A culpa da mãe

Acordei hoje subitamente às 5h50, uma hora antes do despertador. Sim, as tensões do trabalho têm sua parcela de culpa, para não correr o risco de ser injusta, uma única pessoa do trabalho. Mas 80% da culpa é mesmo de um filme que parecia despretensioso e por isto me atraiu chamado “Não sei como ela consegue” (“I don’t know how she does it”, finalmente a distribuidora achou que não doeria ser fiel ao título original). O filme com Sarah Jessica Parker (a eterna Carrie Bradshaw de “Sex and the City”), o sempre fofo e eficiente Greg Kennear e o classudo e simpático (eu o entrevistei em 1997 e ele o é mesmo) Pierce Brosnan, tinha tudo para ser mais uma comédia hollywoodiana e esteticamente o é. Cheio de viradas absolutamente previsíveis, fim mais previsível ainda, lindas tomadas externas de Boston e Nova Iorque, alguns diálogos familiares óbvios. Mas ele é mais: tem aquela narração pontuando os acontecimentos mais típica de produções independentes americanas (acho que os grandes estúdios aprenderam a copiá-los!), alguns personagens estranhos como a assistente da personagem de Sarah e o principal: assuntos nada leves.

São dois. O primeiro é a culpa que a mãe dedicada e apaixonada por seu trabalho carrega em relação aos filhos. Eterna, forte, inconciliável. O segundo é o mundo tradicionalmente masculino do trabalho em que temos que nos inserir. Não é só o machismo, mas a forma de encarar o trabalho forjada por um capitalismo antigo, extremamente competitivo, em que é quase normal se passar a perna um no outro, em que o bom funcionário é aquele que dedica todo o seu tempo para o trabalho, mesmo aquele que deveria ser usado para os filhos, o marido, enfim, o cônjuge, qualquer que seja o sexo do funcionário.

Na minha insônia, que não acontecia há meses, fiquei pensando em como este filme poderia ser anacrônico, mas concluí que, infelizmente, não é. Existem, sim, aquelas empresas que incluem a diversão e o descanso em seu próprio ambiente, na rotina de seus trabalhadores, até como forma de aumentar a criatividade. Mas elas ainda são notícia, o que significa que são raridade.

Vivemos mesmo neste capitalismo antigo, onde sempre tem um chefe ou subchefe que acha que a correria e o estresse, às vezes turbinado pela gritaria, devem imperar no ambiente de trabalho. Se não são chefes homens, são mulheres que acham que devem mostrar que conseguem fazer o trabalho dos homens como os homens, deixando de lado a delicadeza e a famosa flexibilidade femininas. Não falo da positiva objetividade dos homens, mas das características maléficas que já citei anteriormente.

Nestes ambientes de trabalho, cobra-se o que não se precisaria cobrar, deixa-se de valorizar o que foi feito de bom verbalmente, se dá valor à puxa-saquice e à demonstração de superioridade em relação aos colegas. Infelizmente, andei trabalhando em lugares com algumas destas características, tanto em redações quanto em gabinetes de políticos. Atualmente não e foi por isto que minhas insônias praticamente sumiram. Injustiça deve ser a maior causa da insônia, junto com ansiedade.

O filme mostra esta angústia aliada a outra mais típica nas mulheres de hoje. Além de termos que provar que somos boas profissionais, ainda temos que demonstrar, inclusive a nós mesmas, que podemos sê-lo sem deixar de lado outra obrigação que nos consome: ser boas mães. Ser presentes na vida de nossos filhos.

Ontem foi um dia emblemático em relação a isto. Fui ao cinema sozinha depois de meses. Quando o filme começou, mandei uma mensagem de texto dizendo a meu marido que nosso filho estava com a babá e a avó. Quando contei a ele sobre o tema do filme, ele me disse, rindo: “Ah, então foi por isso que você mandou aquela mensagem de dentro do cinema?!”. É, a culpa da mãe nos faz contrariar até princípios sólidos como não atrapalhar os outros acendendo o celular dentro do cinema. E Hollywood, definitivamente, já não é mais tão água com açúcar.

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São Paulo comme il faut

Houve uma época, há uns quatro anos, que íamos pelo menos duas vezes por ano a São Paulo, por razões médicas, e ficávamos cerca de uma semana na cidade de cada vez. Fomos ganhando, ou reganhando, uma intimidade com a cidade. Eu já havia morado ali duas vezes, uma delas na infância e outra na adolescência, meu marido morara 13 anos lá, inclusive tendo se formado e trabalhado no jornalismo da capital, após vir do interior do estado. Naquelas viagens de alguns anos atrás, entre uma ida e outra ao consultório médico, compensávamos a parte difícil conhecendo alguns restaurantes interessantes (conhecemos o Carlota, o Gero e o Dom, jantamos no Maní e no Felippa, na Rua Joaquim Antunes, fomos ao centro conhecer o tradicional francês La Casserole e à Vila Madalena jantar no aconchegante Alez, Alez!, repetimos o almoço indiano delicioso do Ganesh do Morumbi Shopping, viramos meio habitués do Boa Bistrô, nos Jardins) e visitando as lojas dos grandes estilistas brasileiros que não existem em Brasília (adoro o clima alegre da Adriana Barra, e gosto de ver as novidades das lojas da Bela Cintra e do Shopping Cidade Jardim da Cris Barros, da Glória Coelho e, principalmente de seu ex-marido, Reinaldo Lourenço. De vez em quando até faço uma extravagância e compro uma pecinha de um deles. Vale muito a pena, são pra sempre!). Chegamos a pegar um Festival Internacional de Cinema de São Paulo uma vez, e assistimos em primeira mão a um documentário muito bem estruturado sobre Kurt Cobain. De quebra, comemos uma deliciosa salada de rúcula, pêra e nozes no restaurante do Reserva Cultural, cuja receita repetimos em casa várias vezes.

