Los Carpinteros e seus objetos de desejo

“Los Carpinteros”, assim, en español, são amigos que nasceram, cresceram e estudaram em Cuba. Nascidos no início dos anos 70, formaram o “coletivo” em 1991. Sempre quiseram construir obras de arte com uma pegada arquitetônica. Durante os anos em que moravam na capital da Revolução, não dispunham de dinheiro suficiente para transformar seus projetos em realidade. A saída? Desenhar os projetos e ir guardando até o dia em que pudessem tirá-los do papel.

O tempo passou e eles abriram um escritório em Madrid, onde passam o tempo em que não estão em Havana. Na capital espanhola, foi possível finalmente começar a dar forma aos projetos cheios de criatividade da dupla. A exposição “Los Carpinteros”, em cartaz no CCBB de Brasília, e que depois seguirá para os CCBBs de Rio e São Paulo, é uma retrospectiva da carreira destes artistas plásticos e designers de móveis e outros objetos que têm muita influência do Surrealismo. Veja estas camas cruzadas, que parecem se abraçar.

Ou este relógio, que também é um armário com gavetinhas.

Alguns objetos são o sonho de quem gosta de design. Eu adoraria ter esta estante torta na minha sala.

A atriz Angelina Jolie é a dona deste míssel/armário.

As crianças ficam loucas quando veem estes instrumentos musicais derretendo.

E que tal esta piscina em miniatura pra colocar a Barbie ou, no caso da minha geração, a Susi?

Muitos projetos têm dimensões maiores. Estas cabanas ficam do lado de fora.

Este quarto é também uma grande estante. Uma maravilha pra quem ama os livros!

E Los Carpinteros também gostam de brincar de Lego. Sem querer, homenagearam o Flamengo com esta espécie de foguete.

Vendo tudo isso, nem dá pra imaginar como estes dois conseguiram se limitar às duas dimensões por tanto tempo.

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O medo pós-Snowden

Quem sai do cinema depois de assistir a “Snowden”, sai com medo. Não é terror, mas é assustador. Saem vampiros e zumbis e entra a realidade. O filme transmite a verdadeira dimensão da espionagem perpetrada pelo governo dos Estados Unidos, a maior potência econômica do mundo, em outros governos, como o do Brasil, na vida pessoal de cidadãos como você e eu. O expectador vê como seus e-mails, suas mensagens no facebook, seus telefonemas, todas as formas de comunicação modernas, podem ser, e são, rackeadas pela CIA, pela NSA, a Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos e por outros braços da Inteligência americana.

O filme começa mostrando como o jovem Edward Snowden é nacionalista, dedicado ao trabalho e tem o sonho de servir seu país. Primeiro ele entra no Exército e, depois de um acidente, resolve tentar entrar na CIA. Lá dentro, logo sua incrível capacidade de criar programas de computador é reconhecida e é um pulo até que ele alcance uma posição importante nos serviços de Inteligência.

Não demora tanto para Snowden descobrir que o Sistema não era regido pelos altos princípios em que ele sempre acreditou. Aos poucos, ele mesmo é levado a espionar, raquear, usar programas sigilosos… Enfim, vê que o objetivo do governo americano vai muito além de caçar terroristas. O interesse, mesmo na Era Obama, é econômico. Estão no filme a Petrobras, a então presidente Dilma, isso pra falar só do Brasil.

“Snowden” é contado em flash back. Na primeira sequência, o ex-agente secreto americano já aparece em Hong Kong, pronto para conhecer os jornalistas Glenn Greenwald, na época do jornal The Guardian, da Inglaterra, e Laura Poitras, que depois dirigiria o filme “Citizenfour”, que terminou ganhando o Oscar de melhor Documentário. Os dois iriam mostrar ao mundo todas as revelações de Snowden e os bastidores do encontro entre eles.

