O medo pós-Snowden

Quem sai do cinema depois de assistir a “Snowden”, sai com medo. Não é terror, mas é assustador. Saem vampiros e zumbis e entra a realidade. O filme transmite a verdadeira dimensão da espionagem perpetrada pelo governo dos Estados Unidos, a maior potência econômica do mundo, em outros governos, como o do Brasil, na vida pessoal de cidadãos como você e eu. O expectador vê como seus e-mails, suas mensagens no facebook, seus telefonemas, todas as formas de comunicação modernas, podem ser, e são, rackeadas pela CIA, pela NSA, a Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos e por outros braços da Inteligência americana.

O filme começa mostrando como o jovem Edward Snowden é nacionalista, dedicado ao trabalho e tem o sonho de servir seu país. Primeiro ele entra no Exército e, depois de um acidente, resolve tentar entrar na CIA. Lá dentro, logo sua incrível capacidade de criar programas de computador é reconhecida e é um pulo até que ele alcance uma posição importante nos serviços de Inteligência.

Não demora tanto para Snowden descobrir que o Sistema não era regido pelos altos princípios em que ele sempre acreditou. Aos poucos, ele mesmo é levado a espionar, raquear, usar programas sigilosos… Enfim, vê que o objetivo do governo americano vai muito além de caçar terroristas. O interesse, mesmo na Era Obama, é econômico. Estão no filme a Petrobras, a então presidente Dilma, isso pra falar só do Brasil.

“Snowden” é contado em flash back. Na primeira sequência, o ex-agente secreto americano já aparece em Hong Kong, pronto para conhecer os jornalistas Glenn Greenwald, na época do jornal The Guardian, da Inglaterra, e Laura Poitras, que depois dirigiria o filme “Citizenfour”, que terminou ganhando o Oscar de melhor Documentário. Os dois iriam mostrar ao mundo todas as revelações de Snowden e os bastidores do encontro entre eles.

Os jornalistas costumam associar Oliver Stone a “Nascido em 4 de Julho”, mas dois outros filmes dele foram mais marcantes pra mim. O primeiro foi “Platoon”, o filme que retratou com maior realismo até então os horrores da Guerra do Vietnã. Mostrava o sofrimento dos soldados, a dificuldade com que eles enfrentaram o esquema de túneis criado pelos vietnamitas, e de quebra revelou Johnny Depp. O segundo é a cinebiografia dos Doors, a banda californiana que tinha Jim Morrison como cantor e letrista. Stone conseguiu “transformar” o feioso Val Kilmer no lindo Jim Morrison, mudando seus trejeitos e mostrou a importância de Ray Manzarek, o tecladista que inventou a banda. Ali, Oliver Stone se forjou como biógrafo, o que ele faz de novo agora com “Snowden”. Na foto abaixo, ele aparece com Joseph Gordon Levitt, que está muito bem no papel de Snowden; e Shailene Woodley, que faz sua namorada. O elenco também conta com Melissa Leo, que já ganhou um Oscar, e Nicholas Cage faz uma participação especial interessante.

Jornalismo
Pra quem é jornalista ou gosta de jornalismo, o filme tem um plus: mostrar o trabalho de Gleen Greenwald, que terminou ganhando o Pulitzer e também o prêmio Esso no Brasil. Depois, Greenwald sairia do Guardian para co-criar o site The Intercept, que tem versões em português e em inglês e que ele produz daqui do Brasil, onde mora com o marido há 12 anos.

Agora no início de dezembro, a TV Câmara, vai mostrar uma entrevista que eu fiz com Greenwald para o programa Ponto de Vista. Ele me deu alguns detalhes de como aconteceu o contato de Snowden com ele, como ele custou a acreditar em toda aquela história de espionagem internacional feita pelos Estados Unidos. O filme resume este contato. Mas mostra o esforço de Glenn pra “vender” a matéria pro próprio jornal, pra convencer a editora-chefe da importância de publicar logo, antes que a CIA interferisse.

Inimigo
Claro que o filme também mostra a história pessoal do Snowden, com sua namorada de muito tempo e os conflitos causados pelo fato de ele não poder revelar quase nada sobre seu trabalho. É um thriller, porque há o suspense em torno de como ele vai conseguir levar aquelas informações pra fora dos Estados Unidos e de como ele vai viver a partir das revelações, sendo considerado por muitos americanos um inimigo de seu próprio País. Aliás, no Brasil o filme ganhou o nome de “Snowden, herói ou traidor”.
Uma coisa é certa: ao assistir a “Snowden”, você nunca mais vai acessar o facebook do mesmo jeito…

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