Participamos da exposição interativa de Guimarães Rosa no Museu da Língua Portuguesa, vimos a dos corpos no Ibirapuera (esta específica, visitei de cadeira de rodas, após um tratamento) e até a exuberância de uma das maiores paradas gays da América Latina e, daquela vez, estávamos hospedados no Hotel Ibis da Av. Paulista, justamente onde se concentravam muitos participantes. Ah, e quando fomos ao Museu da Língua Portuguesa, bem ao lado da linda e restaurada Estação da Luz, aproveitamos para conhecer o Acrópoles, um restaurante simples e tradicional grego em pleno Bom Retiro, o bairro do centro velho onde moram muitos judeus, mas atualmente, não os ricos, que migraram para Higienópolis. Tínhamos normalmente a companhia de uma amiga médica de Brasília que mora em São Paulo há muitos anos e da minha irmã, publicitária, que também é radicada na cidade.

Eu adorava passear pelas três feirinhas de antiguidade mais conhecidas da cidade: a do Masp, de que gosto muito desde que moramos em São Paulo em 1982; a da Benedito Calixto, perto de onde minha irmã morou por anos; e a do Museu da Imagem e do Som (MIS), a mais sofisticada e cara de São Paulo, onde me apaixonei por uma peça art-nouveau, que até hoje me arrependo de não ter comprado. Outro programa bem bacana é conhecer as lojinhas de design de móveis e objetos para casa em torno da pracinha da Fnac (ali começou minha paixão pela linda Benedixt) e, com mais tempo, as lojas de designers brasileiros e estrangeiros da Avenida Gabriel Monteiro da Silva. Lá ou na Lorena, paralela à Oscar Freire, não deixe de almoçar na Z-Déli, um bistrô de comida judaica de tirar o quepá!

Houve uma vez em que até fomos ao show de David Lee Roth, o ex-vocalista do Van Halen, de quem eu admirava a carreira solo lá por volta de 1985. Em 2009, fui especialmente para o pocket show que Elton John fez para os convidados de um banco na linda Sala São Paulo, no centro. Ganhei o convite de um amigão! Imagine um show de Elton John em um teatro! Foi absolutamente emocionante.

Vestindo crianças com criatividade
Depois que nosso filho nasceu, em 2008, fomos três vezes com ele a São Paulo. Aí os programas mudavam: muito zoológico, Zoo Safari (ex-Simba Safari, em que os bichos ficam soltos e vêm até a janela do seu carro), Ibirapuera e pracinhas.

Também não dava pra escapar do Shopping Iguatemi em tempos de decoração de natal. Com um ano e oito meses, João ficou absolutamente encantado com todos aqueles animais enormes da savana do Papai Noel que montam naquele vão central.

Outra coisa que chamava a atenção de seus olhinhos eram as luzes da Avenida Paulista nesta época natalina. Além de passeios e dos melhores encontros familiares do ano, São Paulo também significava a oportunidade de eu comprar roupinhas para meu filho do jeito que eu gosto: com cara de roupa de criança. Faço tudo pra não vestí-lo como um adulto pequeno, com aquelas camisetas de gola pólo listradas de branco que se vende em profusão nas lojas de Brasília e do Brasil todo, na verdade. Em São Paulo, anotem aí mães criativas, tem a Bebê Moderno (que agora só existe no Itaim Bibi), cheia de macacões, calças, shorts e camisetas coloridas e com apliques de bichos das matas brasileiras; a Balangandã, com desenhos super diferentes nas camisetas, bermudas e até sungas; e uma loja do Shopping Cidade Jardim, que tem até conjuntos de plush com bolas de futebol no bumbum e outras invenções legais. Há ainda a Green, onde fizemos um verdadeiro enxoval pro João nesta última vez, já que a loja do Park Shopping fechou as portas. (Nas três fotos abaixo, ele, ainda com um ano e dez meses, está vestido de Green, por coincidência).

Uma das vezes, caminhamos pelas lojinhas de novos estilistas da Vila Madalena. Algumas são tão lindas que parecem pequenos castelos coloridos feitos para crianças! Uma imperdível é a do Ronaldo Fraga, que tem um quintal de casa da vovó atrás, onde as crianças se divertem enquanto você escolhe roupas pra você e pra elas. Ali, a dica é comer no buffet cheio de saladas do Pitanga. Mas o Capim Santo, nos Jardins, com suas cortinas de miçangas e seu pátio ao ar livre cercado pelas mesas, é o melhor restaurante para levar a criançada.

Entre uma loja e outra, é necessário tomar um café, comer um sanduíche ou mesmo tomar uma taça de vinho. No nosso caso, era o Suplicy da Lorena para o café com jornais de manhã e o Oscar Café, na Oscar Freire, para um sanduíche de salmão ou filé com uma taça de vinho rosé, seguidos por um brigadeiro de pistache. João adorava subir e descer sua estreita ladeirona correndo.

Para se chegar à Balangandã, uma das lojas infantis legais dos Jardins, se passa em frente ao Emiliano, um dos únicos hotéis da badalada e chique Oscar Freire, espécie de 5a Avenida ou Visconde de Pirajá paulistana, ou seja, a rua onde se concentram as lojas legais (e caras!). É um cinco estrelas cool, com uma decoração clean, bastante branca, mas sem abrir mão dos sofás de couro e das mesas de madeira pra dar um clima de aconchego. Uma vez entramos ali e ficamos imaginando como seria nos hospedar naquele hotel delicioso em plena Oscar Freire com diária de U$ 700.