Os jornalistas costumam associar Oliver Stone a “Nascido em 4 de Julho”, mas dois outros filmes dele foram mais marcantes pra mim. O primeiro foi “Platoon”, o filme que retratou com maior realismo até então os horrores da Guerra do Vietnã. Mostrava o sofrimento dos soldados, a dificuldade com que eles enfrentaram o esquema de túneis criado pelos vietnamitas, e de quebra revelou Johnny Depp. O segundo é a cinebiografia dos Doors, a banda californiana que tinha Jim Morrison como cantor e letrista. Stone conseguiu “transformar” o feioso Val Kilmer no lindo Jim Morrison, mudando seus trejeitos e mostrou a importância de Ray Manzarek, o tecladista que inventou a banda. Ali, Oliver Stone se forjou como biógrafo, o que ele faz de novo agora com “Snowden”. Na foto abaixo, ele aparece com Joseph Gordon Levitt, que está muito bem no papel de Snowden; e Shailene Woodley, que faz sua namorada. O elenco também conta com Melissa Leo, que já ganhou um Oscar, e Nicholas Cage faz uma participação especial interessante.

Jornalismo
Pra quem é jornalista ou gosta de jornalismo, o filme tem um plus: mostrar o trabalho de Gleen Greenwald, que terminou ganhando o Pulitzer e também o prêmio Esso no Brasil. Depois, Greenwald sairia do Guardian para co-criar o site The Intercept, que tem versões em português e em inglês e que ele produz daqui do Brasil, onde mora com o marido há 12 anos.

Agora no início de dezembro, a TV Câmara, vai mostrar uma entrevista que eu fiz com Greenwald para o programa Ponto de Vista. Ele me deu alguns detalhes de como aconteceu o contato de Snowden com ele, como ele custou a acreditar em toda aquela história de espionagem internacional feita pelos Estados Unidos. O filme resume este contato. Mas mostra o esforço de Glenn pra “vender” a matéria pro próprio jornal, pra convencer a editora-chefe da importância de publicar logo, antes que a CIA interferisse.

Inimigo
Claro que o filme também mostra a história pessoal do Snowden, com sua namorada de muito tempo e os conflitos causados pelo fato de ele não poder revelar quase nada sobre seu trabalho. É um thriller, porque há o suspense em torno de como ele vai conseguir levar aquelas informações pra fora dos Estados Unidos e de como ele vai viver a partir das revelações, sendo considerado por muitos americanos um inimigo de seu próprio País. Aliás, no Brasil o filme ganhou o nome de “Snowden, herói ou traidor”.
Uma coisa é certa: ao assistir a “Snowden”, você nunca mais vai acessar o facebook do mesmo jeito…

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“Cícero Dias- o compadre de Picasso”, Vladimir e o tempo

Vladimir Carvalho não é um mestre do Documentário à toa. Uma das características que marcam uma parte da sua obra é a paciência de esperar para montar e lançar um filme. Talvez uma característica adquirida nas décadas de 80 e 90, quando não havia dinheiro suficiente para finalizar os filmes. Pois bem, “Cícero Dias- o compadre de Picasso”, que entra em cartaz nesta semana em Brasília e em outras capitais do País, é fruto justamente desta paciência.

O famoso pintor pernambucano Cícero Dias começou fazendo quadros oníricos inspirados em Chagall, quando ainda morava em Recife. Fez seu nome na conservadora capital pernambucana dos anos 30 com estes quadros figurativos. Quando se mudou para Paris, sob o impacto de modernistas como Braque e Picasso, foi aos poucos migrando para a abstração. Picasso se tornou um de seus melhores amigos.

De volta a Recife, viu sua obra ser severamente criticada pelos jornalistas locais.

Sempre com a fotografia do irmão, Walter Carvalho, um dos maiores diretores de fotografia do Brasil e reconhecido mundo afora, Vladimir Carvalho mostra imagens lindas das três cidades em que Cícero Dias viveu e trabalhou: Recife, Rio e Paris. Mescla filmagens mais novas com imagens de arquivo de Paris, Recife e Rio, da primeira metade do século XX, como fotos de Cícero convivendo com os pintores europeus. Há entrevistas que o cineasta fez com Cícero, gravações com pintores que já morreram, entrevistas mais recentes, como a feita com a viúva do pintor… Muita coisa gravada ao longo de décadas e que foi sendo guardada para um dia virar o sonhado filme.

