marca e dona de um guarda roupas cheio de peças largas, molinhas e enviesadas e de cores neutras. Naquele dia de janeiro passado, comprei uma maxi-camiseta preta de malha grossa e supermacia, com aplicações de tule preto e cinza que vão até o chão. No meu caso, pouco mais e 1m60, só dá pra usar de salto alto, se não, arrasta no chão. É uma peça linda, mas foi a única porque as roupas de Sônia são todas feitas a mão e, atualmente, exclusivamente com tecidos importados- segundo ela, por causa da crise da indústria brasileira. Por isso, custam caro.

Pois bem, noutro dia, estou aqui em Brasília olhando o facebook e me deparo com um anúncio: Sônia Pinto está montando na cidade um pop up store com sua nova coleção. Pulei de alegria. Sônia saíra da Dona Coisa poucos meses depois de eu conhecer seu trabalho lá e só mantivera a loja que tem nos Jardins, em São Paulo. Nas demais cidades, inclusive as de sua Minas natal, está presente apenas por meio destas lojas provisórias. Era uma oportunidade, portanto!

Aqui, a loja foi montada no Hélio Diffusion da QI 8 do Lago Sul. O legal é que ali, depois dos meninos me mostrarem as peças pretas, brancas e cinzas- nada de concessões às cores nesta coleção-, cheias de assimetrias e reentrâncias, e muito mais retas do que grudadas no corpo, a própria Sônia me atendeu. Foi a estilista quem, pessoalmente, me sugeriu formas de vestir suas calças, vestidos, camisas com sobreposições e casacos tão únicos, mas que conseguem ser, ao mesmo tempo, tão clássicos. E suas saias assimétricas, como esta da foto abaixo.

Uma camisa branca fica diferente porque o tecido é amassado, inclusive o da gola, que fica fofa. Um casaco tem várias formas de se abotoar.

Uma saia preta mídi, tão em voga no momento, leva a assinatura de Sônia Pinto porque um lado é mais comprido que o outro e a cintura é alinhavada por um lindo laço à antiga. O tecido de uma das que levei pra casa? Chantung. Nada menos. Claro que aproveitei a oportunidade e fiz umas perguntinhas a Sônia aqui pra Escritos do Ócio. O principal: por que sua roupa e seus sapatos (sim, os sapatos também são muito especiais!) não são para qualquer mulher. Ela respondeu com gosto.

 (Trabalhos técnicos de Edição: Marco Couto)

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Almodóvar e o Melodrama

Fazia uns 10 anos que eu não assistia a um filme de Pedro Almodóvar. Parei depois de “Fale com Ela”. Não, não me deixei levar pelo apelo de que foi o estupro que fez com que a moça em coma voltasse à vida. Muitas amigas e amigos, e parte da crítica também- adoraram o filme por causa dessa sutiliza. Tá bom, Almodóvar conseguiu recorrer a uma sutiliza, vá lá, dou-lhe esta- para justificar aquele estupro a uma pessoa que estava indefesa, em estado vegetativo. Pois eu tô fora. Nada justifica um estupro. E muito menos, nada torna bela uma relação sexual forçada, nem que ela tenha sido perpetrada por amor (amor de mão única?).

Pois bem, odiei “Fale com Ela”. Foi o auge da fase em que Almodóvar passou a recorrer ao Melodrama puro para criar seus filmes. Recorrer a situações limites da vida humana: o estado de coma- como ele o adora!!-; os sentimentos de culpa de pais que abandonaram os filhos; o sentimento de abandono desses filhos; a dor profunda do adulto que foi abusado pelo pai quando criança… Bem este último é autorreferente, o próprio cineasta já disse que passou por este drama na infância.

Quase não há relações “normais” nas tramas de Almodóvar, encontradas no dia a dia da maior parte de nós: sofrimentos que nos afetam por causa das relações de trabalho, das relações comuns em nossas casas, de amizades que se tornam problemáticas… coisas que afetam à maioria das pessoas e não somente a uma parcela pequena de nós. E aí é que mora um dos principais atrativos de sua obra: é fácil gostar do dramalhão. Quem não quer sair um pouco do dia a dia? Quem não é facilmente atraído pelas situações limítrofes, que podem ser o alimento do melodrama?

Julieta
Pois bem, “Julieta”, seu último filme, em cartaz nos cinemas brasileiros, tem muitas destas situações limites. A morte repentina de um ente querido- ela de novo-; o coma de outro personagem; a filha que se separa da mãe por razões desconhecidas; a mãe que resolve tomar medidas drásticas; um pouco de relação amorosa entre pessoas do mesmo sexo… e por aí vai. Os personagens e os diálogos, por outro lado, sofrem de uma simplicidade quase estridente. Desta vez, o diretor/roteirista/produtor faz referências a Patricia Highsmith e até a Sydney Sheldon. Assim, fica bem fácil acompanhar a trama.