Férias de dois dias
Pois bem, desta vez, há um mês mais ou menos, quando fomos assistir ao show do Duran Duran no Festival SWU (ver matéria aqui no blog em “Duran Duran 24 anos depois”), sabíamos que nos cansaríamos durante esta aventura. Então, inventei de descansar antes. Como não íamos levar nosso filho porque iríamos ao show em Paulínea, teríamos um momento para descansar sozinhos em São Paulo por duas noites antes de seguir, domingo, para Campinas. É a segunda vez que fazemos isto já que, desde o nascimento de João, não quisemos viajar para o exterior, ficando longe dele por muito tempo. Então, investimos em pequenas viagens, de um fim de semana, no Brasil mesmo. Mas em grande estilo. A primeira vez foi no moderno Fasano do Rio, durante o show do Coldplay no início do ano passado (ver “Luxo no Rio de Janeiro e uma comédia de erros”, aqui no blog).

Nesta segunda vez, não tivemos o prazer de conviver com a decoração super moderna de Phillip Stark, mas desfrutamos do fantástico serviço deste hotel, daqueles que nem conseguimos sentir, discretíssimo. O quarto com vista para os prédios (adoro esta vista! É a mesma em todos os hotéis de São Paulo e parecida com a de uptown Nova Iorque) tinha muito espaço, uma cadeira de Sérgio Rodrigues diferente da da varanda do Fasano do Rio, em frente da qual havia uma mesinha com o pêssego mais suculento que já comi na vida e uma tartelete de frutas vermelhas.

Em outra bancada, um vinho chileno também nos dava as boas vindas. O travesseiro podia ser escolhido entre uns 10 tipos existentes no Menu de Travesseiros. Pra não desperdiçar a oportunidade, meu marido escolheu um daqueles da Nasa pra ele e um de macela pra me ajudar a dormir. Até parece que isto seria necessário naquele ambiente de paz total! Adorei o closet cheio de compartimentos e o banheiro de ladrilhinhos brancos com grande pressão de água no chuveiro.

Os produtos da linha Santa Pele fizeram a diferença e foi a primeira vez que usei um vaso sanitário aquecido, com bidê embutido. Posso dizer que não achei um luxo desnecessário!

O jornal também poderia ser escolhido. “Estadão, pra ler o Caderno 2 no domingo”, decretei. “Então, Estadão e Folha?” Perguntou o concierge. “Pode ser os dois?” “Quantos os senhores quiserem. Querem o Correio Braziliense?”, perguntou, vendo em nossa ficha que éramos de Brasília. “Não, o Correio não, por favor, já recebo este jornal todos os dias”, disse eu, querendo fugir das notícias de casa. Na Ilustrada de sábado, li tudo sobre o show do Lynird Skynird, a banda do sul dos Estados Unidos que fecharia a noite de domingo, após Duran e Peter Gabriel, enquanto tomávamos o café no quarto: café da cafeteira do próprio quarto e bagel com salmão defumado e cream cheese, bem americano. Mauro pediu um omelete que derretia na boca.

Na noite anterior, tínhamos desfrutado de outra das facilidades do hotel, por puro acaso. Sua localização. Minha amiga Daniela Mendes sugerira o Italy pra nos encontrarmos. Um italiano despretensioso, com ótimos preços, mas absolutamente delicioso e a dez metros do Emiliano, ali mesmo na Oscar Freire. Perfeito pra quem, como nós, enfrentara uma hora de engarrafamento desde Guarulhos (não desço em Congonhas desde o acidente com o avião da Tam, cuja culpa foi, claramente, do tamanho da pista do aeroporto central de São Paulo). E foi um jantar super agradável e divertido! Além deste casal de amigos da faculdade, outro casal formado por Eliane e Gabrielli (seu namorado siciliano que gosta de cozinhar e faria a crítica do Italy pra nós, segundo Eliane), além da minha irmã.

Embalado por minhas histórias pretéritas com o Duran Duran, Felipe (Patury), um dos meus melhores amigos no curso de Comunicação da UnB, relembrou histórias do arco-da-velha envolvendo nossa colega de curso Patrícia Melisa, que me acompanhara no primeiro show da banda em 1988 no Rio. As histórias daquela menina membro do Bacon (Barangas Americanizadas da Comunicação), que achava um absurdo os brasileiros não terem vídeo cassete em 1987, eram hilárias. Eu não me lembrava de nada daquilo e adorei ser lembrada por Felipe! Melhor ainda ficavam as histórias ao sabor de gigliotti com vôngoles dentro da concha (que por sua vez me remeteram à primeira vez que comi vôngole numa prainha abaixo de Palermo, como aproveitei pra tentar coltar em meu italiano macarrônico a Gabrielli) e talliateli nero com frutos do mar do Mauro a cerca de R$ 40 o prato. O amigo siciliano surpreendeu a todos pedindo um vinho brasileiro, Desejo, que ele descobrira há alguns anos na Bahia!

Brunch de lua-de-mel
A outra farra gastronômica comparecemos domingo, só nós dois, bem no clima de lua-de-mel que já nos envolvia. Foi o brunch perfeito do próprio Emiliano. Tínhamos apenas o tempo exato, não muito mais que isto, porque, depois do check out, teríamos que ir ao Shopping Butantã para pegar o carro alugado pra seguir para o SWU. Naquele salão delicioso rodeado por plantas nas paredes, um garçom super solícito que eu tive a sensação de conhecer de outro restaurante, começou nos trazendo blinis de salmão, palito de parmesão com fois gras e compota de maçã e tartare de atum com ratatuille de legumes. Uma explosão de sabores, tudo muito bom.