Intervalos
Vladimir Carvalho foi meu professor de Cinema Brasileiro no fim dos anos 80 na Universidade de Brasília. Era uma época em que víamos trechos dos filmes que ele já tinha feito antes, como “O País de São Saruê”. Mas ficávamos sempre pensando o que ele estaria filmando naquela época. Talvez nada. Talvez estivesse justamente num destes intervalos que também ajudam a dar perspectiva temporal às histórias que conta.

Lembra-se de “Rock Brasília”, que estreou em 2011? Havia ali entrevistas feitas com Renato Russo e Herbert Viana ainda nos anos 80. Imagens de shows também gravadas naquela época. Outras entrevistas foram feitas muito tempo depois. Estes gaps de tempo enriquecem um documentário porque mostram visões sobre um tema que vão se modificando com o passar dos anos, das décadas.

No último Festival de Brasília, em setembro passado, Vladimir ganhou o Troféu Câmara Legislativa de Melhor Diretor e de Melhor Roteiro pelo lindo “Cícero Dias- o compadre de Picasso”. E quando entrar em cartaz, no dia 10 de novembro, quinta-feira da semana que vem, se transformará num programa imperdível.

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Peter Greenaway e a estética barroca

Quem era cinéfilo nos anos 80 se lembra bem dos filmes do cineasta inglês Peter Greenaway. Como esquecer “O Cozinheiro, o Ladrão, sua mulher e o amante”? Ou “Afogando em números”? Ou até “8 mulheres e meia”? Se eu fosse definir a obra de Greenaway em uma palavra ela seria Exuberância. E por que? Porque este inglês que cresceu em Essex decidiu aos três anos de idade que queria ser pintor quando crescesse. Na juventude, então, passou três anos estudando para ser muralista. Terminou virando cineasta, mas nunca deixou de lado o amor pelo apuro estético.

Os filmes de Peter Greenaway têm sempre elementos estéticos do Renascimento e/ou do Barroco. Cada ambiente se parece com um quadro. Móveis, roupas, talheres, tudo é detalhadamente escolhido para transportar o expectador a uma outra época. Greenaway também usa a luz natural para suas verdadeiras pinturas em movimento. “O Cozinheiro, o Ladrão, sua mulher e o amante”, que é o filme mais conhecido de Greenaway, é um símbolo deste cuidado com os detalhes. Foi o filme que o levou a virar um queridinho dos amantes do cinema no final dos anos 80.

Quem viu vai poder rever, quem não viu vai poder ver a grande maioria dos filmes de Peter Greenaway na Mostra do Centro Cultural Banco do Brasil, o CCBB, em Brasília, no Rio e em São Paulo. Em Brasília, a mostra vai de 26 de outubro, esta quarta-feira, até 21 de novembro. A mostra se concentra nos longa-metragens, infelizmente, pra gente como eu que já viu a maior parte deles. Sim, porque Greenaway começou a carreira no Central Office of Cinema, da Inglaterra, onde, ainda nos anos 60, foi editor e diretor de uma série de filmes experimentais.

Cores fortes e surrealismo
Em “O Cozinheiro…” Greenaway usa cores bem definidas para demarcar cada ambiente do filme. A parte externa do restaurante é azul, a cozinha é verde, o salão é vermelho e os banheiros brancos. O figurino – e os cigarros – dos personagens principais, vividos por Helen Mirren e Michael Gambon, mudam de acordo com o local em que eles estão.

Na história, a mulher de um criminoso se envolve com um dos clientes do restaurante do marido. É um filme bem surrealista, como a maior parte das produções do Greenaway. O exagero do roteiro é intensificado pela loucura dos figurinos e dos cenários que parecem mesmo com quadros de pintores barrocos.