Não sou maniqueísta de deixar de enxergar os aspectos estéticos da obra de Almodóvar. Aliás, pra mim, é por eles que o diretor é um dos grandes. Atores de alto nível, muito bem dirigidos por ele, um uso das cores único e muito característico (veja que lindo o vermelho, que volta com força em “Julieta”!!), uma utilização da música quase como personagem… No novo filme, Hitchcock quase emprestou seu Bernard Hermann (o compositor premiado de suas trilhas) ao “colega” espanhol. A trilha do início do filme nos remete aos longa-metragens da fase americana do mestre inglês. A cidade pequena do meio da história, o trem onde acontecem fatos importantes pra trama, o suspense, toda a ambientação, por vezes, fazem parecer que estamos num dos clássicos de Hitch ou numa daquelas adaptações de Agatha Christie para o cinema. O ar retrô, aliás, é uma das melhores coisas de “Julieta”.

Vale assistir a “Julieta”, concluímos. É divertido. Mas é como assistir a um folhetim. Foi o tempo em que nos divertíamos com as comédias do diretor espanhol que criou pérolas como “Ata-me” e “Kika”, meu preferido. Que continham referências metalinguísticas- este último-, ou exaltações à força e à independência da mulher. Minha impressão é de que, quando percebeu que já tinha um público fiel, Almodóvar resolveu dar sua guinada final: aderiu ao estilo que sempre quis pra si e antes não tinha coragem de assumir: o melodrama típico das novelas mexicanas. Novela modernizada, empacotada em um lindo embrulho estético, mas novela.

Então, não seria o caso de assumirmos também? Nós gostamos de uma novela de vez em quando. Eu pelo menos gosto.

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“O amor da sua vida”

Noutro dia, comecei a ler um texto no facebook achando que era uma coisa e era outra. Era menos interessante do que eu achava que seria, talvez porque a conclusão da autora sobre o tema- o amor da nossa vida- fosse tão diferente da minha. A premissa foi, de cara, totalmente refutada pelo meu cérebro. Como assim o amor da minha vida? Como assim uma pessoa com uma vida que leve, vá lá, uns 60, mesmo 40 anos, pode ter apenas um grande amor na vida? Me senti um ET. Tive vários, tá bom, alguns grandes amores na minha vida. Sempre digo que amo demais porque fui muito amada na minha infância pelos meus pais. Aí, acho que amar é normal, tenho (ou tive) amores desmedidos, sem me impor limites, sofro, pareço o próprio Werther de Goethe com seu amor impossível por Clarisse. Claro que na juventude era muito pior. Bom, sobre essas reminiscências já escrevi antes aqui no blog (“O mundo se vinga por você ou Para o João ler quando tiver 16 anos”)

Mas voltando ao texto, continuei lendo mesmo quando as expectativas não se cumpriram. A autora, que li traduzida, tirava conclusões otimistas, apesar de começar dizendo que você poderia passar a vida toda sem ter a felicidade de viver o tal grande amor da sua vida. Concluía que, devido a incompatibilidades, como o gosto aventureiro dele, em oposição a sua aversão por viagens a lugares longínquos, o casal ou provável casal, poderia não continuar junto ou mesmo jamais ser um casal. Mas que o amor que você nutre teria valido a pena assim mesmo porque você, afinal, o sentiu, teve esta experiência. Mesmo que tivesse que deixa-lo livre para seguir com uma vida separada da sua, o que seria, de qualquer forma, um jeito de amá-lo.

Bem, eu mesma não acredito neste tipo de desprendimento. Pelo menos não no contexto do amor. Não que não creia que amor só é amor se for vivido, no sentido carnal, por assim dizer. Amor Platônico existe e os textos produzidos pelo Romantismo são grandes, belas e tristes provas disso. Minha própria vida pregressa, modestamente, é outra prova.

Pensei que a autora de nome inglês, desconhecido pra mim, fosse falar de como “o amor da sua vida” pode acontecer das formas mais diversas, em momentos diferentes da sua vida. Como ele pode ser mais intenso quando é platônico porque, afinal, aí você só conhece as qualidades do outro, e ignora os defeitos, que só aparecem com a convivência. De como você pode se apaixonar por alguém que tem gostos muito parecidos com os seus, mas não conseguir conviver porque um dos dois não abre mão de detalhes do dia a dia que parecem tão importantes- e na verdade podem não ser. De como quando você, já mais maduro, descobre que o amor pode durar muito tempo se um dos dois tem a capacidade de passar por cima das exigências toscas do outro. E vice-versa. De como o amor duradouro demanda esforço pra que continue amor. De como, no meio da plenitude de um amor tranquilo, você pode ser pego de surpresa por outro. Outro amor, uma paixão. Assim, do nada. Já ouvi alguns casos assim, e quem não ouviu? Que pode ter começado com uma conversa sobre, sei lá… política? Música? Cinema? Vinhos? Filhos? A situação mundial? E que te chamou a atenção porque as posições e os gostos eram tão parecidos com os seus… Ou porque o objeto do amor, ou da paixão, tinha elementos que não faziam parte da sua vida naquele momento e que- você descobriu- lhe faziam falta. E de como os amores às vezes podem ir pra frente ou não e isso pode ser decidido pelo destino (se é que isso existe), por você mesmo, pela outra pessoa. E de como aquele amor, no início paixão, pode passar a ser O amor.

Enfim, eu achei que aquele texto fosse tomar caminhos muito mais complexos, variados… realistas. Caminhos muito mais curiosos e instigantes. Mas não.

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