Como prato quente, Mauro pediu um omelete e eu um ravioli do dia com cogumelos e molho com manteiga trufada bem pronunciada. “Podem repetir o que quiserem até as 4 horas”, dizia animado o garçom. Não, infelizmente, era hora para a sobremesa. E não uma só: era um verdadeiro festival de doces: panacota diet ou normal com frutas vermelhas e chocolate branco (claro que optei pela normal), verrine de chocolate com morango (especial!); creme de manga com chocolate branco (soberbo!); mousse tricolor; macaroons de framboesa, chocolate e baunilhas e madeleines. Estes últimos perdemos devido à única falta de todo o serviço do hotel durante aqueles dois dias: o garçom boa praça se esqueceu de enviá-los ao quarto como nos havia prometido.

O grande lance do serviço do Emiliano é sua invisibilidade: chegávamos da rua e havia um doce com um bilhetinho dizendo: espero que tenham gostado da estada. Nem sabíamos quem tinha deixado o mimo ali. Pedíamos pra trocar os tamanhos dos chinelos havaiana e, quando chegávamos, os novos números estavam ali, sem erro.

Pra completar o relaxamento antes de pegar a Bandeirantes em direção ao lamacento estacionamento do SWU, resolvemos desfrutar dos 15 minutos de massagem incluídos na diária do hotel. Acrescentamos 45 minutos por nossa conta. Depois da massagem, com uma moça que ficou conversando sobre rock comigo, afinal eu já estava totalmente no clima do festival, ficamos uma meia hora entre as duas Ufurôs- uma morna e uma quente- em uma sala envidraçada com vista para a Oscar Freire e os jardins em geral. Tudo muito lindo e nada de piscina naquele hotel super paulistano.

Fernanda Montenegro e sua Simone de Beauvoir
Sim, passeamos pela Oscar e dei uma passadinha na (sapataria) Sarah Shaforkian da Lorena em que costumo comprar um sapato a cada ano- além de conhecer a enorme loja da italiana Pucci no Shopping Cidade Jardim com minha irmã e minha fofa sobrinha Anita. Mas não comprei nada mais que um batom vermelho na Channel (o mesmo que a própria Coco usava, me garantiu o vendedor, falando francês a cada fim de frase). Já havia estourado meu orçamento em Brasília no último mês.

Resolvera, sim, ainda em casa, fazer uma coisa que terminamos adiando em nossas outras idas a São Paulo e que seria óbvia: ir ao teatro. Escolhi a peça em que Fernanda Montenegro interpreta, sozinha no palco, ninguém menos que a feminista Simone de Beauvoir, um dos grandes ídolos de minha mãe. Não poderia ter sido uma escolha mais feliz. Nos adiantamos e, quando chegamos ao teatro, eu, meu marido e minha irmã, percebi como o público é diversificado. Muitas pessoas com a cara das pessoas que conheci em 82, os intelectuais paulistas de classe média. Só perto do começo da peça, chegaram os ricos e peruas.

Num texto super intimista, confessional mesmo, uma Fernanda muito em forma começou contando a juventude de Simone na Paris da Segunda Guerra Mundial, suas primeiras experiências sexuais, como conheceu o escritor existencialista Jean Paul Sartre e como ele seria seu companheiro pelo resto da vida, de uma forma ou de outra. Lembrei-me muito de Fernanda Torres, filha de Montenegro, interpretando o texto de João Ubaldo Ribeiro sobre a Luxúria. Era como se a mãe tivesse querido fazer algo parecido com o que a filha fizera dez anos antes, só que a seu estilo, bem menos histriônico, e ainda assim com humor. Estava ali uma mulher de 80 anos falando das aventuras sexuais de outra mulher, absolutamente à frente do seu tempo. E não só das ideias libertárias que levaram ela e Sartre a experimentar o sexo grupal quando o filósofo já não sentia mais atração sexual pela esposa. Mas também de como o existencialismo -que depois se tornaria uma corrente filosófica- permeava o relacionamento dos dois com outro grande escritor, o argelino Albert Camus.

No fim da peça, quando Sartre morre, Simone/ Fernanda passa a contar a dificuldade que era viver sem a pessoa com quem dividiu toda uma vida. Era como se Fernanda falasse dela própria, que perdeu o marido, Fernando Torres, há alguns anos. Uma emoção genuína tomou conta do fim da peça, ao mesmo tempo em que uma sensação de completude em relação a tudo que São Paulo pode nos dar tomou conta do meu coração.

Serviço:

Acrópoles. Rua da Graça, 346, Bom Retiro. Tel.: 3223.4386.

Allez, Allez! Rua Wisard, 288, Vila Madalena. Tel.: 3032.3325.

La Casserole. Largo do Arouche, 346, Vila Buarque. Tel.: 3221.2899.

Maní. Rua Joaquim Antunes, 210. Jardim Paulistano. Tel.: 3085.4148.

Boa Bistrô. Rua Padre João Manuel, 950, Cerqueira César. Tel.: 3082.5709.

Carlota. Rua Sergipe, 753, Higienópolis. Tel.: 3661.8670.

D.O.M., Rua Barão de Capanema, 549, Cerqueira César. Tel.: 3088.0761.

Ganesh, Avenida Roque Petrone Júnior, 1089, Morumbi (Shopping Morumbi). Tel.: 5181.4748.

Hotel Emiliano. Rua Oscar Freire, 384, esquina com Rua Cerqueira César. Tel.: 3069-4369.

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O bom cinema está de volta a Brasília, enfim!

Oito salas abrem nesta sexta. Outras 50 estão a caminho.

Na sexta-feira, dia 9 de dezembro, os cinéfilos brasilienses vão finalmente poder parar de reclamar da falta de bons filmes nas telas da capital. Será aberto ao público o primeiro complexo de cinema do grupo Estação, o Espaço Itaú de cinema. As oito salas novinhas em folha ocuparão o espaço onde antes existia a Rede Embracine, no Shopping Casa Park. A rede fechou as portas no ano passado, deixando o público órfão de produções cinematográficas mais artísticas, que não viessem de Hollywood ou do atual cinema comercial brasileiro.