“O Cozinheiro…” é de 1989. Um ano antes, Greenaway tinha lançado “Afogando em Números”, em que uma mulher afoga o próprio marido numa piscina.

Aqui no Brasil, a gente foi vendo os filmes anteriores ao Cozinheiro depois que este fez sucesso. Outro deles, de 87, é o interessante “A Barriga do Arquiteto”. Um arquiteto americano chega à Itália para supervisionar a exposição de um arquiteto francês que é famoso pelas suas estruturas arredondadas. Ele começa, então, a ficar obcecado pela própria barriga, tem dor de estômago, perde a mulher e um monte de outras coisas ao longo da história, marcadamente surreal.

São vários os filmes interessantes do Greenaway, impossível citar todos. Mas o último a que eu assisti foi “Que viva Eisenstein- 10 dias que abalaram o México”. Esta é uma produção bem recente, de 2015, e é a visão do diretor inglês sobre o tempo em que o grande cineasta russo Sergei Eisenstein, de “Outubro” e “O Encouraçado Potemkin”, passou no México.

O filme mistura as referências de história do cinema com detalhes da vida pessoal do diretor russo, que era homossexual. Há várias cenas eróticas. Peter Greenaway está preparando uma continuação deste filme que vai se chamar “Eisenstein em Hollywood”.

Ver ou rever os já clássicos filmes de Peter Greenaway é um programa imperdível pra qualquer pessoa que goste de cinema.

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Homenagem argentina a Janela Indiscreta

O filme argentino “No fim do Túnel” é uma homenagem a “Janela Indiscreta”, de Hitchcock. Joaquín está sentado em uma cadeira de rodas e no início do filme você não sabe o que o levou a ficar paralítico. Ele sobe e desce do porão da grande casa em que mora com seu cachorro velhinho, que também não anda. O personagem passa o tempo no porão, pra onde desce na cadeira por um elevador individual, escutando o que acontece do outro lado da parede. Um estetoscópio o ajuda a descobrir que algo muito errado está realmente para acontecer.

No meio disso tudo, chegam a sua casa uma mãe e sua filha de 6 anos, que alugam o quarto de cima. A jovem e bela mãe, Berta, que é dançarina em um clube noturno, pretende mudar pra melhor a rotina de Joaquín. A menina ficou muda há alguns anos e ninguém sabe direito por que. O ambiente sombrio e a música de suspense reforçam a impressão de que estamos mesmo num thriller. Num passeio de Berta pelo jardim abandonado do casarão, ela e o espectador descobrem a origem da debilidade física do protagonista. Seu passado está ali, deixado propositalmente pra trás.

Segredos sobre as duas inquilinas também serão revelados ao longo da trama. O diretor Rodrigo Grande consegue manter a tensão ao longo de todo o filme, não só com a revelação gradual dos segredos dos personagens, mas por meio de ação. Sim, “No fim do Túnel” é um thriller, mas é também um filme de ação. Um daqueles em que você consegue encontrar algo de original. É ação, mas não é Hollywood. É filme de personagem, mas é suspense.

O personagem principal é interpretado pelo ótimo ator argentino Leonardo Sbaraglia, que viveu o motorista raivoso do primeiro episódio de “Relatos Selvagens”. Ele já estava em cartaz no filme brasileiro “O Silêncio do Céu”, em que contracena com Carolina Dickman.
A atriz que faz Berta, Clara Lago, eu já tinha visto no intrigante filme espanhol “Fim dos Tempos”, como a namorada do personagem principal. Sbaraglia é daqueles atores que falam com os olhos e o diretor Rodrigo Grande soube explorar bem esta capacidade dele, com muitos planos fechados, que contribuem para os momentos de suspense.

Com várias idas e vindas, “No fim do túnel” é um filme pra quem gosta de thrillers inteligentes. Um suspense com um tempero de chimichurri, bem argentino. Ele entra em cartaz na quinta-feira que vem (6/10) nas principais capitais do País.

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