Na terça-feira (29), convidados, especialmente do meio cinematográfico de Brasília, puderam conferir de perto as salas e o enorme e chiquérrimo hall que abrigará um lindo Café. “Nosso princípio é juntar cinema e arte na sua excelência”, garantiu o diretor-executivo do banco Itaú, Fernando Chacon, no único e rápido discurso da noite. “Este vai ser o piloto para as 58 salas que pretendemos abrir em Brasília”, informou ainda Chacon para o deleite de todos e a surpresa de alguns. Sabe-se que as três salas do Shopping Liberty Mall também estão sendo reformadas para ser ocupadas pelo grupo.

Na festa de apresentação, a que Escritos do Ócio teve o prazer de estar presente, os convidados puderem assistir a um entre três dos filmes que entrarão em cartaz na semana que vem: “O Garoto da bicicleta”, dos irmãos franceses Luc e Jean-Pierre Dardernne, e vencedor do Grande Prêmio do Júri do Festival de Cannes 2011; “Minhas Tardes com Margeritte”, de Jean Becker, com Gérard Depardieu; e “Um Conto Chinês”, de Sebastián Borenstein, com Ricardo Darín. Mas antes, o grupo sinfônico Tocata interpretava trilhas sonoras clássicas, enquanto os convidados podiam se preparar para provar as salas tomando espumante e comendo blinis diversos, cappuccino de salmão, bolinhos de camarão, carnes de boi e carneiro. Isso num ambiente que já prometeria ser um sucesso só pelo seu visual super clean e moderno, intercalando vidro com mármore, mas ainda assim aconchegante. As grandes luzes embutidas no teto remetiam ao próprio cinema. Tudo bem mais arrojado do que as salas do Estação construídas nos anos 90 no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.

História
Patrícia Durães, uma das sócias do empreendimento, tem longo know how no ramo dos cinemas alternativos no Brasil. Presente à festa de ontem, Patrícia é sócia-fundadora do Espaço Unibanco, está no grupo desde que foram abertas as primeiras salas, em uma galeria da Avenida Voluntários da Pátria, em Botafogo, nos idos de 1985. As três salinhas do Estação, que existem até hoje, pegaram de uma forma que, uma década depois os sócios tinham fôlego para abrir outras três, criando, assim o Espaço Unibanco de Cinema, ainda com o nome de Espaço Banco Nacional de Cinema. Maior e mais moderno, ele ficava logo ali, do outro lado da avenida, após a estação de metrô.

Em 1993, o Espaço chegou a São Paulo, me relembrou ontem Cláudia. E em 1998, Estação e Espaço resolveram se separar. Ademar Oliveira, o grande idealizador de tudo desde o início ficou à frente do Espaço e outras componentes do grupo inicial assumiram o Estação. Este último continuou responsável pela realização do Festival de Cinema do Rio, que rivaliza até hoje com o Festival Internacional de Cinema de São Paulo, aumentando o número de produções mostradas a cada ano. Um sucesso crescente que eu mesma cobri por três anos pelas TVs Bandeirantes e Educativa e a que assisti por outros quatro, comprando bolos de ingressos com antecedência para conseguir ver os inéditos de Woody Allen, Almodóvar (naquela época valia a pena!), Godard, Antonioni… e os ganhadores de Cannes e Berlim do mesmo ano, e Veneza do ano anterior. Nos anos em que fui redatora do programa Cineview, da Rede Telecine (2000 a 2002), fazíamos as matérias dos filmes passados em Cannes, coberto por nossos repórteres anualmente in loco e, meses depois, podíamos assistí-los  na íntegra no Festival do Rio. Era especial!

Um belo conto chinês
É com toda esta aura de sucesso e realizações que o grupo Estação chega a Brasília. Na sexta-feira, serão anunciados os primeiros filmes a estrear nas novas telas. Já posso indicar o que escolhemos para ver ontem: “Um Conto Chinês”, uma história sensível sobre o relacionamento entre um argentino solitário e cheio de manias e um jovem chinês que resolve se exilar no País sul-americano após passar por um trauma.

Ricardo Darín dá show novamente, em um papel bem diferente daqueles em que estamos acostumados a vê-lo. Seu vendedor é quase bronco e vai sendo surpreendido pela capacidade de se envolver por aquele rapaz que chegou para atrapalhar sua repetitiva rotina. No começo, podemos até nos enganar confundindo o filme com uma comédia hollywoodiana. Há até uma virada totalmente previsível. Mas é nos detalhes que “Um conto chinês” mostra suas cores e sua beleza.

Nada mal assistir a um ótimo argentino sentada naquela sala de cinema cheirando a nova, com um bom espaço para as pernas, comendo pipoca e tomando espumante. Com o lencinho de avião distribuído pela produção pra limpar o couro da poltrona e não estragar a festa do público na semana que vem.

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Um Beatle em Brasília

Um Beatle está em Brasília, e pela primeira vez! Paul McCartney já passou com turnês pelo Brasil duas vezes, inclusive neste ano, como o ex-companheiro de banda, e nos anos 80, quando o assisti no Maracanã, emocionadíssima. Pois há uma semana, os brasilienses poderiam ver um Beatle, um integrante da banda que mudou o rock and roll, sem cuja existência muitos grupos que vieram depois não teriam sido os mesmos. Era só nisso que eu pensava.

 O clima no foyer do Centro de Convenções Ulysses Guimarães era diferentes do de todos os outros shows a que eu havia ido ali- e olha que fui a muitos do ano passado pra cá. Era um clima de reencontro e celebração entre cinquentões e, principalmente, sessentões e setentões. A alegria entre os amigos que se encontravam por acaso chegava a ser contagiante. Tapinhas nas costas se misturavam com gritos e fotos dos grupos vestidos de camisas de botão e jeans, mas também com camisetas pretas, algumas com a inscrição estilizada Beatles. Via-se que eram pessoas que não frequentavam concertos de rock regularmente. Aquele era um momento especial.

Dentro da sala de concertos, muita gente, inclusive os mais jovens, tirava fotos com o palco atrás, sem ninguém em cima. Seria uma lembrança para se guardar pra sempre. Minha companhia durante a espera, já que a amiga que iria comigo estava atrasada, não era das mais agradáveis: o ex-senador cassado Luís Estêvam, sua mulher e uma penca de filhos, aguardavam na maior alegria pelo show. Já estou acostumada a esbarrar com esta figura de Brasília, ele frequenta a mesma pizzaria a que costumávamos ir e, como nós, todos os domingos por volta das 20 horas. Uma praga!

Com apenas dez minutos de atraso, a All Star Band sobe ao palco seguida por Ringo Starr. O público vai ao delírio enquanto o baterista dos Beatles, em pé e sem instrumento, começa a cantar “It don’t come easy”, uma parceria dele com George Harrison, feita já durante a carreira solo de ambos. Dançando como na época da New Wave, pra um lado e pro outro, Ringo não parece nem de perto ter os 71 anos que tem, no máximo uns 56. Super magro e de barba, mistura calça preta com uma listra de cetim ao longo das pernas com camiseta escura e um blazer com golas brilhantes. A All Star Band, formada por ele desde o final dos Beatles, é uma mistura de músicos americanos e ingleses, a maioria da mesma geração de Ringo, e muitos deles saídos de bandas que foram famosas nas décadas passadas. Não tanto quanto os Beatles, claro, mas famosas. Desta vez a formação é a seguinte: Wally Palmer, Rick Derringer, Edgar Winter, Gary Wright, Richar Page, Mark Rivera e Gregg Bissonette. Baixo, duas baterias (sim, Ringo Star divide a bateria com outro músico!), duas guitarras, um teclado e um saxofone.

 

Thank you, how great to be here”, diz Ringo, sem fazer nenhuma concessão ao português como já é uma praxe entre os músicos gringos que aportam por terras brasileiras. “This is the only place called Brasíiiiiilia-Brazil”, it’s a great place if you can find it”, brinca ele, sem conseguir arrancar muitas risadas da plateia. Começava ali a série enorme de gracinhas que o mais sortudo dos Beatles faria ao longo das cerca de duas horas de show. Sortudo porque Ringo encontrou os Beatles, já Beatles em uma excursão que faziam a Hamburgo, Alemanha, no início da carreira. Pete Best, o primeiro baterista da banda formada por Paul e John, resolvera sair da banda. Estava mais interessado em uma namorada e na pintura, suas verdadeiras paixões. Ringo, na verdade Richard Starkey Jr., um músico apenas mediano, assumiu a batera. Não era um exímio baterista, mas quem disse que os outros Beatles o eram? Como instrumentistas, John e Paul eram ótimos, excepcionais eu diria, letristas e compositores de melodias. E George foi o responsável pela introdução das sonoridades asiáticas na música dos Beatles. Por uma verdadeira revolução na música do quarteto. É só ouvir o “Sgt. Peppers”, pra mim um divisor de águas na obra deles, pra perceber a influência da viagem à Índia à qual George Harrison levou os três colegas.

Beatles 

Honey don’t” é a próxima música do show e a primeira dos Beatles. Uma canção gravada no álbum “Beatles for Sale” de 1964. É uma verdadeira volta àquele ano: feche os olhos e você verá o quarteto de Liverpool vestido em terninhos, com os famosos cabelos em forma de cuia.

“So, are you ready to have a good time?” pergunta Ringo. Quando o público aplaude animadíssimo, ele solta: “Yes, I am the greatest!”. Provavelmente uma brincadeira com a máxima de John Lennon que um dia disse que os Beatles eram mais populares que Jesus Cristo. “I love you, I love you, I love you”, diz o baterista apontando para uma, outra e outra pessoa da plateia. Na terceira música, um presságio de outra fase dos Beatles, ele cita “The long and winding road”, tocando um trecho dela no meio da canção.

Finalmente, Ringo abandona os passinhos New Wave e vai para a bateria where he belongs. Começa “Super hang out”, o clássico do The McCoys, conhecido no Brasil pela versão da Jovem Guarda “Pobre Menina (não tem ninguém)”. Muuuito legal! É que um dos McCoys , Rick Derringer,faz parte da All Star Band. O mais sessentista de seus integrantes. “Everybody is a star tonight”, diz Ringo, acrescentando que todos os colegas de palco vieram de alguma banda importante.

 “Talking in your sleep” dá início ao outro lado do show daquela noite: o lado oitentista. Ingleses de bandas dos anos oitenta, em sua maior parte responsáveis por um hit e nada mais conhecido (as one hit bands), estão em profusão na All Star. Wally Palmar era do The Romantics.

E chega mais um momento super aguardado. “Vou fazer agora um número para as moças, para alguns rapazes também”, anuncia o maroto Ringo. E começa “I wanna be your man”. Esqueça os solos de guitarra que dão uma roupagem “moderna” à música e você se sentirá um beatlemaníaco. Senti isto há pouco mais de vinte anos no Maracanã, com Paul McCartney, e voltei a sentir na semana passada. É inútil tentar descrever a emoção de ouvir um Beatle tocando Beatles na sua frente. Para qualquer fã de rock. E foi por isso que não pensei duas vezes em pagar R$ 450 para ver Ringo Star em um teatro a vinte metros de mim.

 Enquanto o bruxo com cara de Papai Noel Edgar Winter se reveza entre o sax, o teclado, o sintetizador e a percussão, Gary Wright começa o seu solo. “Boa Noite, amigos de Brasília! Tudo bem?”. E começa a tocar “Dream River”, uma balada escrita após uma viagem que fez com George Harrison para a Índia. Wright participou do álbum “All things must pass” do ex-guitarrista dos Beatles.

 Miscelânea
O show é uma mélange total. Tem estilos completamente diferentes entre si, parece mais uma série de shows solo de cada um dos integrantes, mostrando músicas de suas carreiras passadas. O bom é que as canções não são ruins e a banda, além de qualidade musical, tem intensidade, são muitos instrumentos tocando juntos. Um dos pontos altos é “Broken Wings”, uma bela balada da segunda metade dos anos 80 do grupo Mr. Mister. Richard Page é o representante da banda na All Star. Nada a ver com o que se espera de uma apresentação de Ringo, mas este é um bom momento do show. Na verdade tem algo de surreal. Quem imaginaria que Ringo Starr um dia tocaria bateria para o cara do Mr. Mister, típica one hit band, enquanto ele canta seu único sucesso?

Ringo nos lembra que, apesar da miscelânea, está no comando, ao cantar uma canção do disco lançado no ano passado, “Why Not?”. É a sugestiva “The Other Side of Liverpool”, em que ele começa, em tom confessional: “minha mãe era uma enfermeira…”. Boa música!

 Um soul separa a lembrança da Liverpool que nos deu os Beatles do momento mais esperado da noite. É aquela música que John e Paul compuseram pensando no vozeirão de Ringo. A canção que embalou a infância de muitos quarentões como eu e que embala até hoje. “Are you ready to sing?”, pergunta ele. “I like to play this song every night, everybody enjoys it”, diz Ringo. “É um momento musical incrível e eu sou o outro incrível momento”, diz ele, brincando com a própria fama. Começa “Yellow Submarine”, gravada originalmente no álbum Revolver, em 1966, e eu me chateio por não ter levado meu filho de três anos ao show, especialmente para aquele “magical moment”. Yellow Submarine foi a primeira música cujo refrão João cantou em inglês, aos dois anos. Mostrei a ele parte do filme homônimo no youtube, mas só a parte desta música, não o longa-metragem inteiro, que tem partes violentas. Recomendo aos pais, com esta parcimônia, porque os desenhos são muito bem feitos e coloridíssimos.

 

Após longos solos dos stars da banda, Ringo volta ao palco. É impressionante como todo o público se levanta quando ele reaparece, quase uma reverência. “Boys”, uma canção menos famosa dos Beatles, é a escolhida por Ringo. “One of my favourites”, diz ele.

Umas pessoas estão pedindo: ‘please, Ringo, sing “Photograph””, diz o músico, se referindo a outra canção da antiga banda. E eles tocam a linda “Photograph” que, na verdade, já estava no roteiro. “Act Naturally”, outra do quarteto, do álbum “Help!”, de 1965, vem em seguida. É um country e todos cantam. E o momento Beatle não terminou. “Do you need anybody? I want somebody to love!”, canta Ringo, no momento mais emocionante de todo o show, mais ainda do que o submarino amarelo. “A little help from my friends” me remete diretamente à São Paulo de 1982, em que morávamos, e quando os Beatles começaram a tocar fundo os nossos corações, meu e da minha irmã. Naquela época, compramos a coletânea vermelha, a que tem os sucessos mais antigos, que se completa com a coletânea azul, com as músicas mais viajantes da segunda metade da carreira do grupo, no fim dos anos 60. Durante aquela música, Ringo ria e eu chorava.

E pra aumentar a emoção, no finzinho do show, o pacifista Ringo Starr, com sua banda formada por alguns ex-hippies, cita o mais pacifista de todos: John Lennon. “All we are saying, is give peace a chance…”. E os músicos saem do palco deixando a velha mensagem de Paz e Amor, mostrando que um idealista pode ser sempre um idealista. Ringo levanta a mão e faz o sinal de paz e amor com o indicador e o dedo do meio, uma marca registrada sua desde os primórdios. O sinal que havia sido repetido por ele e pelos fãs durante todo o show. Um pouco do espírito hippie nos individualistas dias atuais nunca é demais!

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O dia em que falei com David Lynch sobre meditação

“Sim! Claro! As crianças brasileiras das escolas públicas regulares podem, sim, se beneficiar da meditação em sala de aula. Elas são seres humanos, todo ser humano se beneficia”. Assim respondeu David Lynch a uma pergunta que fiz a ele ontem sobre a viabilidade da meditação na rede pública brasileira. O cineasta, ganhador de três Oscar, participava ao vivo, por vídeo-conferência, de Hollywood, onde mora, do Seminário Internacional sobre a Meditação Transcendental e a Educação. O encontro foi promovido pela Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados e pela Frente Parlamentar Mista da Educação do Congresso Nacional, bem ali, pertinho do meu local de trabalho, no Auditório da TV Câmara.

Quando vi as informações na segunda-feira, corri para transformá-las em pauta antes que alguém a apagasse por achá-la “idiota”. É, tem gente no meu trabalho que acha meditação idiota, se for pra melhorar o aprendizado, então… Uma colega, estagiária, a Marcela Picanço, pediu a uma chefe de bom senso para cobrir o evento, que seria fora do meu horário de trabalho, se não, eu mesma teria me oferecido. Imagine, o criador da obra prima “O Homem-Elefante”, de viagens interessantíssimas como “Coração Selvagem” (nossa, ele dirigiu Nicolas Cage quando este só fazia filmes que prestavam! Ou seja, há muuuito tempo! Vejam foto do filme abaixo), “Veludo Azul” (pelo qual me interessei mais há algumas semanas, revendo vinte anos depois da primeira vez), e o fantástico e surrealista “Cidade dos sonhos”! Claro que seria uma bela oportunidade! Cinema encontra meditação, outra de minhas paixões. Melhor ainda!

Pois é, este autor de obras meio loucas, com fortes doses de violência física e, principalmente, psicológica, e com personagens tirados do universo onírico também se interessa por meditação, mais especificamente, pela meditação transcendental. Esta linha é aquela que foi introduzida em 1958 pelo guia espiritual indiano Maharishi Mahesh Yogi (foto abaixo), envolvendo o uso mental de sons específicos, com propriedades psicoativas, os chamados mantras.

Eu que pratico canto e meditação da linhagem de Syddha Yoga há quase dez anos, sei que a meditação com base em mantras já existia na Índia, porém, há milênios, claro. A repetição infindável de mantras faz com que a pessoa consiga ir se desligando dos pensamentos que inundam sua mente o tempo todo e passe a um nível de relaxamento crescente.

Mais importante do que as características específicas da meditação transcendental em relação a outras linhas como a que eu pratico, é que a linha iniciada por Maharishi está sendo utilizada na educação, e melhor, na educação pública, para meninos e meninas a partir de 10 anos. David Lynch criou uma Fundação especificamente para divulgar o uso da Meditação Transcendental nas escolas do mundo todo. Mais de 250 mil crianças já têm acesso à meditação transcendental em suas escolas. O criador da intrincada trama do seriado Twin Peaks é, quem diria, um dos grandes divulgadores desta prática no mundo.

“É fácil perceber a diferença entre os alunos que praticaram a meditação e os de outras escolas”, continuou Lynch.  “As crianças estão cheias de estresse, cansadas, não dormem direito. Aí são inundadas por um oceano de energia. Elas vão poder dormir, a capacidade de se concentrar aumenta, a motivação volta”, disse um entusiasmado Lynch.

Inteligência criativa
Duas outras pessoas fizeram perguntas depois de mim. Não tive tempo de pensar e estava muito focada na questão das crianças, mas não teria sido óbvio perguntar se Bobby Peru de “Coração Selvagem” ou os anões, vilões (como o conturbado personagem de Dennis Hopper em “Veludo Azul) e detetives intrigantes de outros dos filmes de David Lynch foram imaginados enquanto ele meditava?  Eu mesmo, quando entro em meditação, o momento de maior tranquilidade mental que se pode alcançar, tenho, às vezes, ideias mais inteligentes do que no dia a dia agitado. Elementar: a mente está descansada.

“É a inteligência criativa”, já tinha dito Lynch, dando pistas de que minhas suspeitas sobre a meditação e o seu processo criativo estavam certas. “É sempre assim, as pessoas dizem: ‘estou mais criativo e aumentou minha capacidade de resolver problemas’”.

“Onde está toda aquela raiva?”
Para ele, a técnica, além da diminuir a violência entre os estudantes, deixando-os mais calmos, tem como consequência levar as pessoas ficarem mais felizes e com maior capacidade de se focarem em algo, distinguindo problemas pequenos dos grandes. “Eu tinha muita raiva, dentro de mim, tensão e preocupação, como todo mundo”, confidenciou Lynch (foto abaixo). “Depois da meditação, minha mulher me perguntava: ‘onde está toda aquela raiva, o que aconteceu?’”, contou o cineasta. “Ora, minha raiva foi embora naturalmente, é isto que acontece. Foi lindo”, contou ele, da mesma forma que fez no documentário 2012, a que assisti há cerca de um mês na mostra de filmes do CCBB passados no Cine Brasília. A negatividade não traz criatividade”, concluiu.

Os melhores desempenhos escolares
Antes de David Lynch, havia falado no Seminário o diretor de Expansão da Maharishi Free School, da Inglaterra, Richard Scott. Sua explanação foi surpreendente. Mostrando gráficos, ele explicou que a instituição, que tem como cultura aplicar a meditação transcendental para alunos e professores, está entre os 2% melhores escolas do Reino Unido, onde os alunos têm  melhor desempenho. A meditação faz toda a diferença na capacidade dos alunos para apreender o conteúdo das matérias. “Os alunos são mais criativos, têm maior capacidade de trabalhar em grupo e de resolver problemas por causa da técnica praticada duas vezes ao dia, por 20 minutos”, afirmou Scott, ele mesmo muito calmo. “Uma vez implantada a prática da meditação transcendental, a educação em qualquer país pode ser mais efetiva”, concluiu Scott.

O deputado Alex Canziani (PTB-PR), que tomou a iniciativa de promover o seminário, e ele mesmo um meditante, pretende expandir a cultura da meditação transcendental nas escolas brasileiras, como uma contribuição de aprendizagem para os estudantes e para as futuras gerações, como apurou Marcela para sua matéria.

O diretor da Fundação David Lynch no Brasil, Joan Roura, primeiro a falar no seminário, comparou a mente humana com o oceano. A superfície do mar, com toda a sua agitação, seria a parte consciente; o subconsciente corresponderia à parte central do Oceano e, por meio da meditação, as pessoas iriam chegar à quietude da mente, como no calmo fundo do mar. Segundo ele, a meditação reduz a substância cortisonoplasma, diminuindo, assim, o estresse. “A meditação diminui o estresse, a ansiedade e a depressão. Funciona muito bem na melhora do déficit de atenção e ajuda a prevenir o uso das drogas”, acrescentou ainda Roura.

Alguém ainda tem dúvida dos benefícios que esta prática pode trazer para as crianças brasileiras? Imagine a meditação universalizada no ensino público do nosso País. “Seria o melhor presente que vocês poderiam dar a suas crianças”, garante David Lynch.

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